domingo, fevereiro 27, 2005

Carta aberta

Talvez seja melhor não ir. Talvez seja melhor ficar. Mais um pouco, quem sabe, dormindo naquele quarto que é meu há doze anos, as mesmas paredes e fotografias, os mesmos encontros e desencontros, os mesmos prefixos e vozes, as mesmas complicações da vida simples, os mesmos deliciosos pecados, os mesmos ínvios caminhos, as mesmas incertezas, os mesmos clichês perdoáveis, as mesmas buscas insatisfatórias, as mesmas surpresas recorrentes, as mesmas trilhas sonoras, as mesmas linhas de ônibus, as mesmas pequenas epifanias repaginadas, as mesmas lágrimas inúteis.

Talvez seja melhor permanecer, assim, nesse estado de felicidade simples, um otimismo verdadeiro, um desapego sincero, insone sem culpa, preguiçoso sem remédio, melancólico sem motivos, romântico inveterado.

Talvez seja melhor ficar por aqui, esperar amanhecer, ou acontecer todas aquelas outras coisas que sobem para garganta, apertam os sentidos, confundem os caminhos, botam o coração saltando à boca - ou acontecer simplesmente nada, mas ainda ter o prazer da espera daquilo que não veio, do que espreitou silenciosamente pelos campos e trouxe benfeitorias indiretas, aquele aprendizado valioso ainda que um pouco doloroso.

Talvez seja melhor ficar. Ainda que em partes. Ainda que, para tanto, tenha que viver em pedaços...

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