quinta-feira, outubro 27, 2005

Fogo Fátuo

(ou anotações sobre um Grande Vazio)

Não sei, não dói. Não que eu perceba. Não que eu esteja na busca incessante e desesperada por algo que se perdeu. Nem que eu queira encontrar alguma coisa perdida dentro das brasas que subiram daquela fogueira. Não quero recuperar nada ou ninguém. Não quero refazer caminhos, não quero costurar acordos, iluminar becos, descrever os roteiros dos corpos, as chaves das portas, a terrível vertigem de quem olha para baixo. Não quero retomar projetos, recolher migalhas, nem faxinar o apartamento para encontrar todas as moedas de dez centavos que ficaram perdidas por aí. Não quero ser dotado do poder de vida ou morte, ou destilar palavras tão simples que tu desfalecerias quando elas viessem à tona. Não quero me preocupar com o futuro, nem inventar situações ou desculpas ou novos prazeres para.

Sou só negativas.

Tão estranho, nesse calor, tomando groselha quente com miojo e pensar no Grande Vazio. Imensurável. É desalento sem descambar para depressão. É movimento, sem transformar em Carnaval. É deixar a rotina levar, como um grande rio, com esperança de desembocar em algo tão maior. Sem energia alguma para manobrar o timão ou sequer olhar além da amurada.


Frank Sinatra
canta toda melancolia que me privo de sentir.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Telegráfica 2

Minha solidão, sua solidão.

Até onde são ironias?

É a solidão escapando pelas ironias?

Se fosse, se fosse... ah!

Tão bom se fosse.

Estou precisando que essa primavera comece logo.

terça-feira, outubro 25, 2005

Alguma coisa acontece...

Sampa é encantadora porque paradoxal. Sampa é encantadora por causa de sua beleza escondida, essa coisa tão contraste de doer a vista. São os prédios da mais fina arquitetura do início do século descaracterizados pelas pichações e cartazes. São os engravatados andando de Metrô. São os mendigos dormindo na porta ds grandes corporações. É ir à cracolândia para tomar chopp num bar de 60 anos. A Brasília e o Land Rover lado a lado no estacionamento do Copam. É o buteco com samba do lado do restaurante japonês. É esse caos louco de carros e motos e pessoas e bicicletas e ônibus e semáforos e todo mundo indo e vindo sem perguntar de onde vem tanto ir e vir. É a boate da moda ficar do lado das boates de prostituição. É ver tanta coisa grande num espaço tão pequeno. É almoçar num restaurante, do lado da biblioteca infantil e ganhar um cafezinho e uma camisinha de brinde. É a Benedita, nossa Mãe Preta, estar enterrada ao lado do Barão de Antonina no Cemitério da Consolação. É olhar fascinado pra tanta coisa interessante para ser garimpada, explorada, degustada, beijada, vivida, caminhada. É querer entrar nessa loucura esquizofrênica de peito aberto, pelo menos por um tempo, pelo menos para aprender a viver a mil por hora.

Sampa, te amo, ainda que feia e caótica, ainda que insegura e esquizofrênica, ainda que poluída e decadente, ainda que cara e distante, ainda que ilógica, instável e insensível.

Te amo.

Juro.

TIM Festival

O coro do Arcade Fire ainda ecoa na minha cabeça. Não tem como explicar. I can see where I am goin’. Eles gritavam, eles batiam. Eles pulavam no palco.

E os Strokes foram os Strokes. I try but you see it's hard to explain. E é mesmo. The Strokes em vermelho & amarelo no palco foi uma das coisas mais fantásticas que eu já vi na vida.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Blame the black star

"You were right about the stars
Each one is a setting sun"
(Jesus, etc - Wilco)

Essa madrugada me dá uma melancolia. Essa cerveja que tomamos também tem cá o seu efeito. Foxtrot Hotel, nesse quarto tão escuro, tão sozinho. É um CD que fala sobre a perda da inocência e como sentimos falta dela. Mentiras que são desejos. Últimos cigarros. Sobre morrer e voltar novo em folha. Sobre estar perdido. Corações congelados. Sobre perder. E sobre estrelas.

Everyone is a burning sun

Estrelas necessitam outro parágrafo. Estrelas que apagam, estrelas que explodem. Cada um, somos uma delas - decadentes e em renovação. Porque todos que me cercam estão sob maldição de uma triste sina: por eles tenho duas atitudes constantes, ora de desencanto, ora de redescoberta. Burning, setting, cada um ao seu tempo.

Por isto que é preciso tanta parcimônia comigo. Desculpe se magôo com meu silêncio, estas palavras atravessadas, esse desamor que eventualmente me rege. O importante é saber que eu sempre volto. Ao mesmo ponto. À redescoberta. Ao olhar tonto daquele que vê pela primeira vez.

