domingo, fevereiro 27, 2005

Carta aberta

Talvez seja melhor não ir. Talvez seja melhor ficar. Mais um pouco, quem sabe, dormindo naquele quarto que é meu há doze anos, as mesmas paredes e fotografias, os mesmos encontros e desencontros, os mesmos prefixos e vozes, as mesmas complicações da vida simples, os mesmos deliciosos pecados, os mesmos ínvios caminhos, as mesmas incertezas, os mesmos clichês perdoáveis, as mesmas buscas insatisfatórias, as mesmas surpresas recorrentes, as mesmas trilhas sonoras, as mesmas linhas de ônibus, as mesmas pequenas epifanias repaginadas, as mesmas lágrimas inúteis.

Talvez seja melhor permanecer, assim, nesse estado de felicidade simples, um otimismo verdadeiro, um desapego sincero, insone sem culpa, preguiçoso sem remédio, melancólico sem motivos, romântico inveterado.

Talvez seja melhor ficar por aqui, esperar amanhecer, ou acontecer todas aquelas outras coisas que sobem para garganta, apertam os sentidos, confundem os caminhos, botam o coração saltando à boca - ou acontecer simplesmente nada, mas ainda ter o prazer da espera daquilo que não veio, do que espreitou silenciosamente pelos campos e trouxe benfeitorias indiretas, aquele aprendizado valioso ainda que um pouco doloroso.

Talvez seja melhor ficar. Ainda que em partes. Ainda que, para tanto, tenha que viver em pedaços...

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

20 anos

"Certo, muitas ilusões dançaram - mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída. Nada muito terrível. Só viver, não é?"
(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, fevereiro 22, 2005

"Andorinha lá fora está dizendo:
Passei o dia à toa à toa"

(Manuel Bandeira)

E eu digo: eu também. Eu confesso que não resisti à tentação do ócio, desses irrestritos e impertinentes. Deixei todas as coisas em stand by e fui lá viver, coisas simples e pequenas.

E as tardes de verão se seguiram, e agora o horário mudou.

E agora as chuvas de março já vem, para fechar o verão e todo um ciclo de experiências repaginadas que eu assumi, de peito tão aberto e cara tão lavada.

E no final das contas, tudo deu certo. Ou vagarosamente vão entrar nos lugares, mesmo que não sejam os corretos, ao menos são sustentáveis.

E a nostalgia fica sim, apertando na garganta, embaçando os olhos. Os laços importantes foram estreitados, a cumplicidade não necessita mais que olhares, como uma benção.

E andorinha, também te digo: foram dias memoráveis. Mas a vida, essa não vou deixar passar - para manter tudo isso vivo, aqui dentro, é preciso muito mais esforço que meramente deixar-se vencer pela mornidão do ócio...

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, fevereiro 20, 2005

Vinte e poucos anos

"We never change, do we?
We never learn, do we?"

(We never change - Coldplay)

Sempre pensei que pessoas de vinte e poucos anos fossem adultas. Seguras do que fazem. Responsáveis. Com caminhos ligeiramente definidos. Namorando firme, constituindo família. Suficientemente estruturados para caminhar com as próprias pernas.

Pois bem: estou aqui, às portas dos vinte anos, com a terrível sensação que entrei no cinema errado.

Apesar de todas as minhas intenções de mudança, ainda estou inseguro e trêmulo. Ainda tenho uma necessidade mortal de alguém próximo, para dar suporte quando as coisas desandam. Ainda confio nas pessoas erradas e as pessoas certas vão arrumando outros rumos, distanciando geograficamente. Ainda sou instável demais, hiperresponsivo. Ainda estou naquela: "será que é isso mesmo que quero fazer da minha vida?".

Ao redor, tudo parece ficar tão mais difícil. Até as pequenas coisas, as pequenas batalhas. As variáveis se multiplicaram, sob a perspectiva do futuro. Fugir não é mais uma opção segura. Desistir, muito menos.

E os riscos começam a não compensar as recompensas.

E aquela pesada porta que sela a adolescência finalmente bateu, terminando com a grande fase das experimentações. Nos vinte e poucos anos, a sensação que tudo o que se faz/fala/acontece é definitivo e irreversível. Quando os rótulos finalmente se fixam e consolidam. E eu, que quereria ter feito ainda tanta coisa, como fico? Que precisaria de alguns salvo-condutos para possíveis erros e deslizes, como ficarei?

Não sei.

E eu comecei a perceber que o futuro não vai ser bem daquele jeito que eu previa. Vai impor pesados sacrifícios. Vai doer demais.

