quinta-feira, dezembro 29, 2005

Traição

Não é a traição que dói. É perceber que toda confiança, todo empenho e esforço foram, de certa forma, em vão. Pode ser um deslize passageiro, que só precisa de uma sintonia fina para regular no modus operandi normal - só que, infelizmente, neste processo sempre alguma coisa se perde e existe o grande risco de ser algo significativo. Pode ser uma resolução permanente - e daí só resta lamentar pelos caminhos que se escolheram e torcer que este caminho não seja tal qual julgo.

Neste ano, aprendi a perdoar (apesar de não ter colocado este minha nova "ação" efetivamente em prática). Mas aprendi, com maestria, a brincar de Pilates: lavar as mãos sem peso na consciência algum, pois cada um sabe cuidar da sua pele e não vou mais queimar noites de insônia tentando salvar alguém que não queria ser salvo.

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E para aproveitar, feliz Ano Novo para todos. Sempre achei Ano Novo tão mais lindo que Natal. E desculpem os silêncios, estou sem computador disponível e a situação só se regularizará em meados de janeiro...

sábado, dezembro 24, 2005

2005.3 - O que reserva

Limites testados, liberdade conquistada. Agora é o difícil. Os filmes edificantes sobre "luta pela liberdade" sempre terminam no momento em que ela é conseguida. Todo desenrolar posterior, essas difíceis decisões sobre ficar no espeto ou cair na brasa: ninguém avisa, ninguém ensina, ninguém aconselha. Ser livre é terrível - não sobra ninguém para culpar se algo dá errado a não ser você.

Sempre falo na metáfora da leveza e do peso (do Insustentável Leveza do Ser), pois acho ela uma das formas mais brilhantes de se enxergar O grande dilema da vida. A leveza é insustentável. Por isto não se pode voar muito alto, por isto que temos que ser ligeiramente pessimistas, deixar os sonhos de lado, entrar um pouco na rotina emburrecedora - tudo isto para contrapor a liberdade irresistível que estou sentindo, só para não ser balão demais e voar e voar e voar e perder irreversivelmente o chão.

Sim, estou irresistivelmente livre. Perigosamente livre. Entrarei em 2006 testando os meus limites, colocando tudo o que conquistei e construi em risco só porque conquistei, enfim, minha liberdade moral. Mas sei, como sei, todos os becos escuros que se mostram quando se escolhe a liberdade. Todas as intempéries de quem escolhe tentar o alto-mar, deixando a mornidão confortável da praia.

Quem quiser me acompanhar, que se sinta à vontade.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

2005.2 - O ano, propriamente dito

Nos últimos anos, pedi: um pouco de vida. Pedi algo além da irregularidade dos dias mornos, esta falta de aventura, este desperdício que é viver respirando, meio sem saber o por quê.

E, como numa benção, fui atendido.

Sim, 2005 foi um ano cheio de vida. E viver é muito perigoso. Ao escolhermos a Vida, estamos à mercê de todo tipo de coisa que ela pode nos oferecer. Foi um ano de altos e baixos, grandes alegrias e tristezas pungentes. Amei, fui amado. Traí e fui traído. Fui condenado e perdoado. Condenei e perdoei. Grandes sucessos e grandes fracassos.

Foi um ano de reencontros. Comigo, com a faculdade, com as pessoas que me cercam. De um afastamento inicial, para colocar ordem na grande zona que 2004 criou. E quando a bagunça estava arrumada, as reaproximações. Reforçando tudo aquilo que havia de forte e sincero. Só valorizamos na iminencia da perda - e forcei a quase-perda só para ver, tão material em minha frente, aquilo que era sólido e merecia ser cultivado.

Foi um ano de grandes vitórias. Sobreviver morando sozinho, a tranferência que só não se consumou por uma negligência estratégica, essa firmeza que minhas ações e falas tomaram. Essa coragem irresistível. Essa vontade de mudança que foi convertida em movimentos, em possibilidades, em pequenos riscos calculados.

Os amigos antigos, vão ficando igual vinhos: mais fortes e ao mesmo tempo, mais complexos. Os amigos novos vão virando antigos, vão conquistando confiança. Os amigos novíssimos, que se sintam à vontade de abrir a geladeira, sentar no sofá e trocar o canal. Esperem me encontrar da mesma forma, com as mesmas e habituais defesas - o grande desafio é driblá-las. E garanto que, para quem conseguir, a recompensa é grande.