Foxtrot Hotel me deixou triste como poucas coisas conseguem. Acho que só Parachutes, num dia nublado ou The Bends, por ser tão foda quanto é. Mas fico triste bem. Porque choveu tanto lá fora que não há estrela alguma no céu...

terça-feira, outubro 18, 2005

Nem foi tempo perdido...

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."
(Caio Fernando Abreu)

Um mês e meio. Pouco mais, pouco menos. Se sentasse defronte à calculadora, saberia quanto tempo com exatidão: os dias, as horas, minutos e segundos. Um mês e meio, num piscar de olhos. Tanto tempo nas costas que uma eternidade se plantou por entre. Apagou os desenhos e os caminhos. Aqueles que restaram, acabei de dinamitar por mim mesmo - nada de imoralidades ou margem para retorno.

Doeu sim. Mas nada que fosse dividido eqüitativamente por cada segundo que se arrastou. Foi pungente nos primeiros segundos até o virar das semanas, depois um pouquinho de gosto amargo na boca por engolir um pouco de saliva que deveria ter sido cuspida para fora. O estranho é esse vácuo todo na hora de dormir - percebam que por causa disso o tema ainda está tão recorrente. Não que doa mais: só que na madrugada, alguma coisa ainda recende. Como brasa ao longe no último suspiro, nas últimas crepitações. Não arde, não dói. Acho que posso até brincar com as cinzas por entre os dedos, soprá-la e ver lentamente vê-la esvaecer com o vento.

Dobro outras esquinas, encontro outras ruas. Desafios novos em folha para serem enfrentados. Escolhas para serem feitas. E ainda sobra tempo para um café, à meia luz, enquanto a cidade passa ou dorme, enquanto fico inerte feito um jardineiro fiel, calculando quando retornarei cinematograficamente para aquele trem que corta a vida.

Um mês e meio. Talvez um pouco mais. Quem se importa agora?

domingo, outubro 16, 2005

Constatação

Make your own kind of music*, diz a música. E eu concordo.

Um punhado de lembranças doces. The beautiful thing. As palestras sobre chuvas. Um tempo sem perigo, com tempestades escuras que acabavam ali, naquele shopping domingueiro com cinema & número dois do Mc Donalds (que, na época, custava R$4,95) e as promessas que tudo iria dar certo ao seu tempo.

Agora o shopping foi invadidos pelos manos e as pessoas se perderam pelo Brasil, cada um buscando aquilo que julga acreditar. Aprendi a tomar cerveja e a ser menos triste. Só que 98% do tempo tornou-se tão protocolar que nem exige muito exercício mental. Quase todos só merecem respostas automáticas e reflexas, sorrisos pré-fabricados e desculpas tangenciais. Meu mundo já não tem mais tempestades, mas era muito melhor que esse cotidiano nublado, mormacento e sem dois pingos de emoção.

* Idem - The Mamas and the Papas

sexta-feira, outubro 14, 2005

Escrevendo

Estou escrevendo uma história, nada de mais. Deve fazer uns bons três ou quatro anos que ela me atormenta, vem em flashes, pequenos pedaços. Às vezes, num momento impróprio (como aula de faculdade) ou árido (como dirigir o carro, ali pelas quatro horas da tarde, sem companhia nem rádio) ou insone. De tanto pensar, decidi colocá-la em palavras, sem pretensão ou pressa.

Só não tinha noção que era uma tarefa tão difícil. Quando lemos, parece tão fácil encaixar as palavrinhas, enfileirando-as. Parece que elas sempre estiveram ali, nasceram para aquilo. Mal consigo passar do terceiro parágrafo sem entrar em parafuso: como colocar um casal discutindo, dentro de um carro em movimento, sem perder o foco ou o fio da meada? Como alternar descrição e ação e pensamento e mundo interior e exterior? Como transformar tantas idéias truncadas numa prosa tão límpida, para que quem leia pense que escrever tudo aquilo foi igual respirar, sem esforço algum?

Queria a capacidade de condução do leitor do Machado de Assis, o fluxo de consciência de Clarice Lispector, a pureza narrativa de Fernando Sabino ou Érico Veríssimo, o sarcasmo de Nick Hornby, os adjetivos e sentimentos do Caio Fernando Abreu. Tudo isto sem parecer colcha de retalhos nem plágio. Sei que quero demais, mas nunca me contentei com pouco.
O remédio é voltar a ler. Compulsivamente. Do clássico ao Harry Potter. Enquanto isso, vou pingando parágrafos e frases, corrigindo-as compulsivamente até que elas tomem sentido. E se avolumem. E que os personagens pulem do papel, venham tomar café-da-manhã comigo, persigam-me no cinema.

Acho que só irei ser feliz ali pela página cinquenta.

terça-feira, outubro 11, 2005

Recaída

Acho que passei por todos os tipos de sentimento na última semana por causa disso. Amei e odiei, sofri, quis bem e mal. Me vi dotado de toda capacidade de perdão e vingança. No final, acho que só reforçou o sentimento de final de festa, que é hora de desarmar as barracas e montar acampamento em outro lugar. A única coisa que eu senti num reencontro, por entre estes becos escuros da vida, foi um grande desconforto pela situação constrangedora que é o término de alguma coisa, ainda mais do jeito que foi. Mais nada.

