sexta-feira, setembro 30, 2005

Pipa

Também queria ser a Kite* distante no céu, baby. Equilibrado e preso por apenas um fio, mais nada. O vento, a brisa, seja para onde for. Not afraid to die, not afraid to live, como diria a música. Só que essa é uma postura tão insustentável. Já tentei ser pipa e pairar por cima de tudo, dos prédios, dos problemas insolúveis, dos sentimentos feridos. Não deu.

Porque viver é sinônimo de criar fios. Ainda que não se perca a natureza de pipa, a cada dia fico mais preso ao chão. Cada dia, sinto mais necessidade de ter amarras suficientemente firmes para aguentar todo o peso do papel e barbante. O céu é vasto demais, grande demais, solitário demais. Ser tão livre é assustador pois liberdade está longe de ser uma benção: é uma pesada condenação.

Talvez a beleza de tudo esteja na tal liberdade compartilhada. Que voemos, ao sabor das brisas e tufões. Mas acompanhados de outras pipas, que o vento caprichosamente as joga para perto e para longe. Assim, os fios antes solitários se entrelaçam, se amarram em diferentes pontos, criando proximidades e afinidades de todos os níveis. Com o devido vagar e parcimônia, para que um puxão súbito não derrume todas as pipas do céu. E que fiquemos assim, com o pálio aberto como promessa de possibilidades - e os pés, ligeiramente presos ao chão só para que a leveza não se torne insustentável...

* Kite (U2)

quinta-feira, setembro 29, 2005

Crime e castigo

Novamente fui julgado e condenado pela superficialidade dos meus atos. Acho que, por uns cinco segundos, fiquei muitíssimo irritado. Até perceber que, para julgar as pessoas, superficializamo-nas, para ficarem mais compreensíveis e palatáveis.

Julgamos o livro pela capa e isto é fato. Comigo não seria diferente. E vamos indo.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Murphy é pai...

Se na quinta finalmente minhas caras amígdalas resolveram dar trégua e o corpo, vencido, pôde respirar, zás: logo na sexta um caprichoso cálculo, provavelmente de um tamanho ridículo, começou a doer em algum lugar entre meus rins e minha bexiga. Ali, do lado esquerdo - gauche. E como o é um cálculo ridículo, se trata de uma dor ridícula; porém, muitíssimo irritante.

Devo estar no quinto litro de água e mijo igual um bêbado, na esperança que meus glóbulos homeopáticos e o fluxo de urina mandem esse hospedeiro para fora. Eu, por aqui, assisto passivamente as traquinagens que Murphy vai me reservando. Sem dinheiro para academia, só quando outubro vier. Deveria ter estudado qualquer coisa sobre coração, mas o Orkut falou mais alto. Descobri que posso ser odiado em mais um nível, fato que eu sinceramente duvidava. Marcam o show dos Los Hermanos exatamente no final de semana que não poderei assistir - ou poderei, se a pindaíba continuar e os Strokes forem cancelados. A conta de telefone veio astronômica. Quem tinha que me ligar, não me ligou. E como diriam os franceses: "c'est la vie".

Só mentalizar que ainda é primavera. É primavera. É primavera e eu vi um ipê em flor...

Uma Carta Aberta

Essa carta foi enviada à um Y group que faço parte por uma amiga.

"Pessoal,
Talvez o grupo não sirva para encaminhar esse tipode mensagem. No entanto, como todos vcs que tiveramcontato comigo nesses últimos dias jah devem terpercebido, me encontro, digamos assim, puta e resolvienviar. Estou puta com a situação em geral, não somente coma greve. A greve provavelmente só desencadeou umsentimento de impotência diante dos fatos e de revoltapor ver o que os nossos governantes fazem (o que, bythe way e pior ainda por isso, não é de hoje)e por nãosaber como agir diante disso. Apesar de não concordar com o mecanismo da greve eachar que só prejudica a todos e não resulta em nada(o que é muito triste e demostra mais descaso aindapor parte de todos _ governo, sociedade e o caralho aquatro) entendo os motivos dos reivindicantes e não éisso que contesto aqui. O meu objetivo com esse email é o objetivo egoístade desabafar. Sei lá, talvez pedir ajuda. Ou somentedemostar revolta. Isso porque não tenho a pretenção,ou melhor, estou pessimista o bastante para achar quenão posso, nem por meio desta , nem de jeito algum domeu conhecimento e ao meu alcance, mobilizar aspessoas e mudar uma situação que me parece imutável. Mobilizar a quem mesmo??? Mobilizar a fazer o quemesmo??? Percebem a gravidade da situação? Não sei oque fazer nem a quem recorrer.
O que sei no momento, é que não devemos abandonaro nosso país. Apesar de ter dito para alguns queentendo as pessoas que vão estudar fora pela falta derecursos nacionais, e pelo tom de abandono e revolta etalvez fatal comodismo, não acho que devamos nosrevoltar contra o país, nem desistir. Na verdade nãosei como agir, mas não desistirei de fazê-lo (aindavou desbobrir como). Temos que fazer alguma coisa (mefalem o que por favor) pelo país e não abandoná-lo aosestúpidos que se aproveitam do "sistema" (clichezão) eda falta de educação do povo para manter o podrestatus quo a seu favor.
Talvez eu tenha sido incoerente, o que eu mesmasempre critico, mas isso demostra a minha confusãomental. Talvez tenha deomstrado a minha ignorância(possivelmente ampliada pela confusão mental) e seesse for o caso ignorem a ignorância ou me ajudem aentender, melhorar, whatsoever. Talvez tenha sóparecido uma louca demostrando seu senso comum e assimtenha sido além de louca repetitiva (desculpem sealguém jah tiver escrito isso mas ainda não li osemail e precisava escrever logo). Talvez tenha deixadotransparecer meu nacionalismo infindável e, nesse casonão tenho do que me desculpar. Talvez vcs achem que eudeveria ter escrito isso em um diário, mas estoucansada de guardar isso só pra mim. Em todo caso, desculpem-me por tomar o tempo detodos com o meu desabafo. Para os que ainda tempaciência, segue o anexo. Para os que não tem, leiam-odepois, mas gostaria que lessem. Bjos,
Carolzinha"