Dos (dois) amores, tive as mais doces e dolorosas lições. Mas vieram, para iluminar um pouco estes quartos sombrios. Devagar, os sentimentos vão purificando e, com isso, fica-se o que havia de mais brilhante. Porque foram momentos brilhantes, que guardarei com todo carinho na minha gaveta de lembranças boas.

2006 promete ser difícil, em outros aspectos. Sinto que toda aquela confusão filosófica que sempre armou na minha cabeça foi resolvida. Sinto que os caminhos já foram escolhidos e delimitados e agora só falta colocar efetivamente tudo aquilo que planejei. Agora as questões são de ordem mais prática: a faculdade prenunciando o fim, as relações de amizade numa proximidade perigosa, os vários mundos concomitantes em que vivoem rota de colisão. Mas encaro todas as dificuldades com estímulo nunca visto, pois estou forte e sou forte e não existe obstáculo que não pode ser transposto.

Termino o ano mais realista, melhor, mais otimista. Repetindo as palavras do início do ano: "Talvez seja melhor permanecer, assim, nesse estado de felicidade simples, um otimismo verdadeiro, um desapego sincero, insone sem culpa, preguiçoso sem remédio, melancólico sem motivos, romântico inveterado". A todos que tiveram participação neste meu ano, meu sincero obrigado e o desejo que 2006 seja tão melhor que os outros anos.

E que chegue 2006!

sábado, dezembro 10, 2005

2005.1 - Carta só para você

Hoje na Rodoviária, pensei em você como de costume. Talvez, não virar à esquerda e pegar o ônibus - se fossem outros tempos, andaria mais uns dois ou três quarteirões e seria à direita que eu escolheria. Tudo ainda recende sua presença: as ruas, as rádios, as novelas, os bares, até meu solitário apartamento.

É porque te amo. Tão estranho falar assim, porque nunca te disse isso enquanto estávamos juntos. Sim, ainda te amo, pura e sinceramente. Cantarolo umas duas vezes por dia que até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei, mesmo não encontrando mais. Mas é um amor diferente daquele que eu tinha. Te amo como amo um verão específico da minha infância, o Hotel Parthenon do Nestlé em São Paulo, o dia em que passei tão de susto no vestibular. Eu te amo como algo específico, encerrado no tempo. Algo que daquele jeito que era não tem volta, pois como dizem naquele ditado pseudo-zen-budista-brega, nunca atravessamos o mesmo rio duas vezes. Nem se colocássemos tudo o que vimos ou vivemos, todos os que nos cercavam, com as mesmas falas e movimentos, teríamos o mesmo arrebatador resultado final. Eu te amo tanto porque foi inesquecível, debaixo daquele tanto de estrelas, quando duas solidões complementares se complementaram e dois mundos por algum tempo correram paralelos, pegando um pouco de música, de sentimento, de vida e opinião e somando àquilo que já se existia.

Não considero que não errei em algum momento - talvez, se eu não tivesse ficado tão incomunicável, tão preso à dor, com o orgulho tão reforçado... Mas até foi melhor assim. Acho que, ao recuperar do abismo que eu mesmo me coloquei, serviu-me de lição para o resto da minha vida - e foi isso que contribuiu para que 2005 fosse um ano, no plano das realizações, tão pleno e satisfatório.

Hoje, ainda volto aos mesmos pontos. Ainda indago que eu quero saber a verdade e você se preocupa em não se machucar. Ainda escuto "Will you love me tomorrow" da Carole King, nossa música que você não chegou a conhecer, contemplativo. E sorrio, e saio para bares, e conheço outras pessoas, e refaço outros caminhos e assim a vida vai seguindo, viçosa e forte - irreversível e deliciosa de se viver.

Vou caiofernandiamente: com estas dores sofisticadas, esse sentimentalismo na ponta dos dedos, essa sinceridade pungente que me causa tantos problemas... E espero que você continue, também, bem.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

observações pequenas sobre a ultima semana

Antes de anteontem eu sonhei que o apartamento onde moro aqui em Brasília desmoronava.