Tão estranho tanto querer bem descambar nisto. Tanto sentimento se incendiar desta forma. Dói de uma forma que não consigo entender. Dói como um fracasso, um filho que não tive e morreu no parto. Dói como pedra nos rins, tiro no braço, unha encravada. Dói pensar que as pessoas despencam no espectro tão rapidamente, que perdemos o controle por conta de coisas tão bobas. Dói porque os caminhos da cidade continuam os mesmos. Dói essa incapacidade de incinerar todas as lembranças (pensou no "Brilho eterno"? Bingo!). Dói olhar para as mãos e perceber as cicatrizes. Dói lembrar que um pouco da inocência foi perdida e nada será mais como antes.

Até que no final de toda dor chega a Luz. Etérea, pelas frestas das janelas fechadas. Invadindo cada centímetro quadrado de solidão e poeira, como a primeira brisa que sopra numa cidade do litoral. Acho que já estou assim - só que, no momento, tudo o que quero e preciso é um pouco mais de silêncio...

sábado, outubro 08, 2005

Latinidade

Queria ser dono de uma civilidade britânica. Ter na alma cravada aquela neutralidade escandinava, sem culpa. A liberdade holandesa de pensamento, onde tudo vale enquanto estamos dentro do nosso espaço sem encher o saco de ninguém.

De europeu, devo ter uns genezinhos perdidos e olhe lá.

Não quero apenas cordialidades com banalidades e adeus. Encimar o muro, "por uma sociedade mais tranquila". Preferiria ver sangue, explosões passionais, escândalos sinceros, lágrimas verdadeiras, argumentos dolorosos escorrendo pelos cortes. Gosto de luz naquilo que é polêmico. Ainda que eu perca, esteja errado. Se te odeio, porque não dizer? Se te odeio (mas ainda tenho um tesãozinho reprimido), porque não pendurar em seu pescoço e te odiar cinco minutos mais tarde? Se você foi sarcástica/irônica/mal-educada, porque não pagar na mesma moeda?

Porque essa necessidade pequeno-burguesa de perdoar os erros só porque "é edificante"?

Acho que eu até poderia (tentar) responder estas perguntas, pois ainda sou um praticante do "meio campo" social, com muito estilo diga-se de passagem.

Mas é um posicionamento insustentável. Até quando vou ser civilizado? Até quando conseguirei omitir os gritos?

quinta-feira, outubro 06, 2005

Telegráficas

Meu ego não cabe dentro desta sala. E isto só significa uma coisa: problemas, muitos problemas. Numa escala nunca vista.

-*-*-*-

Isto é um filme surreal ou estou de plantão no primeiro de janeiro? Se for, por favor, alguém me acorde que não gostei nada disso.

-*-*-*-

É crime dizer que até que estou gostando desta greve? Juro que é verdade. Juro mesmo.

-*-*-*-

Amanhã me reserva o imprevisível. Potencializado por (álcool)². Socorro.

-*-*-*-

É isso, assim: inútil mesmo.

terça-feira, outubro 04, 2005

As tempestades invisíveis

Ainda bem que não era nada. Ainda bem que passou. Digo isto no melhor estilo "pois é, as uvas estavam verdes mesmo". Mas não é hipocrisia, nem brincar de Poliana. Só que este era provavelmente o caminho mais indolor para ambas a partes: o silêncio, os desencontros, o pó e mais nada. Tudo foi só um petelequinho que me deram no pé da orelha, já passou, já passou.

Difícil foi o que caiu quando eu reabri a gaveta, aquela que jurei ter esquecido a chave. Fazer a autópsia dos sentimentos exumados. É cruel demais você ter feito o seu melhor e não ter sido sequer suficiente. Com a melhor de todas as intenções. E por mais que você mentalize que "no final era eu quem estava certo", a grande verdade é que não foi o bastante. Você foi falho.

E agora, além de falho, foi incapaz de evitar que um pouco de tudo voltasse a tona e doesse novamente.

Mas doeu, um pouco só, e já passou. Como quem rala o cotovelo e passa Merthiolate. Já tá melhor, eu juro. Assim. Espero.

domingo, outubro 02, 2005

Pescaria

A nuvem negra parece que não dá sinais de amenidades: as cólicas vão e vem, e, como se não bastasse, Jason strikes again (no melhor estilho Nina, Jô e Raq).

Lá me vou interpretar silêncios novamente. Colocar tanta coisa na balança, com tanta gente falando tanta coisa. Aguardar, igual um pescador, a movimentação concluir (ou, numa hipótese provável, se mostrar inconclusiva). A isca tá lá, na água. E eu fico aqui, com cara de paisagem, pensando pensando.

Isto porque eu odeio pescarias. Filosofo sim, mas sou um menino de ação.