sexta-feira, julho 22, 2005

Anatomia do início de férias

Os dias, por aqui, tem sido muito tranquilos. Beirando o tédio, mas aquele tédio gostoso e produtivo. Durante o dia, sofro com todas as tentações que o Orkut e o MSN provocam em mim (e meu juízo e essa porcaria de conexão discada me impedem de consumá-las com a frequência que gostaria de). Mas resisto, impavidamente, e chego a até me orgulhar disso. Tenho estudado, não o bastante, talvez o necessário: e dou risadas involuntárias de "uma menina com Síndrome de Turner e daltônica". Quando canso (e isso não é raro), deito no puff laranja que herdei e levarei para meu apartamento, uma manta colorida e fico zapeando canais, sem propósito nem fixando muito a atenção em algo específico.

Tenho planos e assim que a coragem vier, vou lá na locadora pegar filmes antigos, já que o videocassete daqui finalmente foi consertado. Pensei em Ingrid Bergman, algum latino, outro despretencioso. E também tomar sorvete sentado no banco da praça e visitar todas as pessoas queridas que passo, por causa desse atropelo que é a vida, sem ver por meses e meses.

O anoitecer é terrível e custa a passar. Depois que acaba a novela da seis (que tenho assistido com muito gosto), um vácuo se abre e fico assim, zanzando pela casa, sem muito o que fazer. Ou durmo. Ou fico na cozinha, conversando com os meus pais. Enfim. Não importa.

E as noites, quando caem, estão deliciosas. Álgidas e sombrias, como todo bom inverno deveria ser. A cidade está coberta por uma neblina espessa, daquelas que se custa a enxergar um palmo à frente. Frio, bem frio, de doer na ponta do nariz e desejar um fondue, um copo de conhaque, um edredon em boa companhia.

Saio todas as noites. Seja para cinema, forró, conversa descompromissada, happy hour no apê alheio. Tenho bebido, até mais que eu deveria. Mas é bom. É bom aquele entorpecimento rodeado por pessoas queridas, é bom engatar aqueles papos desimportantes com a única intenção de passar o tempo. E, por causa de Vinícius, sempre fico comovido como um pobre diabo, ali beirando a meia-noite. Cantarolo "Onde anda você" ("Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser/ Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você..."), com o peito apertado de saudade.

Sim, Saudade. Maiúscula. Difícil de lidar. Principalmente quando estou sozinho em casa, imerso em silêncio. Ou ao voltar para casa, dirigindo meu carro sem som. Ou quando assaltado pela lembrança daquelas milhares de coisas pequenas, que só eu ou você sabemos. Dói. E fico feliz por estar doendo, por estar sentindo, por estar voltando. Fico assim, contando os segundos no relógio, na espera por um toque de celular perdido pelo dia.

E ainda tem outras milhares de coisas que eu gostaria de contar. Essas miudezas do cotidiano em casa. Mas não quero fazer deste post um livro...

Nenhum comentário: