terça-feira, agosto 02, 2005

Ah, eu estava meio doente e, por isso, acho que meio cético com o mundo. Passara o dia inteiro dentro de casa, com as narinas ardendo por conta de uma "infecção de vias aéreas superiores" qualquer. Talvez Mononucleose. Talvez.

Entrei no Champagnat com a velha Elba de guerra. Aquele Colégio é um dos lugares que é mais carregado de lembranças para mim. É um colégio antigo, vagamente lembrando aquele da Hilda Furacão. Completamente arborizado, uns bancos muito simpáticos, a melhor biblioteca da cidade. Foi ali que fiz o Pré, que já não existe mais. Minha antiga sala de aula, onde aprendi que os feijões também nascem em copos de café, virara qualquer coisa administrativa da prefeitura. Enfim. Mas os coqueiros que eu trepei, a enorme quadra que eu corri, e tropecei, e brinquei, e tive as primeiras frustrações da minha vida, continuavam todos ali. Sorri.

E depois tiveram outras lembranças. A biblioteca, como conheci e construi meu mundo: Robin Cook e a Medicina, Fernando Sabino e as primeiras revelações, Clarice Lispector e Cecília Meirelles, meu inventário de alma. Os livros do Projeto Nestlé. Os concursos, pregados no quadro. Aquela vitória e meus quinze minutos de fama.

Mas ontem, porque eu estava anormalmente cético, só lembrei dos ladrilhos. Pretos e brancos. Daquele dia, que chovia uma garoa fina suficiente para molhar a alma e insuficiente para abrir guarda chuva. Estávamos sentados num banco, naqueles bancos atemporais que desde a época dos frades deveriam estar por ali. Conversávamos coisas miúdas. Estávamos ali, como dois fugitivos, traçando planos. Não me perguntem quais, eles foram engolfados por tantas outras leituras, outras vivências, outras pessoas. Mas havia tanta esperança naquele banco, daquelas sinceras e pungentes, daquelas que são redentoras só por estarem acontecendo. E a sensação que a vida finalmente iria dar certo, sei lá, engatar a terceira marcha e sair finalmente cantando pneu, estourando de tanta felicidade reprimida e acumulada, como num grito de Carnaval.

Mas nada disso aconteceu. Com a mesma facilidade que foi construído, desabou. E nem aconteceu algo cataclísmico, Marte não ficou oposto ao Sol e nem eu cometi algum pecado capital. Assim, acabou. Vai passear amigo, eu te trai porque você não era o suficiente. Porque você morava longe, não tinha carro nem carta, nem era suficientemente encantador.

E a vida, como tinha que ser, continuou. E vai continuando, muito bem, obrigado.

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