Tudo caia, despencava. Nada se salvou daquilo tudo que eu havia vivido nessa cidade. O fim do sonho: estava eu sozinho na cidade e era domingo e não ajudaria nenhuma das pessoas que estavam soterradas no predio que caiu por culpa de um soco que eu dei na parede. E ventava.

Tenho a mais absoluta certeza de que sonhei por que meu mundo por aqui está de fato caindo, aos poucos, e devido a minha covardia sei que provavelmente nao lutarei para que nada seja salvo, por mais que eu queira. Vou perder tudo que tenho por conta do meu medo e também por que eu não quero perder nada. Ou isto ou aquilo, dizia Cecília Meireles em um poeminha infantil, acho que desde que era criança eu nunca entendi o por que de não ser possivel isso e aquilo.

Talvez por repensar em tudo o que aconteceu e pode vir a acontecer eu chorei, e ri de desespero e chorei de novo e cantei bossas, cantei junto algumas musicas ao lado da voz rouca da billie, e desejei profundamente que um carro me atropelasse no eixo rodoviário.

Talvez tudo isso que estou pensando nessa ultima semana não seja nada. Quem além de mim mesmo poderei impedir minha auto-destruição? Ninguém poderá me ajudar, e fico angustiado e com vontade de gritar um som ancestral que possa fazer tudo ficar em paz por alguns segundos.

Enquanto isso, eu rezo en silêncio

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Bossa Nova

Lá fora chove. Torrencialmente. E eu queria tanto estar por lá. Pela chuva (vide 30/11/2004, nos arquivos).

Doeu, ah. E ainda dói. Nada que seja agudo ou intenso. Nada que seja um pouco além de um desconforto passageiro, ali naqueles segundos na escuridão do ônibus, ao escolher o bife do almoço, ao refletir distraidamente sobre as metas que não se cumpriram na cama, pela alta madrugada.

Mas dói, ah. E sangra, copiosamente. Por tudo aquilo que poderia ter sido. Se talvez eu não fosse tão orgulhoso. Se me contentasse com as fagulhas de luz, sem essa necessidade descaínte pela completude, pela intensidade. Talvez se não houvesse amor próprio, dificuldades, espaço para silêncio e solidões.

Que pecado esse de sentir tanto. Que vontade de chorar, de correr, repetir os caminhos repetindo as palavras e os erros e as incertezas e as esperas só para tentar no final do túnel tanta coisa tanta coisa tanta coisa iluminada a piscar igual estes pisca-piscas de Natal que encimam as janelas de classe média numa felicidade tão simples e ao mesmo tão complexa como essa dor que vem e volta e parece que não vai terminar nunca nunca nunca...

sábado, novembro 26, 2005

E não é que..?

"I asked somebody: 'Could you send my letter away?'

'You are too young to put all of your hopes in just one envelope' "
(If she wants me - Belle and Sebastian)

O signo da morte

Hoje chovia, neblinava. O céu avermelhado mal conseguia indicar os caminhos. O campus estava anormalmente solitário e cada passo parecia ecoar nas paredes, nas árvores. Quase desesperei - e olha que conheço tão bem a inocuidade destes caminhos que nunca, ou quase nunca, tive medo.

Foi um dia regido sobre o símbolo da morte. Um acidente de carro de um conhecido estimado, colocando-o em coma com todas as incertezas que isso traz. Uma morte antiga, de uma ex-estudante da faculdade, que descobri num livro. Todos os capítulos de quem parte aos poucos, todas as horas do fim.

Não que tenha problema com estas coisas. Memento mori, como postei. Carpe diem, diziam os poetas. Mas o que pesa é essa solidão. O desperdício dos segundos com tantas coisas irrelevantes. Todos esses meandros para se chegar aonde se quer. A Urgência de viver.

Dói é essa preguiça de fazer alguma coisa relevante.

Dói é essa irresponsibilidade de viver a vida tão responsavelmente.

Dói é não abrir os caminhos na carne.

E acreditem: estou abrindo.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Sobre ser mau

Queria me permitir a ser mau eventualmente.

Queria me permitir a não ter piedade com quem, definitivamente, não merece.

Queria me condicionar a colocar Maquiavel na prática, só por alguns momentos.

Queria não ter consideração por quem não tem por mim.

