sexta-feira, setembro 30, 2005

Pipa

Também queria ser a Kite* distante no céu, baby. Equilibrado e preso por apenas um fio, mais nada. O vento, a brisa, seja para onde for. Not afraid to die, not afraid to live, como diria a música. Só que essa é uma postura tão insustentável. Já tentei ser pipa e pairar por cima de tudo, dos prédios, dos problemas insolúveis, dos sentimentos feridos. Não deu.

Porque viver é sinônimo de criar fios. Ainda que não se perca a natureza de pipa, a cada dia fico mais preso ao chão. Cada dia, sinto mais necessidade de ter amarras suficientemente firmes para aguentar todo o peso do papel e barbante. O céu é vasto demais, grande demais, solitário demais. Ser tão livre é assustador pois liberdade está longe de ser uma benção: é uma pesada condenação.

Talvez a beleza de tudo esteja na tal liberdade compartilhada. Que voemos, ao sabor das brisas e tufões. Mas acompanhados de outras pipas, que o vento caprichosamente as joga para perto e para longe. Assim, os fios antes solitários se entrelaçam, se amarram em diferentes pontos, criando proximidades e afinidades de todos os níveis. Com o devido vagar e parcimônia, para que um puxão súbito não derrume todas as pipas do céu. E que fiquemos assim, com o pálio aberto como promessa de possibilidades - e os pés, ligeiramente presos ao chão só para que a leveza não se torne insustentável...

* Kite (U2)

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