terça-feira, agosto 16, 2005

Roubado de um mail 2

Sabe, eu mudei. Mudei demais. Mas no fundo, lá no fundo, eu continuo com as mesmos defeitos, as mesmas tatuagens. Hoje eu tenho corte de cabelo moderninho, sei combinar roupas, consigo interagir minimamente com as pessoas, sou expansivo e até um pouco divertido, aprendi a beber e fumar, tenho auto-estima e um caminho traçado, um futuro delineado, com metas e objetivos claros e muitas pessoas leais para me apoiar, torcer por mim. Só que eu não consigo deixar de ser aquele menino Creep que eu era há uns seis, sete anos atrás. Isolado atrás de uma pilha de livros, que assistia Arquivo X todo domingo e desconhecia o que era o mundo por trás das janelas. Que comprava o lanche na cantina e ia para a biblioteca ler a Folha, todo dia, por falta de coisa melhor para se fazer. Que chorava sem saber o porquê. Que sobrevivia a base de "Fake Plastic Trees" e "Creep". Eu achei, sinceramente, que eu já havia matado este Gabriel. Achei que já havia superado toda a culpa por pecados contra os outros que cometi, achei que já tinha tanta força nos próprios punhos que poderia socar o que surgisse na minha frente. Achei que os dias de peso excessivo já haviam acabado e nunca mais me encontraria numa situação de desespero automático e sem motivo.

Mas a gente nunca deixa de ser completamente aquilo que já fomos um dia. E fui aprender, com o horóscopo (grandes contribuições de Caio Fernando Abreu,um autor ótimo), uma verdade. (Obs: Não que eu acredite piamente em horóscopo, mas é que fez sentido e eu achei que foi uma espécie de epifania). Sou Peixes, com ascendente em Virgem, com todas as implicações práticas disto: de Peixes, a insegurança; de Virgem, o perfeccionismo. Tudo,para mim, tem que estar sob meu controle, dentro do meu planejamento. E quando isto não acontece (e sempre acontece, pois a maioria das coisas caprichosamente escapam por entre os dedos), fico deste jeito que você conheceu: tão perdido, tão carente, tão achando que o mundo vai cair nas costas, tão confuso, tão míope, tão desesperado. Tenho uma necessidade de segurança, que me batam no ombro e me digam que está tudo bem - se isto não acontece, é porque algo está indo errado. Sou um péssimo intérprete de silêncios. E para mim, um perfeccionista, admitir que não tem o controle emcoisas cruciais, é um pecado digno de morte.

E porque passei tanto tempo sozinho, tenho muito medo de perder as pessoas. Principalmente aquelas pelas quais senti grande afinidade, que eu coloquei para o lado de dentro do círculo. Como não tenho religião, minha grande busca se foca nas pessoas. E você sabe que as pessoas são tão, mas tão difíceis. E me rebaixo, como não deveria. E me subestimo, como não deveria: raciocino como o velho Gabriel, pensando que sou tão desinteressante e sem graça, tão pálido e sem brilho, tão torto, tão incapaz e tão fora do mundo -trancado no próprio quarto, de onde nunca deveria ter saído...

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