E falta aquele fôlego para tantos recomeços. Falta energia para reinícios. Perto dos vinte e poucos anos, parece que você simplesmente cansa, entrega os pontos e aceita a realidade.

E fica aquele espírito saudoso de todas as coisas que poderiam ter dado certo. Dos caminhos que poderiam ter sido trilhados. Fico pensando em mim, há alguns anos atrás perdido em qualquer terça-feira chuvosa, em como eu era capaz e poderia ter feito a diferença.

E o sentimento de, apesar dos vinte e poucos anos, ainda não estou nem perto de ficar no ponto para viver...

["Mas tudo bem. Eu rabisco o Sol que a chuva apagou"]
(Giz - Legião Urbana)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Devassa

Eu sou da época do Orkut moleque, o Orkut de raiz. Daquela boa época em que ele não era matéria da Veja, da Capricho, do diabo a quatro. Sou da época em que as boas comunidade tinham 300 membros, pessoas normais tinham no máximo 50 amigos, o No Escuro não era infestado de multiplicadores e o concunhado do seu vizinho não era dono de comunidade.

Da forma que está, tão pop, o Orkut transformou-se num acinte à privacidade. Sem perceber, entrando em inocentes comunidades, revelamos quem somos, de onde viemos, para onde vamos, quem nos atrai (ou não). Para bons entendedores, um profile basta para definir uma personalidade. E isto, para variar, não é um fato unicamente positivo.

Eu, praticamente integrante da Velha Guarda orkuteira, tive que me adaptar, respeitando minha eterna postura defensiva.

Primeiro, saí de todas as comunidades que sinalizavam geograficamente quem eu era, aonde estava.

Segundo, foi deletando os "amigos" que não conhecia, que não tinha vínculo algum. Para os friends serem realmente friends. Ou pessoas a serem conhecidas e entrarem para estre grupo.

Terceiro - e o que finalmente falta - é enxugar o profile. Ser mais abrangente e, ao mesmo tempo, ainda reservar a qualquer pessoa que quiser me conhecer boas questões para serem levantadas.

Confesso que está sendo uma experiência legal. Espero conseguir, o mais breve possível, trazer essa devassa para o mundo real. E eu vou conseguir.

domingo, fevereiro 13, 2005

Trilha sonora inesperada...

"If you find yourself caught in love
Say a prayer to the man above
Thank him for everything you know
You should thank him for every breath you blow

If you find yourself caught in love
Say a prayer to the man above
You should thank him for every day you pass
Thank him for saving your sorry ass"

(If you find yourself caught in love - Belle and Sebastian)

Por essas e outras que Belle and Sebastian é a minha banda.

sábado, fevereiro 12, 2005

Para ser minha namorada

Para ser minha namorada, é preciso primeiro, que seja bela. Mas não a beleza nórdica, das medidas estreitas das grandes top models. É preciso uma beleza escondida e secreta, que só consegue ser percebida quando observada bem de perto, com muita atenção.

Para ser minha namorada, é preciso ter um bocado de melancolia, outro bocado de saudosismo, mas que não descambe para depressão. É preciso que ela saiba ser triste, quando assim desejar. Alguma coisa de bossa nova, aquela coisa de filme antigo, tipo Audrey Hepburn, que se perdeu com o tempo.

Para ser minha namorada, tem que gostar de nonsense. Buscar o humor na contramão da vida. Tem que gostar de humor negro, fazer piada de si própria, de mim, de todos. É preciso saber ser irônica, gostar de alguns mal feitos e eventualmente bagunçar uns coretos.

Para ser minha namorada, é preciso ter bom gosto. Mas que necessariamente não seja semelhante ao MEU gosto. Necessário mesmo é que ela tenha capacidade suficiente para me convencer. Obviamente, algumas coisas são inegociáveis: religião (ou falta de), time de futebol e (o péssimo nível do) Teste de Fidelidade do João Kléber.

Para ser minha namorada, não se pode ter medo de buteco. Nem peço que beba (logicamente, só de beber uma cerveja comigo já se ganham muitos pontos). Mas é essencial que respeite a sacra instituição do bar, que entenda que é preciso freqüentar o bar com os velhos amigos, independente da presença dela. E que vou continuar amando-a, respeitando-a, apaixonadamente e da mesma forma, entre pingas e cervejas.

Para ser minha namorada, é essencial que goste dos meus amigos como eles são. Não gostou, o azar é todo dela. Porque se ela colocar um: são eles ou eu, querida: sinto muito mas adeus.

Para ser minha namorada, também é preciso ser eventualmente fútil. Saber falar do Big Brother, bobagens sexuais, discussões infundadas, fofocar sobre vida alheia, horóscopo, tédio cotidiano, I Ching. Intelectualização demais também enche o saco.