Odeio ser tão cristão assim. Odeio não ter direito à articular vinganças & revanches.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Uma semana muito louca 2

"Desde que avançou a última fronteira, o que mais incomoda é a sensação difusa de flutuar no abismo"
(roubado discaradamente do Fonoflux)

... depois de ter o superego dissolvido igual um Cebion dentro de um copo d'água foram as mais diversas possíveis. Foi sim, a semana mais louca da minha vida. Mas talvez louca não seja a palavra correta - improvável, quem sabe. Daquela sinceridade infantil tão peculiar quanto constrangedora. Daquela tranparência tão irreal que custamos a acreditar que é verdade.

Não aconteceu nada de mais. Nada de grandioso ou epifânico. Só coloquei as engrenagens para rodar e apertei um belo foda-se. E não é que funcionar no modo foda-se, eventualmente, é libertador?

Sempre digo que, às vezes, é preciso caminhar pelas sombras para alcançar a Luz (naquele momento com música de clímax e final feliz). Pode ser o caminho mais curto, o mais longo, aquela que nunca chegará aonde queremos: tá escuro, não dá pra saber. Só que minha Clarice sempre dizia que "a salvação é pelo risco, sem a qual a vida não vale a pena". E quando o jogo se arrasta infinitamente neste zero a zero, grita o inconsciente inconseqüente, ligeiramente encharcado pelo etanol: por que não?

Como no bungee jump. Lá em cima, a quarenta metros de altura, quando é só você contra aquela solidão imensa do abismo. Seu instinto de auto-preservação fica gritando na sua cabeça que aquilo é uma insanidade. Que é uma queda fatal. Quem sabe onde ficou aquela corda? E você hesita. O vento bate. Você caminha. A coragem fica ali, naquele elevador, escorrendo pela corda até pingar no chão. Os pés se colocam à metade do abismo - diz o instrutor: é só se jogar. E se jogar não é difícil, a gravidade existe pra essas coisas. Mas e o abismo? E o que lhe espera? E se algo der errado, não tem volta.

O medo paralisa. Só que talvez seja bom. Talvez eu morra. Só que talvez nem doa. Sozinhos estamos todos, com vazio debaixo dos pés ou enquanto sentamos no bar, alegremente, fingindo que felicidade se compra como uma deliciosa Antarctica num dia de verão. Daí você cede. E daí, você cai. E depois, nem dá para explicar...

Por todos estes dias, fiquei com a impressão do primeiro passo dentro do abismo.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Uma semana muito louca

Quarta: cerveja de madrugada, no mercado 24 horas.
Quinta: cerveja com frango, na república.
Sexta: vodka, até amanhecer.
Sábado: cerveja, com samba da melhor qualidade.
Domingo: cerveja no café-da-manhã, antecedendo a feijoada.
Segunda: pinga, para ver amanhecer de novo.
Terça: nada, só pra retomar as energias.
Hoje: Deus sabe, só ele. Mas vai ter alguma coisa.

E as conseqüências disto...

terça-feira, novembro 08, 2005

High

"When I see you sky as a kite
As high as I might
I can't get that high
The how you move
The way you burst the clouds
It makes me want to try"

Eu estava apaixonado e acabou. Simples assim? Sim, acho que o amor é uma coisa simples, nas linhas gerais.

E enquanto vou sendo regido pelo signo do desamor, coisas acontecem. Ligeiras, fugazes. Possibilidades que sorriem na janela. E eu sorrio de volta, porque por mais nublado que as coisas estejam, sempre achei que sorrisos devessem ser retribuídos com sorrisos. Algumas taquicardias, pequenas decepções. Outras taquicardias. Desses retalhos, vou costurando uma recuperação. Franca, forte e duradoura.

Disto tudo, ficou a certeza de continuar movimentando: batendo a cara nas portas, boemias pela madrugada, caminhadas ensolaradas apesar do dia sujeito a pancadas de chuva pelo final da tarde. Voltou o otimismo. Potencializou a coragem e a confiança. E apesar da mornidão e falta de perspectivas - de todas as encruzilhadas que se armadilham enquanto caminho - dá a vontade de repetir de novo.

Encontrei esta música por acaso e me deu uma vontade louca que fosse para alguém. Dedicar ao telefone, sussurar no ouvido, cantar junto enquanto passeio inocentemente pelos cachos dos cabelos.

