domingo, abril 24, 2005

"As coisas nunca saem exatamente como planejamos"
(Anos Incríveis - Episódio 115)

Em decorrência de uma grave crise de identidade espiritual de meus pais, eu, quando criança, escapei da educação católica apostólica romana ou qualquer coisa semelhante a. Sou imensamente grato a eles por essa aparente falha educacional, já que isto me livrou da ótica disforme do crime e castigo das igrejas. Assim, embasei minha ética e moral em coisas muito menos espirituais ou transcendentes: além dos meus pais como modelo, tive a companhia da boa e velha TV. Mas não essa TV de hoje, de Digimons, Guerreiras Fantásticas e o caralho a quatro. Tive a programação da TV Cultura, em seus áureos tempos. Tintin e Beakman aguçaram meu lado científico e investigativo, que foram essenciais para minha escolha profissional. A moral, a ética e os "bons costumes", vieram do Doug - o garoto mais politicamente correto que já existiu - e à série Anos Incríveis.

Anos Incríveis conta a história de Kevin Arnold e Winnie Cooper, dois vizinhos que, desde pequenos, tem uma relação enorme de proximidade. Ao entrar na adolescência, começa o maior clima entre os dois, que continua conforme eles crescem. A série acompanha-os desde pequenos, ali nos 12 anos até eles às portas do mundo adulto, ao entrar na faculdade, tirar carteira de motorista. Sempre existe grande tensão entre Kevin e Winnie, que alternam momentos juntos com separações e brigas. Mas sempre fica a impressão que um não pode viver sem o outro porque eles estão eternamente ligados. E apesar de um agora intempestivo existe a superação, a resintonia. Existe algo predestinado. Existem as tais linhas do destino, as quais tentamos fugir mas sempre acabamos retornando a elas.

O que mais me marcou em Kevin Arnold foi seu jeito confuso de ser, mas sempre de bom coração. Não que ele fosse perfeito e que não deixasse eventualmente se levar por impulsos egoístas, erros deliciosos, etc. Mas na série sempre existiu um ar reflexivo, com um narrador - o Kevin adulto - relembrando sua adolescência e traçando um paralelo entre passado e futuro. Esse link era sempre redentor, mais ou menos com uma mensagem de "como eu aprendi com esse erro", destituído de juízo moral ou aquele ar professoral inato de muitos adultos.

Nas férias acompanhei diariamente as reprises da série na Cultura, com um misto de saudosismo e aprendizagem. Vi o Kevin em seu primeiro emprego, as dúvidas da primeira vez, os atritos com o pai. Mas com retorno o da rotina insana, aquelas preocupações de provas, plantões e mudanças, esqueci-me completamente de Kevin Arnold. Até sexta, quando passava despreocupadamente na sala quando, zapeando os canais, reencontrei Kevin e Winnie semi-adultos, quase irreconhecíveis.

Só reconheci que aquele era o último episódio. Tinha-o assistido quando moleque e ele era um dos poucos que eu guardava vividamente na minha memória.

Kevin e Winnie brigavam enquanto esperavam carona. Começa a chover e eles correm para um celeiro escuro e sem energia. Dali, fazem as pazes e a promessa que ficaram juntos para sempre. A câmera se afasta. Corta para a próxima cena. É um desfile de 4 de julho, com todas aquelas coisas americanas. Kevin e Winnie estão de mãos dadas. O narrador adulto começa a falar sobre escolhas, sobre futuro: que o Kevin mudaria no ano seguinte para faculdade, contou o que aconteceria com o resto da família Arnold. Câmera em Winnie: foi para Paris no ano seguinte estudar História da Arte. Ela e Kevin se correspondiam semanalmente, por oito anos. E quando Winnie voltou, estava Kevin no aeroporto, com a mulher e seu filho de oito meses.

Sim, Kevin e Winnie não ficaram juntos. Toda aquela história de predestinação fora balela. Todo o ideal romântico do amor perfeito, aquele que supera todas as dificuldades, ruiu como um castelo de cartas. Não tenham dúvidas que foi marcante, porque no final das contas "aqueles foram anos incríveis". Mas que lições nós, reles mortais telespectadores, tiraríamos disto?

Então aquele mundo grandioso que se abre quando nos tornamos adultos consome nossos planos e desejos iniciais?

Então a vida adulta nos desvia caprichosamente dos nossos objetivos, aqueles que sonhamos com tanto amor e esperança?

Não sei. Não sei.

Só sei que quando os créditos subiram, precisei ficar por mais um tempo sentado. Pensando em todas aquelas coisas de Kevin & Winnie que eu sempre trouxe e que agora, quando a realidade vem à tona, ficaram tão perigosamente ameaçadas...




( ... e do mesmo jeito, por caminhos tortos, que as coisas acabam por dar certo no final. Mas enfim...)

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