segunda-feira, março 21, 2005

#2/2 - Amores em copos de café

Acho que todos aqui já tiveram a sutil experiência de, no alto de seus seis ou sete anos, cultivar um feijão em um copo de café. Embeber um algodão em água e colocá-lo, como não quer nada, num canto que bata um pouco de Sol. E observar, com a respiração presa e o coração quase saindo pela boca, aquele filete verde-vivo de vida sair por dentro da casca morta e se exibir, magnânimo, como prova suprema que a vida existe até nas coisas mais adormecidas.

Lentamente acompanhar, no dia-a-dia, o seu desenvolvimento. E sem perceber, ali uns três ou quatro dias depois, que aquele pequeno pé de feijão já ultrapassou as bordas do copo, vai crescendo cada vez mais para o alto, cada vez com mais viço e afinco. E a gente se apaixona, dessas paixões bestas e infantis, por aquele pequeno broto de vida. E a gente vai acreditando que aquilo vai frutificar, vai encorpar, vai ultrapassar todas as barreiras e se fechar como uma frondosa e convidativa árvore.

Até que o feijão, sufocado pelo próprio crescimento, definha. Sem aviso prévio, justificativa, como uma traição: ele definha. Foi tanta vida em tão pouco tempo que se terminou ali, antes de virar alguma coisa. E ficamos no eterno exercício do talvez, se o solo fosse mais fértil que um simples algodão, se não houvesse tanta ou tão pouca água, se eu tivesse sido mais cuidadoso. Talvez se eu o tivesse cultivado em xícaras. Talvez se não necessitasse de ter crescido tanto assim. E depois aprenderíamos, com os mesmos feijões em algodão, que pouco adiantaria cultivá-los assim para depois tranferi-los para a terra fofa, fértil. Eles, da mesma forma, morrem. É da natureza dos feijões serem assim, fugazes e instantâneos. Brotos de vida que se revelam nas frestas e, com a mesma velocidade, desaparecem diante dos nossos olhos.

E depois disso, vamos cultivar outras coisas. Peixes de aquário, são bernardos, bonsais. Até iguanas. Fica o aprendizado inconsciente, das coisas que passam sem percebermos e só bem depois, em outro momento, em outra sintonia, damos conta da importância de uma coisa tão diminuta assim.

Não era para dar certo. Desde o início, eu já esperava. As milhas de distância, as diferenças intrínsecas, os momentos de vida opostos. O que não impediu de crescer, algo intenso e bonito. Algo louvável, gostoso de ser lembrado. Mas com essa peculiaridade, essa condição sine qua non: a finitude. Como acho que toda coisa da vida deveria ser enfrentada, afinal, de eterno só temos as estrelas e os diamantes.

E nem porque são finitas as coisas não deixam de ser belas. Até amores em copos de café...

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