Ligar de madrugada para falar: lembrei de você.

Ou qualquer outra insanidade de quem ama e para todos os outros não faz o menor sentido...

"And when I see you
Take the same sweet steps
You used to take
I say I'll keep on holding you
My arms so tight
I'll never let you slip away"
(High - The Cure)

sexta-feira, novembro 04, 2005

Quando a ficha caiu no meio do banho

Não temo o que o futuro me reserva. Dei uns decisivos passos para aquilo que poderei chamar de carreira profissional. Enquanto a vida corre em stand by, percebo a cada dia em como somos desimportantes para a grande maioria das pessoas e, no final das contas, quem está contigo está contigo pro que der e vier. Desencontros e incompreensões são inerentes da natureza humana e tentar se privar disso é o mesmo que se castrar das melhores coisas que poderiam acontecer quando se escancaram as portas e janelas. Um dia é da caça, outro é do caçador. E por aí se vai, bambo e torto, mas se vai.

Só que, apesar de transitório, é o presente que está me preocupando. Águas que passarão não movem moinhos. Algo me diz que devo fazer algo que conserte minha vida para agora. Difícil é saber por onde começar...

quarta-feira, novembro 02, 2005

Memento mori

Quase madrugada, noite encoberta, sono & fome. Primeira sala, disseram no PS. Essa é a senha que um politraumatizado chegou. Nunca havia visto um politraumatizado na minha frente. Nunca havia visto alguém dependurado pelo curto fio da vida. E aí eu vi. Era mulher, negra, obesa. Atropelamento, disseram.

Chegou parada. Batimentos zero. Ainda quente. Massagem cardíaca, disseca uma veia. Quatro médicos se movimentando freneticamente em torno dela.

Um calafrio me percorreu, pois era a primeira vez que estava encarando a Morte. Senti o chão fugir dos meus pés por alguns segundos. Depois, contorci as pupilas para observar os detalhes que ali se abriam. Tinha um olhar vidrado, semi-cerrado pelas pálpebras. A carne quente movia-se para cima e baixo, em movimentos ritmados por causa da massagem. O braço pende para esquerda, acompanhando o movimento do corpo. Uns gritos, uns sopros, correria generalizada.

Até que: nada. Uma simplicidade tão absurda quanto aterrorizante. Nem um batimento último, nem um suspiro além, nem uma última palavra. O silêncio percorreu a sala, foi ecoar em cada batimento que meu torto coração insistia, em cada respiração, em cada centímetro quadrado de pele quente.

Lembrei me Ingmar Bergman, em "O Sétimo Selo". O eterno jogo de xadrez. Pensei noutras milhares de tangentes só para abafar o fato.

Ela havia vencido.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Fogo Fátuo

(ou anotações sobre um Grande Vazio)

Não sei, não dói. Não que eu perceba. Não que eu esteja na busca incessante e desesperada por algo que se perdeu. Nem que eu queira encontrar alguma coisa perdida dentro das brasas que subiram daquela fogueira. Não quero recuperar nada ou ninguém. Não quero refazer caminhos, não quero costurar acordos, iluminar becos, descrever os roteiros dos corpos, as chaves das portas, a terrível vertigem de quem olha para baixo. Não quero retomar projetos, recolher migalhas, nem faxinar o apartamento para encontrar todas as moedas de dez centavos que ficaram perdidas por aí. Não quero ser dotado do poder de vida ou morte, ou destilar palavras tão simples que tu desfalecerias quando elas viessem à tona. Não quero me preocupar com o futuro, nem inventar situações ou desculpas ou novos prazeres para.

Sou só negativas.

Tão estranho, nesse calor, tomando groselha quente com miojo e pensar no Grande Vazio. Imensurável. É desalento sem descambar para depressão. É movimento, sem transformar em Carnaval. É deixar a rotina levar, como um grande rio, com esperança de desembocar em algo tão maior. Sem energia alguma para manobrar o timão ou sequer olhar além da amurada.


Frank Sinatra
canta toda melancolia que me privo de sentir.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Telegráfica 2

Minha solidão, sua solidão.

Até onde são ironias?

É a solidão escapando pelas ironias?

Se fosse, se fosse... ah!

Tão bom se fosse.

