quinta-feira, março 31, 2005

Post conjunto

"Everybody is changing
And I don't feel the same"
(Keane)

Por muito tempo, acreditei que felicidade era estática. Que, a partir do momentos que sentimos toda aquela alegria boba de ser feliz, o mundo deveria parar. Ficar eternamente no mesmo ponto. Imóvel e dormente.

Nem preciso falar que, por causa disso, quebrei a cara milhões de vezes. E depois de muito levantar, sem compreender os motivos pelos insucessos, resolvi quietar um pouco e perceber as coisas que estavam a minha volta.

E percebi que todos, sem exceção, estavam mudando. No gerúndio mesmo, tão horrível porém verdadeiro. Uma ação em acontecimento. Alguns, numa velocidade tão grande que era impossível de acompanhar. Outros, numa espécie de mudança paralela, em sintonia extrema e assustadora.

E por mais que seja doloroso ver pessoas muito queridas partindo, não há como impedir o progresso. Assisti nesse final de férias uma série da HBO chamada "Angels in America", linda de doer. Basicamente, esse é o mote: as coisas não voltam. A gente também muda. E a mudança é boa, na essência: só por ser mudança.

Porque, bem ou mal, eu também estou partindo...

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, março 21, 2005

#2/2 - Amores em copos de café

Acho que todos aqui já tiveram a sutil experiência de, no alto de seus seis ou sete anos, cultivar um feijão em um copo de café. Embeber um algodão em água e colocá-lo, como não quer nada, num canto que bata um pouco de Sol. E observar, com a respiração presa e o coração quase saindo pela boca, aquele filete verde-vivo de vida sair por dentro da casca morta e se exibir, magnânimo, como prova suprema que a vida existe até nas coisas mais adormecidas.

Lentamente acompanhar, no dia-a-dia, o seu desenvolvimento. E sem perceber, ali uns três ou quatro dias depois, que aquele pequeno pé de feijão já ultrapassou as bordas do copo, vai crescendo cada vez mais para o alto, cada vez com mais viço e afinco. E a gente se apaixona, dessas paixões bestas e infantis, por aquele pequeno broto de vida. E a gente vai acreditando que aquilo vai frutificar, vai encorpar, vai ultrapassar todas as barreiras e se fechar como uma frondosa e convidativa árvore.

Até que o feijão, sufocado pelo próprio crescimento, definha. Sem aviso prévio, justificativa, como uma traição: ele definha. Foi tanta vida em tão pouco tempo que se terminou ali, antes de virar alguma coisa. E ficamos no eterno exercício do talvez, se o solo fosse mais fértil que um simples algodão, se não houvesse tanta ou tão pouca água, se eu tivesse sido mais cuidadoso. Talvez se eu o tivesse cultivado em xícaras. Talvez se não necessitasse de ter crescido tanto assim. E depois aprenderíamos, com os mesmos feijões em algodão, que pouco adiantaria cultivá-los assim para depois tranferi-los para a terra fofa, fértil. Eles, da mesma forma, morrem. É da natureza dos feijões serem assim, fugazes e instantâneos. Brotos de vida que se revelam nas frestas e, com a mesma velocidade, desaparecem diante dos nossos olhos.

E depois disso, vamos cultivar outras coisas. Peixes de aquário, são bernardos, bonsais. Até iguanas. Fica o aprendizado inconsciente, das coisas que passam sem percebermos e só bem depois, em outro momento, em outra sintonia, damos conta da importância de uma coisa tão diminuta assim.

Não era para dar certo. Desde o início, eu já esperava. As milhas de distância, as diferenças intrínsecas, os momentos de vida opostos. O que não impediu de crescer, algo intenso e bonito. Algo louvável, gostoso de ser lembrado. Mas com essa peculiaridade, essa condição sine qua non: a finitude. Como acho que toda coisa da vida deveria ser enfrentada, afinal, de eterno só temos as estrelas e os diamantes.

E nem porque são finitas as coisas não deixam de ser belas. Até amores em copos de café...

sábado, março 19, 2005

Sobre Paulo Coelho

Sou preconceituoso e digo: “Eu não respeito quem gosta de Paulo Coelho”. A verdade é que a Academia Brasileira de Letras fez feio em admitir o pseudo-escritor entre os imortais.

Nem adianta falar q eu tenho inveja dele por que ele escreve bem, por que isso não cola, e , além disso, nunca quis escrever profissionalmente ( e nem teria como...).

Ele, assim como Caetano(que apesar de tudo produz alguma coisa que presta), é um poço sem fim de arrogância ( Sim , eu sou o Cara) que não consegue escrever nada além de letras de música ( estas tinham valor, assumo) e livros que envolvem a temática de bem contar o mal, auto conhecimento e esoterismo.

Mas no fundo, o motivo dele ter se tornado uma pessoas desagradável é simples: Ele é mal comido.