quinta-feira, setembro 22, 2005

Como já diziam os boêmios...

"Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés"
(O mundo é um moinho - Cartola, regravado pelo Cazuza e metade da MPB)

Escuta, vai. Escuta.

terça-feira, setembro 20, 2005

In Bloom

Minhas amígdalas travam um duelo implacável com meu corpo há três dias. Nada de grave, nada que mate. Umas febres, umas dores, umas indiposições, só. E enquanto a batalha não se resolve, fico aqui, contemplando o mundo.

Voltei para casa e estar em casa é bom. Mimado e bem tratado, enquanto observo o balé cotidiano da minha família que há muito tempo não era espectador. Numa passividade tranqüila e otimista.

Talvez amanhã eu finalmente saia de casa, se as amígdalas permitirem. Talvez um livro na biblioteca, um DVD da locadora, um filme no cinema. Solitário, mas a solidão é algo que nem de longe me incomoda. Só esperando o final de semana. Só esperando a primavera que chega amanhã. E que ela leve todo ranço dos amores que morreram no criado-mudo por falta d'água, as perdições, as incertezas, os sentimentos desperdiçados, as navalhas inconscientes.

Só esperando, distraidamente (como se deve ser), outra nesga, outro estalo para correr atrás...

sexta-feira, setembro 16, 2005

Summer breeze

E eu me pego refazendo os velhos caminhos. Os antigos profiles do Orkut. Mudo o profile tão distraidamente. Vou mastigando murmúrios de minhas conclusões solitárias, enquanto arrumo a bagunça tão lentamente que em cinco minutos depois tudo já está como antes.

A inútil paisagem se forma diariamente pela minha janela, atrás do prédio que cobre o pôr-do-sol.

E ainda vou à academia tão religiosamente que me assusto. Esqueço de pagar as contas do mês e vou deixando, deixando. De resto, tudo congelado pela greve dos professores. Todo mundo ficou no mesmo estado - até eu.

Será que isto é bom?

terça-feira, setembro 13, 2005

Impressões ribeirãopretanas

Não havia ninguém para me ajudar: todos só sabiam parte da verdade. Meus pais entregaram a decisão em minhas mãos, para que eu fizesse o melhor que fosse para mim. Ao pesar na balança, ficar e partir tinham pontos positivos tentadores e pontos negativos consideráveis. E depois de meses insones, degladiar contra matérias soporíferas, de conversas complicadas, de magoar pessoas sem ver, expectativas de tranquilidade e liberdade, decidi: ficar.

Não porque Uberlândia fosse melhor ou pior. Não porque tivesse medo da mudança, que todas as promessas de quatro anos se convertessem em realidade. Não porque eu tivesse reencontrado a magia nas pequenas coisas daqui, finalmente confrontado a verdadeira face lisa da maioria das pessoas que convivo. Decidi ficar por pura teimosia. Decidi esgotar todas as possibilidades por aqui, mesmo que só seja para ratificar todas as minhas opiniões.

De resto, Ribeirão foi muito bom. Pinguim com pizza, novas vitórias. Recuperar a moral. Daquelas noites sem dormir, mas tão boas, tão redentoras mesmo não acontecendo nada. E vamos assim, passos lentos e silenciosos, só para o coração não ser enganado novamente...

sexta-feira, setembro 09, 2005

Must like dogs

Tão estranho te ver de novo ali, querida, entre nós. Como se nada tivesse mudado, nós não estivéssemos crescendo, os adultos cobrando cada vez mais responsabilidades e eletrodomésticos, estarmos às portas da emancipação, do boa sorte e vai catar seu rumo.