Estou precisando que essa primavera comece logo.

terça-feira, outubro 25, 2005

Alguma coisa acontece...

Sampa é encantadora porque paradoxal. Sampa é encantadora por causa de sua beleza escondida, essa coisa tão contraste de doer a vista. São os prédios da mais fina arquitetura do início do século descaracterizados pelas pichações e cartazes. São os engravatados andando de Metrô. São os mendigos dormindo na porta ds grandes corporações. É ir à cracolândia para tomar chopp num bar de 60 anos. A Brasília e o Land Rover lado a lado no estacionamento do Copam. É o buteco com samba do lado do restaurante japonês. É esse caos louco de carros e motos e pessoas e bicicletas e ônibus e semáforos e todo mundo indo e vindo sem perguntar de onde vem tanto ir e vir. É a boate da moda ficar do lado das boates de prostituição. É ver tanta coisa grande num espaço tão pequeno. É almoçar num restaurante, do lado da biblioteca infantil e ganhar um cafezinho e uma camisinha de brinde. É a Benedita, nossa Mãe Preta, estar enterrada ao lado do Barão de Antonina no Cemitério da Consolação. É olhar fascinado pra tanta coisa interessante para ser garimpada, explorada, degustada, beijada, vivida, caminhada. É querer entrar nessa loucura esquizofrênica de peito aberto, pelo menos por um tempo, pelo menos para aprender a viver a mil por hora.

Sampa, te amo, ainda que feia e caótica, ainda que insegura e esquizofrênica, ainda que poluída e decadente, ainda que cara e distante, ainda que ilógica, instável e insensível.

Te amo.

Juro.

TIM Festival

O coro do Arcade Fire ainda ecoa na minha cabeça. Não tem como explicar. I can see where I am goin’. Eles gritavam, eles batiam. Eles pulavam no palco.

E os Strokes foram os Strokes. I try but you see it's hard to explain. E é mesmo. The Strokes em vermelho & amarelo no palco foi uma das coisas mais fantásticas que eu já vi na vida.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Blame the black star

"You were right about the stars
Each one is a setting sun"
(Jesus, etc - Wilco)

Essa madrugada me dá uma melancolia. Essa cerveja que tomamos também tem cá o seu efeito. Foxtrot Hotel, nesse quarto tão escuro, tão sozinho. É um CD que fala sobre a perda da inocência e como sentimos falta dela. Mentiras que são desejos. Últimos cigarros. Sobre morrer e voltar novo em folha. Sobre estar perdido. Corações congelados. Sobre perder. E sobre estrelas.

Everyone is a burning sun

Estrelas necessitam outro parágrafo. Estrelas que apagam, estrelas que explodem. Cada um, somos uma delas - decadentes e em renovação. Porque todos que me cercam estão sob maldição de uma triste sina: por eles tenho duas atitudes constantes, ora de desencanto, ora de redescoberta. Burning, setting, cada um ao seu tempo.

Por isto que é preciso tanta parcimônia comigo. Desculpe se magôo com meu silêncio, estas palavras atravessadas, esse desamor que eventualmente me rege. O importante é saber que eu sempre volto. Ao mesmo ponto. À redescoberta. Ao olhar tonto daquele que vê pela primeira vez.

Foxtrot Hotel me deixou triste como poucas coisas conseguem. Acho que só Parachutes, num dia nublado ou The Bends, por ser tão foda quanto é. Mas fico triste bem. Porque choveu tanto lá fora que não há estrela alguma no céu...

terça-feira, outubro 18, 2005

Nem foi tempo perdido...

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."
(Caio Fernando Abreu)

Um mês e meio. Pouco mais, pouco menos. Se sentasse defronte à calculadora, saberia quanto tempo com exatidão: os dias, as horas, minutos e segundos. Um mês e meio, num piscar de olhos. Tanto tempo nas costas que uma eternidade se plantou por entre. Apagou os desenhos e os caminhos. Aqueles que restaram, acabei de dinamitar por mim mesmo - nada de imoralidades ou margem para retorno.

