quarta-feira, julho 27, 2005

Roubado de um mail

O arrependimento é inato da nossa natureza, ainda mais da nossa, dos que pensam demais, dos que ficam escarafunchando todas as decisões e medindo todos os passos. Quando escolhermos o caminho A, já fizemos o esboço de todos os outros e temos uma vaga noção do que nos aguardaria em cada um. E raramente podemos retroceder ao ponto inicial e tentar o caminho B, ou o C. Acho que o mais importante é sermos AGENTES dos nossos atos. Que nossas escolhas sejam ativas e não guiadas unicamente pela inércia do destino. Para, nos momentos de arrependimento, ter a capacidade de gritar "o que fiz de mim!" que um "o que fizeram de mim!". Quem vive sem se arrepender está enterrado no próprio cotidiano, porque se arrepender é uma condição daqueles que sempre ambicionam algo maior e estão se movimentando.

segunda-feira, julho 25, 2005

Back to start

"Você alguma vez na vida já ficou com medo de que tudo vai dar errado, a menos que você faça alguma coisa?"
(O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger)

sexta-feira, julho 22, 2005

Anatomia do início de férias

Os dias, por aqui, tem sido muito tranquilos. Beirando o tédio, mas aquele tédio gostoso e produtivo. Durante o dia, sofro com todas as tentações que o Orkut e o MSN provocam em mim (e meu juízo e essa porcaria de conexão discada me impedem de consumá-las com a frequência que gostaria de). Mas resisto, impavidamente, e chego a até me orgulhar disso. Tenho estudado, não o bastante, talvez o necessário: e dou risadas involuntárias de "uma menina com Síndrome de Turner e daltônica". Quando canso (e isso não é raro), deito no puff laranja que herdei e levarei para meu apartamento, uma manta colorida e fico zapeando canais, sem propósito nem fixando muito a atenção em algo específico.

Tenho planos e assim que a coragem vier, vou lá na locadora pegar filmes antigos, já que o videocassete daqui finalmente foi consertado. Pensei em Ingrid Bergman, algum latino, outro despretencioso. E também tomar sorvete sentado no banco da praça e visitar todas as pessoas queridas que passo, por causa desse atropelo que é a vida, sem ver por meses e meses.

O anoitecer é terrível e custa a passar. Depois que acaba a novela da seis (que tenho assistido com muito gosto), um vácuo se abre e fico assim, zanzando pela casa, sem muito o que fazer. Ou durmo. Ou fico na cozinha, conversando com os meus pais. Enfim. Não importa.

E as noites, quando caem, estão deliciosas. Álgidas e sombrias, como todo bom inverno deveria ser. A cidade está coberta por uma neblina espessa, daquelas que se custa a enxergar um palmo à frente. Frio, bem frio, de doer na ponta do nariz e desejar um fondue, um copo de conhaque, um edredon em boa companhia.

Saio todas as noites. Seja para cinema, forró, conversa descompromissada, happy hour no apê alheio. Tenho bebido, até mais que eu deveria. Mas é bom. É bom aquele entorpecimento rodeado por pessoas queridas, é bom engatar aqueles papos desimportantes com a única intenção de passar o tempo. E, por causa de Vinícius, sempre fico comovido como um pobre diabo, ali beirando a meia-noite. Cantarolo "Onde anda você" ("Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser/ Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você..."), com o peito apertado de saudade.

Sim, Saudade. Maiúscula. Difícil de lidar. Principalmente quando estou sozinho em casa, imerso em silêncio. Ou ao voltar para casa, dirigindo meu carro sem som. Ou quando assaltado pela lembrança daquelas milhares de coisas pequenas, que só eu ou você sabemos. Dói. E fico feliz por estar doendo, por estar sentindo, por estar voltando. Fico assim, contando os segundos no relógio, na espera por um toque de celular perdido pelo dia.

