segunda-feira, janeiro 17, 2005

A mulher da janela

Não sabia muita coisa sobre ela, e muito menos como me sentir em relação a sua existência. Aliás, muitas poucas pessoas sabiam alguma coisa a seu respeito. O nome, talvez um ou outro saibam, mas essas pessoas não fazem parte do meu convívio. Poucas coisas sei sobre ela além do fato de gostar de se vestir de vinho. Sei também que ela gosta de Beatles e lá pelas cinco está acordada.

Ela mora na Rua Major Claudiano(ou qualquer Rua , nao sei e não lembro muito bem dos nomes das ruas de Franca) num sobrado antigo que parece ter sido construído lá pelos anos 40. Sua mãe, é de conhecimento de muitos, morou na mesma casa e sofria da mesma maldição, e diferentemente da filha, ela continuou com a estirpe. A sina dessas mulheres, não sei por que, é de ficar na janela. Não digo ficar na janela para refletir durante uns minutos ou para olhar o esplendor de um pôr-do-sol, mas, de fato, ficar na janela durante horas, olhando a vida correr e o relógio das horas passar.

Todos os dias que eu passava pela mais movimentada rua da região central de franca lá estava ela como o esperado, debruçada sobre a janela e olhando as pessoas no mundo ali em baixo. Quando se cansava de ficar na janela, logo ela descia as escadas e aparecia , fumando, na entrada do sobrado. Não conversava com ninguém. Segundo contam as estórias do povo, ela ficou repetindo essa rotina desde o dia que o noivo a abandonou no altar.

Não sei como ela vivia. Nunca a vi fazendo compras, pagando contas, recebendo amigos, indo à farmácia, passeando, ou qualquer coisa que as pessoas tem que fazer. Era o mistério da janela. Não sei se eu sentia medo por achar que ela sofria de algum voyeurismo exacerbado, ou que ela era a máxima tolerância à solidão.De qualquer maneira, eu me solidarizava com ela.

Acordar lá pelas cinco, preparar o café, lá pelas seis escutar alguma música dos Beatles, como Love me Do, e a partir daí ficar debruçada na janela olhando o mundo até que o corpo cedesse por algum motivo e fosse necessário se ausentar. Isso não é vida. Não é mesmo.

Pensar na perspectiva de não ter amigos nem motivos para viver, não ter nada além da visão de um mundo indiferente ao seu diariamente como objeto de observação, ficar só, muito só, tocar a solidão a cada inspiração, não é a melhor coisa do mundo. Penso na angustia que ela pode sentir, dizendo não dizendo um “Boa noite” pra ninguém, não ter com quem conversar aquela coisa atoa que aparece nos primeiros pensamentos antes de dormir e de saber, que no futuro, ninguém virá e só saberão de sua morte por que o corpo já podre começou a feder.

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