Doeu sim. Mas nada que fosse dividido eqüitativamente por cada segundo que se arrastou. Foi pungente nos primeiros segundos até o virar das semanas, depois um pouquinho de gosto amargo na boca por engolir um pouco de saliva que deveria ter sido cuspida para fora. O estranho é esse vácuo todo na hora de dormir - percebam que por causa disso o tema ainda está tão recorrente. Não que doa mais: só que na madrugada, alguma coisa ainda recende. Como brasa ao longe no último suspiro, nas últimas crepitações. Não arde, não dói. Acho que posso até brincar com as cinzas por entre os dedos, soprá-la e ver lentamente vê-la esvaecer com o vento.

Dobro outras esquinas, encontro outras ruas. Desafios novos em folha para serem enfrentados. Escolhas para serem feitas. E ainda sobra tempo para um café, à meia luz, enquanto a cidade passa ou dorme, enquanto fico inerte feito um jardineiro fiel, calculando quando retornarei cinematograficamente para aquele trem que corta a vida.

Um mês e meio. Talvez um pouco mais. Quem se importa agora?

domingo, outubro 16, 2005

Constatação

Make your own kind of music*, diz a música. E eu concordo.

Um punhado de lembranças doces. The beautiful thing. As palestras sobre chuvas. Um tempo sem perigo, com tempestades escuras que acabavam ali, naquele shopping domingueiro com cinema & número dois do Mc Donalds (que, na época, custava R$4,95) e as promessas que tudo iria dar certo ao seu tempo.

Agora o shopping foi invadidos pelos manos e as pessoas se perderam pelo Brasil, cada um buscando aquilo que julga acreditar. Aprendi a tomar cerveja e a ser menos triste. Só que 98% do tempo tornou-se tão protocolar que nem exige muito exercício mental. Quase todos só merecem respostas automáticas e reflexas, sorrisos pré-fabricados e desculpas tangenciais. Meu mundo já não tem mais tempestades, mas era muito melhor que esse cotidiano nublado, mormacento e sem dois pingos de emoção.

* Idem - The Mamas and the Papas

sexta-feira, outubro 14, 2005

Escrevendo

Estou escrevendo uma história, nada de mais. Deve fazer uns bons três ou quatro anos que ela me atormenta, vem em flashes, pequenos pedaços. Às vezes, num momento impróprio (como aula de faculdade) ou árido (como dirigir o carro, ali pelas quatro horas da tarde, sem companhia nem rádio) ou insone. De tanto pensar, decidi colocá-la em palavras, sem pretensão ou pressa.

Só não tinha noção que era uma tarefa tão difícil. Quando lemos, parece tão fácil encaixar as palavrinhas, enfileirando-as. Parece que elas sempre estiveram ali, nasceram para aquilo. Mal consigo passar do terceiro parágrafo sem entrar em parafuso: como colocar um casal discutindo, dentro de um carro em movimento, sem perder o foco ou o fio da meada? Como alternar descrição e ação e pensamento e mundo interior e exterior? Como transformar tantas idéias truncadas numa prosa tão límpida, para que quem leia pense que escrever tudo aquilo foi igual respirar, sem esforço algum?

Queria a capacidade de condução do leitor do Machado de Assis, o fluxo de consciência de Clarice Lispector, a pureza narrativa de Fernando Sabino ou Érico Veríssimo, o sarcasmo de Nick Hornby, os adjetivos e sentimentos do Caio Fernando Abreu. Tudo isto sem parecer colcha de retalhos nem plágio. Sei que quero demais, mas nunca me contentei com pouco.
O remédio é voltar a ler. Compulsivamente. Do clássico ao Harry Potter. Enquanto isso, vou pingando parágrafos e frases, corrigindo-as compulsivamente até que elas tomem sentido. E se avolumem. E que os personagens pulem do papel, venham tomar café-da-manhã comigo, persigam-me no cinema.

Acho que só irei ser feliz ali pela página cinquenta.

terça-feira, outubro 11, 2005

Recaída

Acho que passei por todos os tipos de sentimento na última semana por causa disso. Amei e odiei, sofri, quis bem e mal. Me vi dotado de toda capacidade de perdão e vingança. No final, acho que só reforçou o sentimento de final de festa, que é hora de desarmar as barracas e montar acampamento em outro lugar. A única coisa que eu senti num reencontro, por entre estes becos escuros da vida, foi um grande desconforto pela situação constrangedora que é o término de alguma coisa, ainda mais do jeito que foi. Mais nada.

