sexta-feira, julho 01, 2005

Siso

No início, até fiquei meio culpado por odiar tanto alguma coisa que ainda nem tinha nascido. Mas era um siso, enorme e intratável. O esquerdo, o inferior - e por isso suspeito que ele deva ter resolvido se vingar de forma tão sublime. Foi hora e meia de trabalho árduo e suor. Tecnicismos incompreensíveis: mas a única coisa que eu sabia era que ele estava ali, engarranchando na mandíbula, custando para deixar o lugar inicial. Gauche, o coitado. Mas enfim.

Pensei em milhares de coisas enquanto a anestesia fazia efeito e eu sangrava bicas. Nos amores que tive. Na taxa SELIC. Nos opióides (como eu quereria opióides ao invés da simplicidade das drogas antiinflamatórias não-esteroidais). Em pequenos planos românticos, pequenas viagens. No futuro. Nas provas de Dermatologia. E quando eu já estava exausto de permanecer imóvel, minhas articulações da mandíbula já nem se davam ao trabalho de doer, ele saiu. Aos pedaços, o estraga-prazer - nem para sair inteiro, para trazê-lo como um troféu de sofrimento como as mães exibem os filhos. Como resultado direto, um buraco enorme da na boca e um atestado de três dias do professor, porque, segundo ele, abre aspas "ele vai ficar bastante incomodado nos próximos dias".

E como eu realmente precisava dessas pequenas férias tortas - um atestado de três dias, começando numa quarta-feira, recebi-as de muito bom grado. Entreguei-me a uma rotina ártica de gelos e sorvete (os quais, já acabei com quatro litros), gelatina e alimentos pastosos que muito me lembram as aulas de Puericultura. E ficar em casa, e levar a vida realmente devagar. Consegui ver Sessão da Tarde e a novela das seis, o jogo do Brasil e do São Paulo sem culpa por acordar cedo no dia seguinte. E receber atenção carinhosa e despretenciosa e ficar um pouco magoado por esperar que algumas pessoas viessem para ficar ali um pouquinho, segurar a sua mão, falar que iria terminar tudo bem. Mas enfim. C'est la vie.

Hoje, day three, voltei à Franca. Escrevo com uma toalha enrolada em volta da cabeça com gelo, escutando Oasis, curtindo o amor de mãe e atenção de pai. Voltei no ônibus, tomando sorvete e observando aquela noite linda que só o inverno consegue mostrar. Ainda continuo sangrando um pouco (e esse gosto de sangue na boca fica açulando as idéias), continuo doendo um pouco, mas nada que seja o final do mundo e supere o prazer desse descanso, torto, gauche como o meu dente. Nunca que iria ler Caio F. tão sem culpa, em plena sexta de manhã, com tanta coisa da faculdade a bater a porta e cobrar uma atitude.

Quem se importa? Vou lá, ligar para os meus bons amigos, tomar mais um gole de sorvete, planejar a noite. Apesar do inchaço residual e dos pedidos insistentes de minha mãe para eu ficar de resguardo. Até mais.

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