Afinal de contas, quem dá(isso já implica num desejo homossexual reprimido por parte dele) uma vez pra experimentar e não gosta é uma pessoa até que comum, agora, dar mais duas vezes pra ver q não é aquilo que gosta ...

O cara deu muito azar de ter pegado frouxos que não sabiam dar uma bimbada ( trepada, fuck, foda) direito. Deu no que deu ..., mais uma pessoa amargurada na face da terra...

Oh mundinho besta ...

Daqui a alguns posts, a Teoria Idiota do Incesto Divino, com Maria, mãe de Deus, como protagonista!!!

sexta-feira, março 18, 2005

Sobre o retorno...

escutando: Keane
"Everybody is changing and I don't feel the same..."

Pensei em muita coisa para se escrever nessa semana: coisas serias, outras futilidades, como Murphy vem mostrando todas as suas garras nas mais diversas atividades diarias. Mas faltou tempo, um pouco de energia. As coisas por aqui estao rather busy.

Nunca um inicio de periodo esteve tao puxado e, ao mesmo tempo, tao interessante. Estou me remoendo enquanto meu livro de Medicina Interna nao chega e gastando horrores em xerox de consensos, artigos. Na faculdade, sempre me senti conduzido por inercia - nao que o curso fosse desinteressante ou eu nao gostasse daquilo tudo - mas eu nao tinha aquela paixao que todos propagandeiam. Eu me imagino fazendo milhares de outras coisas, tenho plena consciencia de que minha vida poderia ter tomado rumos completamente diferentes e se eu prestasse vestibular hoje, com certeza Medicina nao seria a minha primeira opcao. Mas confesso que a Clinica, os pacientes, o respeito que a roupa branca impoe, sao fascinantes. Quando voce comeca a juntar os primeiros pedacos de conhecimento, eh uma sensacao indescritivel.

Nem o sentimento de get me away from here, i'm dying que eu jurava que aconteceria, bateu. As ferias e suas intemperies tambem tiveram seus louros. Enxergar as pessoas de uma forma mais cruel, mais real esta sendo um exercicio muito util e salvador. Levando a fundo a maxima de "nao esperar muito de ninguem". E rezando para as coisas boas continuarem acontecendo. De coracao aberto para qualquer surpresa inesperada, ao virar de uma esquina...

domingo, março 13, 2005

Curtinhas

Nossa, faz muito tempo desde que eu não posto nada. Faz mais de mês, mas parece que faz mais tempo. Não escrevia simplesmente por que não havia muito que falar. A vida seguiu seu curso normal(se isso é possível), e como na maioria das férias eu não fiz absolutamente nada.

Como todo recomeço, já tracei várias metas para realizar durante esse período pós-férias, mesmo sabendo que não vou cumprir nem um quarto dessas metas. Passou o carnaval, o Brasil está na sua operalidade padrão, mesmo que com o Severino no congresso.

Continuo achando Brasília uma cidade estranha e confesso que ainda acho que o povo que vem morar em Brasília um pouco frio, mas ...

Na república ocorreu o cúmulo do desperdício... O Biffi esqueceu meio engradado de skol no freezer da geladeira. Conclusão: 12 cervejas chocas e difíceis de engolir.

Continuo achando o vestibular injusto. Não é por conta do mérito ou não de uma pessoa, mas, sem querer ser chato, mas tem gente que é tão arrogante que deveria ser pisoteada pelo próprio ego, mas...

Passar roupa é tão chato...

segunda-feira, março 07, 2005

#1 e meio/2 - Horas depois

Foi quando a noite caiu e eu fiquei solitariamente em casa, depois de dias tão ensolarados, que o coração paralisou em uma só batida, irradiando da garganta à ponta dos dedos. Caminhei pela casa, procurando algo para me ocupar: mas a televisão estava por demais entediante, o livro complexo demais, nenhuma ocorrência relevante a ser resolvida.

O fato era que eu deveria ter me mantido fiel ao pacto por mim mesmo proposto: não se envolver. Não jogar certas coisas para o futuro. Não planificar em cima do instável, das promessas, das ilusões. Mas, quão tolo eu fui, tentando legislar estas coisas que estão acima de nosso controle.

Observo a imobilidade das coisas a minha volta, a penumbra, o barulho enfadonho as pás do ventilador com uma ternura inacreditável. Quase terrível. Imerso na expectativa de um telefonema que não sei se acontecerá. Um sorriso no escuro. Um perfume diluído. Pequenas tragédias cotidianas, pequenos desencontros.

Daí, quando quase estou morto, fecho os olhos e relembro das coisas boas. O inventário dos pontos positivos. Da grande oportunidade de renovação e a certeza que eu, tropegamente, ainda continuo sendo deliciosamente quase da mesma forma que eu sempre fui.

E que eu também sou apaixonante.

E fico bem.

quarta-feira, março 02, 2005

#1/2 - Última Paixão

Pequenas epifanias
(Caio Fernando Abreu)

(é longo, mas é maravilhoso - e gancho para o próximo post)

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra face que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportânte e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarisse Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia a dia.

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.