E ainda tem outras milhares de coisas que eu gostaria de contar. Essas miudezas do cotidiano em casa. Mas não quero fazer deste post um livro...

quinta-feira, julho 21, 2005

Anotações durante um forró

Não me perguntem: esse é o tipo de pensamento que chega sem aviso e sem se perceber, ali pelo décimo terceiro ou décimo quarto copo de cerveja, como a brisa gelada do inverno francano caprichosamente vencendo as paredes e toldos. Com o cérebro encharcado de álcool, você não se apega a pequenas racionalidades, essas preocupações mesquinhas habituais que tanto ocupam nosso pobre tempo numa terça ou quarta feira.

Talvez, se os bons ventos soprarem à favor, minha vida finalmente possa se explodir num Carnaval. Talvez, no mais simples esforço de manter o atual status quo, as melhores epifanias dos últimos vinte anos aconteçam. Talvez, se eu tirar todo o amargor decorrente de incompreensões sucessivas, perceba que a maioria das pessoas ainda continuam ali, lindas e brilhantes na essência.

Talvez, eu só queira voar*. E eu não sei para qual lado o vento vai soprar**...

(* Live Forever - Oasis // ** Kite - U2)

terça-feira, julho 19, 2005

Acabou...

Acabou. Depois de seis semanas de contagem regressiva, muita paciência para suportar tanta expectativa e saudade, cento e sessenta e seis pessoas se interpondo ao meu objetivo prioritário do mês, cinco rodoviárias diferentes em três dias, acabou. Estas férias iniciam já com o gosto iminente de término e morte - três semanas apenas para visitar todos que gosto, curtir o silêncio e o tédio habitual de casa, continuar nas grandes descobertas sobre as pequenas coisas, estudar até morrer para ser apenas o melhor em semana e meia, a formatura do meu quase-irmão, organizar oficinas e, principalmente, descansar porque o pior vem à cavalo no semestre que vem. O tempo é escasso e o tempo urge - mas creio e tenho toda a fé do mundo em um final feliz.

Tenho conseguido focar naquilo que me movimenta, como falei em posts anteriores. A maior prova disso é que consegui vencer toda a minha insegurança e a tendência ao desespero irracional quando as situações fogem do meu controle. Tenho me fiado na reciprocidade, nas palavras ternas e em sorrisos doces - que tem sido um potente combustível em tudo isto que estou vivendo - seja em Dermatologia, na prova de transferência ou em ser um pouco mais sincero com o mundo.

E tergiversando, talvez ainda até sobre tempo para um filme ou dois. E faz um frio tão convidativo por aqui...

segunda-feira, julho 11, 2005

... talvez, escamotear em cada centímetro quadrado de epiderme, para encontrar aquela cicatriz desconhecida no queixo. Até perceber que as linhas de tensão da pele convergem até o ângulo da boca e a íris é repleta de pequenas manchas escuras, mergulhadas num oceano acastanhado ...

sexta-feira, julho 08, 2005

Retorno

Mudei. Mudei mesmo. Em coisas pequenas, essenciais.

Principalmente na forma que eu me relacionava com os outros. Com o mundo. Resolvi levantar todas as defesas que eu pude para colocar ordem no barraco. Resolvi deixar de relevar muitas coisas que me irritavam.

Acabei me desvinculando da maioria das coisas que me prendiam por aqui. Esperando pouco, quase nada, das pessoas que me cercavam. Fui ocupando os espaços agora vagos com outras coisas, outros sentimentos, outros programas. Um lento processo de recuperação.

E agora eu fiquei bem. Estou bem. Suficientemente capacitado a ocupar alguns velhos espaços. Com um sentimento urgente de recuperar um pouco do que deixei para trás, depois que tantas pessoas queridas vieram comentar desse meu aparente sumiço.

Não sei se foi a coisa certa, mas foi bom para mim. 2005 caminha rápido e indolor. Taquicárdico e ligeiramente feliz. Instável - mas daquela instabilidade boa, com aquelas preocupações boas e boas perspectivas.

