sábado, agosto 27, 2005

Perfect strangers down the line

"We promised that we'd be
Perfect"

(Perfect - Smasinhg Pumpkins)

Um grande amigo meu uma vez me disse que talvez estejamos conhecendo as pessoas certas nos momentos errados. Talvez, se eu estivesse formado. Noutra cidade. Noutra sintonia. Noutra estação. Talvez ele esteja certo, o que não vem ao caso.

O que vem ao caso é que desta vez eu tentei. Não queria e até resisti inicialmente. Mas não deu. Certas coisas não se escolhem. Lá me vi novamente, naquela montanha-russa de sentimentos, aquela tortura e glória. Desta vez reloaded, sabendo até onde gostaria de pisar, por qual caminho seguir. Colhendo pequenas epifanias, como maçãs que caem duma árvore carregada. E foi tão bom. Sentir que não se é tão único assim, que caminhar junto é bom e redentor, essa coisa tão besta de completar as frases alheias, juntar músicas e cds, perceber todos os detalhes da íris, as variações de voz, os comportamentos freudianos.

Mas não se pode fugir da própria natureza. Talvez eu quisesse demais - desta vez, no entanto, soube aprender aquela difícil lição que o Pequeno Príncipe me ensinou: "não espere que uma pedra voe". Sacrifiquei parte dos meus princípios para não esperar aquilo que não me prometeram. Só que não deu.

Em certo ponto, esperava reciprocidade. Não sei explicar, assim estoicamente, o que eu esperava. Mas um feedback, que eu estava indo pelo caminho certo (ou pelo errado, para eu ter chance de me corrigir). Não sou bom em decifrar silêncios, como eu disse. Ficar do meu próprio lado, sem calor ou uma mão esperançosa, é insuportável. Sim, a minha matéria de salvação é quem está do lado de lá, é cada pessoa que me ajude a me encontrar, a me resolver, a botar um pouco de sentido na minha vida.

E quando eu estava deveras perdido e gritava por ajuda, disseram-me: se não houver reciprocidade, que mal tem? Você é lindo e encantador. Você só tem 20 anos. Você não precisa tentar abraçar o mundo. Você tem pernas fortes e se sustenta. Você é brilhante e tem um longo caminho pela frente. Só que eu, surdo e frágil, não entendi. Não quis entender. Como continuo não entendendo.

Porque não queria tudo isso. Só queria que desse certo, desta vez. Que aguardassem o tempo necessário para colocar as coisas no lugar, organizar essa bagunça toda que chamo de MINHA vida. Que também cedessem eventualmente e me dessem a impressão de movimento, um pouco de segurança para eu mesmo continuar me movimentando. Com o tempo, as coisas caminhariam para uma sintonia. Tenho certeza. Tinha certeza.

Hoje, não sei. Lá fora está nublado e não consigo ver estrela alguma. Estou na quinta lata de cerveja, sem saber o porquê de eu estar bebendo tanto, sozinho, na frente deste computador, escutando Perfect no modo repeat há uma hora. Pensando em todas as coisas, como diria Bandeira, que poderiam ter sido e não serão. Mas saio desta sem culpa, com a sensação de dever cumprido. Mais forte, ainda esperançoso. Porque deixei sangrar, depurar. Porque acreditei naquela teoria que somos infinitamente capazes de cicatrizar. Porque tentei, tentei, tentei. And the band plays on, no final das contas. Como disse, com a sensação de dever cumprido.

Ou melhor, quase. Quem sabe eu poderia iluminar alguns pontos cegos, ajudar a compreender certos movimentos inconscientes de auto-defesa. Ajudar a ir fundo na ferida, longe de todo Carnaval que se forma habitualmente na rotina. Só que deixa para lá. Não é nada que não surja daqui há algum tempo, em qualquer terça-feira chuvosa, com o mundo pesando todo nas costas. Quando se descobrir o peso torturante do silêncio e que a liberdade não é uma benção; é uma pesada condenação. Que dois é um número perigoso - mas pelo menos mais seguro que um.

Quanto a mim, fico do jeito que sempre fui. Otimista, por incrível que pareça. De volta ao Vinícius, às intempéries de quem decide viver. E quem sabe ali, num futuro entre o próximo e o distante, os caminhos não se cruzem novamente? Todas estas palavras não tenham sido em vão? Estranho seria se eu não tivesse me apaixonado por você, dizia aquele outro velho poeta que aprendi a gostar tanto. Mas, na atual conjuntura, hoje não; nem amanhã.

Já sanguei demais, até a penúltima gota. A última, deixo para mim. Só porque quero continuar e ver até onde esta zona chamada destino vai me levar. Depois dos copos de café (21/03/05 - só consultar os arquivos), cheguei aqui. E existe todo um mundo ensolarado lá fora. Não queria, não queria mesmo, que as coisas caminhassem assim. Mas já que caminharam, enfim. É ajeitar a vida de novo: e quem sabe, não pular de bungee-jump novamente?

But please, you know you're just like me
Next time I promise we'll be
Perfect
Perfect strangers down the line

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