domingo, fevereiro 20, 2005

Vinte e poucos anos

"We never change, do we?
We never learn, do we?"

(We never change - Coldplay)

Sempre pensei que pessoas de vinte e poucos anos fossem adultas. Seguras do que fazem. Responsáveis. Com caminhos ligeiramente definidos. Namorando firme, constituindo família. Suficientemente estruturados para caminhar com as próprias pernas.

Pois bem: estou aqui, às portas dos vinte anos, com a terrível sensação que entrei no cinema errado.

Apesar de todas as minhas intenções de mudança, ainda estou inseguro e trêmulo. Ainda tenho uma necessidade mortal de alguém próximo, para dar suporte quando as coisas desandam. Ainda confio nas pessoas erradas e as pessoas certas vão arrumando outros rumos, distanciando geograficamente. Ainda sou instável demais, hiperresponsivo. Ainda estou naquela: "será que é isso mesmo que quero fazer da minha vida?".

Ao redor, tudo parece ficar tão mais difícil. Até as pequenas coisas, as pequenas batalhas. As variáveis se multiplicaram, sob a perspectiva do futuro. Fugir não é mais uma opção segura. Desistir, muito menos.

E os riscos começam a não compensar as recompensas.

E aquela pesada porta que sela a adolescência finalmente bateu, terminando com a grande fase das experimentações. Nos vinte e poucos anos, a sensação que tudo o que se faz/fala/acontece é definitivo e irreversível. Quando os rótulos finalmente se fixam e consolidam. E eu, que quereria ter feito ainda tanta coisa, como fico? Que precisaria de alguns salvo-condutos para possíveis erros e deslizes, como ficarei?

Não sei.

E eu comecei a perceber que o futuro não vai ser bem daquele jeito que eu previa. Vai impor pesados sacrifícios. Vai doer demais.

E falta aquele fôlego para tantos recomeços. Falta energia para reinícios. Perto dos vinte e poucos anos, parece que você simplesmente cansa, entrega os pontos e aceita a realidade.

E fica aquele espírito saudoso de todas as coisas que poderiam ter dado certo. Dos caminhos que poderiam ter sido trilhados. Fico pensando em mim, há alguns anos atrás perdido em qualquer terça-feira chuvosa, em como eu era capaz e poderia ter feito a diferença.

E o sentimento de, apesar dos vinte e poucos anos, ainda não estou nem perto de ficar no ponto para viver...

["Mas tudo bem. Eu rabisco o Sol que a chuva apagou"]
(Giz - Legião Urbana)

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