Como você disse uma vez para mim, na carta mais linda que já recebi na vida, éramos os mesmos. Mas, ao mesmo tempo, estávamos tão diferentes. Percebi isto quando você me falou "e você estava tão seguro, tão confiante". Reverberou forte. Porque eu realmente estava seguro e confiante. E ainda estou, de uma forma diferente. Como se os meus passos fossem firmes e fortes. Como se, ao deparar com um desvio, não fosse tão difícil alterar a rota e tentar o retorno para o caminho inicial. Naquele sentimento de: e se der errado, é só começar de novo.

Lembra quando tudo parecia tão difícil? Os blogs tinham fundo preto e ficavam lamentando por uma vida que poderia ter sido. Tão Bandeira, tão tísicos. Achava toda aquela nossa melancolia tão bonita e romântica, aquela que aprendeste com a madrugada e eu fui apreendendo com o tempo. Nós éramos tão lindos e ninguém percebeu, essa é a verdade. E mudamos. E, apesar de toda beleza, prefiro acreditar que continuamos lindos porém diferentes, tão mais isto tudo que estamos virando, estamos crescendo (sim, no gerúndio mesmo, e daí?), estamos caminhando para um dia... puff! Vai saber.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Before sunsire

"Sabe qual é a pior coisa de alguém terminar com você? É quando você se lembra o pouco que pensou nas pessoas com quem você terminou, e percebe que é assim que elas estão pensando em você. Você sabe, você gostaria de imaginar que ambos compartilham todo esse sofrimento, quando na verdade estão só pensando algo como 'hey, ainda bem que você foi embora' "
(Antes do Amanhecer)

Quase aluguei Antes do Amanhecer novamente só por causa desta cena (não aluguei pois estou em falência decretada). Talvez, ao ver essa cena, curtir os últimos segundos de melancolia e finalmente enterrar esta história. Para quem não conhece, Antes do Amanhecer é uma tese de doutorado sobre relacionamentos. Tão real e vivo, tão a nossa cara, de pessoas comuns cheias de sonhos, verdades pré-fabricadas, boas intenções e uma vida inteira pela frente.

E depois de tudo, querem saber? Estou bem. Não a 100%, mas bem. Mais rapidamente que eu esperava - como num estalo, fui esquecendo aquele tom de voz. Do segredo das suas piadas. De como seus cabelos encacheavam na ponta dos meus dedos. Das manchas borradas na sua íris. Seus tiques, seus desejos. Daquele olhar atravessado, um cruzar de mãos debaixo da mesa, das almas perdidas que se encontraram no meio da madrugada. Com a sucessão dos dias, dessa semana, as lembranças foram perdendo as cores - algumas principais, ficam marcadas como cicatrizes. A maioria, no entanto, vão para o limbo, escorregam pelas frestas do inconsciente com destino desconhecido...

Mas o que marcou, não há jeito de deletar. Não posso pedir às rádios para nunca mais tocarem nossas músicas, as grandes emissoras trocarem as programações, nem às multinacionais para retirarem do mercado alguns perfumes. Não vou pedir para ninguém retirar a Lua no céu. Este resto, só o tempo. Mas vai ser tranquilo. Pois já sei que viver é um eterno exercício de superação.

"How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd..."
(do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que com crise ou sem crise, assistirei novamente)

sexta-feira, setembro 02, 2005

Vento no litoral

Não esperava voltar para Guanxuma tão cedo. Deixara a casa tão bem trancada que foi difícil entrar por ali novamente. Guanxuma me esperava só no verão. Voltaria feliz e ensolarado, com o violão nas costas, para contar estrelas enquanto a maré não subia. Mas não deu. Não deu.

Deixei as malas à porta de casa e fui caminhar contra o mar, seguindo o indo e vindo das ondas. Praia deserta, completamente deserta. Mas é mais ou menos esta a inteção: para que eu possa curtir novamente as coisas pequenas. Admirar toda a beleza das areias cinzentas de Guanxuma, da água salobra e marrom, das raras conchas que vêm morrer sem destino por entre os meus dedos. O dia esta nublado, a brisa está fria e caminho até as pedras, quero chegar às pedras, subir nas pedras, só para ver o mar dali de cima, os barcos que lutam lá longe contra as ondas do mar.

Penso em pular nessa água ártica, álgida. Só para sentir um pouco mais vivo. Novamente. E nadar, nadar, nadar, até cansar e perder os sentidos. Arrastar-me até a areia, tão frágil e abandonado, salgado até o último fio de cabelo. E satisfeito. Muito satisfeito. E dormir por lá mesmo, na areia, enquanto a Lua não chega.

E sonhar que estou caçando cavalos marinhos, enquanto o vento vai levando tudo embora...