quarta-feira, maio 18, 2005

Presunto Parma

Eu estava à toa no Centro - por isso resolvi andar um quilômetro e pouco para ir ao cinema. Mesmo sozinho. Algo relembrando os velhos velhos tempos, cinema solitário, tela enorme, coisas a pensar. Filme bom: "Maria Cheia de Graça", latino, terrível de se ver por nossas semelhanças culturais e econômicas.

Daí fui comer um último sanduíche de presunto parma, ali no Carrefour, minha janta antes de voltar para casa. E não sei se foi o cinema, se foi o sanduíche, se foi uma nostalgia aguda que me abateu, se foi o dia anormalmente nublado em plena Uberlândia. E me lembrei de você.

Mas não de você atual. Do que você era - do que costumávamos ser.

Por muito tempo achei que seríamos amigos próximos para sempre. De confissões e risadas. Daqueles que a amizade prosseguiria além da formatura, nossos filhos ficariam tão próximos quanto primos. E ainda que o destino nos levasse a lugares distantes e inóspitos, quando nos encontrássemos, seria como nada tivesse acontecido. Continuaríamos a planejar viagens loucas que dificilmente se concretizariam, filosofando sobre nossa eterna condição de perdidos pelo mundo...

Só que as coisas mudaram. Rapidamente, e não consegui acompanhar o passo. Agora percebo que certas coisas - essa, você, nós - são irreversíveis. Por mais que queiramos, não voltam. Ainda que eu me esforce e fique insistemente acendendo a fagulha, uma hora as mãos falham. A gente cansa. E eu me puno por ter cansado. E eu me lamento por toda mudança que nos aconteceu.

Queria que você soubesse que não é preciso se neutralizar para atingir qualquer objetivo. Queria que você percebesse o tanto que você acabou se afastando de muitas coisas que há tão pouco tempo eram essenciais. Queria que você entreolhasse, para perceber o que sobrou. Queria que você refletisse sobre a decepção que vem causado a tantas pessoas que lhe querem bem.

Por causa disso tudo fiquei ali, triste com meu sanduíche, cantarolando "Wish you were here". Para mim, essa é a música mais triste do mundo. E pensando fixamente em você. Querendo você por perto, aqui, ao alcance dos dedos. Como antes. Como sempre fora.

Talvez as coisas pudessem ser diferentes. Se não fosse essa falta de coragem crônica, essa incapacidade de gritar para os amigos nos momentos de socorro, a incapacidade em visualizar os próprios defeitos e idenficar os pontos de não-retorno. Somos irritantemente imperfeitos, essa é a verdade...

Mas isso não me impede de querer os dias ensolarados de sorvetes e morangos e sanduíches de presunto parma de volta, sem essas cerimônias cotidianas restritas a intervalos curtíssimos de tempo...

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