Para ser minha namorada, finalmente, é preciso que me complete de uma maneira inesperada. É preciso que me ame, apesar de mim. E se ela for mais ou menos dessa forma, já está de bom tamanho.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Consolo

Não há motivos para choro: algumas escolhas não somos nós que fazemos. Sei também que este não é exatamente o destino que você quereria. Mas se serve de consolo, você ainda está em melhor situação que eu. Agora, é só muito esforço para, ou retornar ao caminho inicialmente planejado, ou adaptar ao que vier.

Eu sempre estarei por aqui, por ali, onde quer que seja, quando precisar.

Saiba que a vida agora começa de novo. Faça dela o que desejar. Boa sorte.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Não me leve a mal...

... mas eu acho Carnaval até uma data simpática. Se eu tivesse grana, ou talvez até um convite barato (para bons entendedores, quase de graça) de bons amigos, provavelmente estaria entregue a essa sanha insana que invade o país nessa época.

Divertia-me muito naquela época que confetes & serpentina era o melhor programa da nossa infância. Quando jogar confetes já não era tão legal assim, entregava-me aos intermináveis desfiles da Globo. Varava madrugadas, tomando Coca Cola e comendo pipoca. Sem contar as apurações, que assistia nervosamente fazendo torcida, xingando os jurados.

Era divertido.

Acho carnaval excelente para a galera se desreprimir. Mostrar a real face lisa: a voracidade por bebida e sexo, essa necessidade de fuga no meio de uma multidão de desconhecidos. Coisas que quase todo mundo deseja fazer nos 361 dias do ano, mas falta coragem para.

Até entendo o discurso de quem odeia a data. Alienação. Ópio do povo. Péssima qualidade. Banalização. Nudez excessiva. Etc. Etc. Etc. Mas não me leve a mal, pelo menos agora: hoje é Carnaval.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Gabriel battles the Black Cloud

"O que ficou para trás, ficou, não interessa. Recolher os despojos do naufágio e deles fazer um barquinho, sair remando"
(O Encontro Marcado - Fernando Sabino)

"Those evil-natured robots
they're programmed to destroy us
she's gotta be strong to fight them
so she's taking lots of vitamins"

(Yoshimi battles the pink robots - Flaming Lips)

Poderia dedicar um, dois, três posts sobre o desastre (pessoal e intransferível) que a viagem para Florianópolis transformou. Em como as pessoas são baixas e anti-éticas, em como as pessoas são covardes e sem capacidade de visão além de seu próprio umbigo.

Mas não vale a pena. Primeiro, porque não se há mais o que fazer, além de dançar um tango argentino - o estrago já está bem, muito bem, feito. Segundo porque, quando a Nuvem Negra se aproxima, não há Cristo que endireite as coisas. Ela provoca uma sucessão de fatos murphyanos e, a única coisa que se sobra para fazer, é esperar pacientemente.

Enquanto isso, dedico-me a outras coisas: jogos de tabuleiro, video game, miudezas da vida. Coisas essenciais, mas que acabam ficando em segundo plano quando não se presta muita atenção à elas. O importante é manter-se ocupado com coisas agradáveis, ao alcance do seu controle e das mãos. Nem pensar muito nisso, esperando que a vida retorne aos eixos habituais.

E nada de perder o otimismo e descambar para uma espiral depressiva e subjugante. Agora é só recomeçar do zero, deixar os feridos pela tempestade pelo caminho e prosseguir. Indefinidamente. Até que.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Post conjunto

"Your heart won't heal right if you keep tearing up the sutures"
(Nothing Better - The Postal Service)

É triste quando um amor acaba. Mas é preciso aceitar que amores não são eternos, que os amores começam para acabar: daqui um dia, um mês, quinze anos, ninguém sabe. O fato é chega uma hora que ele natualmente se esvai e é preciso dar um jeito no que restou de você depois disso.

Só que o que você sente não é amor. Você nunca amou de verdade. Isso é carência afetiva, é uma espécie de possessividade. Não considero atos de amor essa necessidade masoquista de ficar seguindo os passos de quem foi embora. Não considero amor essa vontade de magoar a quem já se amou. Não considero amor essa insistência inútil por aquilo que se já perdeu.

Amor não é guerra, não é conquista, nem de longe dominação: é livre-acordo. Que podem ser rompidos, por uma das partes, quando assim julgar necessário.

E você não vai melhorar enquanto não deixar o tempo se encaminhar de levar o resto embora.

Post conjunto com o Sete Faces