Digam a todos que estou voltando. Para Franca, de férias, em breve. Em Uberlândia, para mais ou menos da forma que eu sempre fui...

segunda-feira, julho 04, 2005

Segunda-feira, 07:35

Perdi a primeira aula do dia por dois minutos e agora estou aqui, à toa porque tudo o que eu preciso fazer funciona só depois das oito da manhã.

Não fazia idéia da capacidade que as coisas tinham de se acumular só porque você se distraiu um pouquinho nas últimas duas semanas. Pois é, elas se acumularam. E, como melhor alternativa, estou rezando para a Providência Divina botar a mão e me guiar, para que entre mortos e feridos todos se saiam bem.

Mas disso tudo (final de semana e dente de siso), ficou a conclusão que uma nova mudança é necessária. Que eu definitivamente preciso andar mais devagar no próximo semestre. Deixar de fazer 682 coisas ao mesmo tempo. Questão de qualidadidivida. Promessa de campanha

sexta-feira, julho 01, 2005

Siso

No início, até fiquei meio culpado por odiar tanto alguma coisa que ainda nem tinha nascido. Mas era um siso, enorme e intratável. O esquerdo, o inferior - e por isso suspeito que ele deva ter resolvido se vingar de forma tão sublime. Foi hora e meia de trabalho árduo e suor. Tecnicismos incompreensíveis: mas a única coisa que eu sabia era que ele estava ali, engarranchando na mandíbula, custando para deixar o lugar inicial. Gauche, o coitado. Mas enfim.

Pensei em milhares de coisas enquanto a anestesia fazia efeito e eu sangrava bicas. Nos amores que tive. Na taxa SELIC. Nos opióides (como eu quereria opióides ao invés da simplicidade das drogas antiinflamatórias não-esteroidais). Em pequenos planos românticos, pequenas viagens. No futuro. Nas provas de Dermatologia. E quando eu já estava exausto de permanecer imóvel, minhas articulações da mandíbula já nem se davam ao trabalho de doer, ele saiu. Aos pedaços, o estraga-prazer - nem para sair inteiro, para trazê-lo como um troféu de sofrimento como as mães exibem os filhos. Como resultado direto, um buraco enorme da na boca e um atestado de três dias do professor, porque, segundo ele, abre aspas "ele vai ficar bastante incomodado nos próximos dias".

E como eu realmente precisava dessas pequenas férias tortas - um atestado de três dias, começando numa quarta-feira, recebi-as de muito bom grado. Entreguei-me a uma rotina ártica de gelos e sorvete (os quais, já acabei com quatro litros), gelatina e alimentos pastosos que muito me lembram as aulas de Puericultura. E ficar em casa, e levar a vida realmente devagar. Consegui ver Sessão da Tarde e a novela das seis, o jogo do Brasil e do São Paulo sem culpa por acordar cedo no dia seguinte. E receber atenção carinhosa e despretenciosa e ficar um pouco magoado por esperar que algumas pessoas viessem para ficar ali um pouquinho, segurar a sua mão, falar que iria terminar tudo bem. Mas enfim. C'est la vie.

Hoje, day three, voltei à Franca. Escrevo com uma toalha enrolada em volta da cabeça com gelo, escutando Oasis, curtindo o amor de mãe e atenção de pai. Voltei no ônibus, tomando sorvete e observando aquela noite linda que só o inverno consegue mostrar. Ainda continuo sangrando um pouco (e esse gosto de sangue na boca fica açulando as idéias), continuo doendo um pouco, mas nada que seja o final do mundo e supere o prazer desse descanso, torto, gauche como o meu dente. Nunca que iria ler Caio F. tão sem culpa, em plena sexta de manhã, com tanta coisa da faculdade a bater a porta e cobrar uma atitude.

Quem se importa? Vou lá, ligar para os meus bons amigos, tomar mais um gole de sorvete, planejar a noite. Apesar do inchaço residual e dos pedidos insistentes de minha mãe para eu ficar de resguardo. Até mais.