Tão estranho tanto querer bem descambar nisto. Tanto sentimento se incendiar desta forma. Dói de uma forma que não consigo entender. Dói como um fracasso, um filho que não tive e morreu no parto. Dói como pedra nos rins, tiro no braço, unha encravada. Dói pensar que as pessoas despencam no espectro tão rapidamente, que perdemos o controle por conta de coisas tão bobas. Dói porque os caminhos da cidade continuam os mesmos. Dói essa incapacidade de incinerar todas as lembranças (pensou no "Brilho eterno"? Bingo!). Dói olhar para as mãos e perceber as cicatrizes. Dói lembrar que um pouco da inocência foi perdida e nada será mais como antes.

Até que no final de toda dor chega a Luz. Etérea, pelas frestas das janelas fechadas. Invadindo cada centímetro quadrado de solidão e poeira, como a primeira brisa que sopra numa cidade do litoral. Acho que já estou assim - só que, no momento, tudo o que quero e preciso é um pouco mais de silêncio...

sábado, outubro 08, 2005

Latinidade

Queria ser dono de uma civilidade britânica. Ter na alma cravada aquela neutralidade escandinava, sem culpa. A liberdade holandesa de pensamento, onde tudo vale enquanto estamos dentro do nosso espaço sem encher o saco de ninguém.

De europeu, devo ter uns genezinhos perdidos e olhe lá.

Não quero apenas cordialidades com banalidades e adeus. Encimar o muro, "por uma sociedade mais tranquila". Preferiria ver sangue, explosões passionais, escândalos sinceros, lágrimas verdadeiras, argumentos dolorosos escorrendo pelos cortes. Gosto de luz naquilo que é polêmico. Ainda que eu perca, esteja errado. Se te odeio, porque não dizer? Se te odeio (mas ainda tenho um tesãozinho reprimido), porque não pendurar em seu pescoço e te odiar cinco minutos mais tarde? Se você foi sarcástica/irônica/mal-educada, porque não pagar na mesma moeda?

Porque essa necessidade pequeno-burguesa de perdoar os erros só porque "é edificante"?

Acho que eu até poderia (tentar) responder estas perguntas, pois ainda sou um praticante do "meio campo" social, com muito estilo diga-se de passagem.

Mas é um posicionamento insustentável. Até quando vou ser civilizado? Até quando conseguirei omitir os gritos?

quinta-feira, outubro 06, 2005

Telegráficas

Meu ego não cabe dentro desta sala. E isto só significa uma coisa: problemas, muitos problemas. Numa escala nunca vista.

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Isto é um filme surreal ou estou de plantão no primeiro de janeiro? Se for, por favor, alguém me acorde que não gostei nada disso.

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É crime dizer que até que estou gostando desta greve? Juro que é verdade. Juro mesmo.

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Amanhã me reserva o imprevisível. Potencializado por (álcool)². Socorro.

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É isso, assim: inútil mesmo.

terça-feira, outubro 04, 2005

As tempestades invisíveis

Ainda bem que não era nada. Ainda bem que passou. Digo isto no melhor estilo "pois é, as uvas estavam verdes mesmo". Mas não é hipocrisia, nem brincar de Poliana. Só que este era provavelmente o caminho mais indolor para ambas a partes: o silêncio, os desencontros, o pó e mais nada. Tudo foi só um petelequinho que me deram no pé da orelha, já passou, já passou.

Difícil foi o que caiu quando eu reabri a gaveta, aquela que jurei ter esquecido a chave. Fazer a autópsia dos sentimentos exumados. É cruel demais você ter feito o seu melhor e não ter sido sequer suficiente. Com a melhor de todas as intenções. E por mais que você mentalize que "no final era eu quem estava certo", a grande verdade é que não foi o bastante. Você foi falho.

E agora, além de falho, foi incapaz de evitar que um pouco de tudo voltasse a tona e doesse novamente.

Mas doeu, um pouco só, e já passou. Como quem rala o cotovelo e passa Merthiolate. Já tá melhor, eu juro. Assim. Espero.

domingo, outubro 02, 2005

Pescaria

A nuvem negra parece que não dá sinais de amenidades: as cólicas vão e vem, e, como se não bastasse, Jason strikes again (no melhor estilho Nina, Jô e Raq).

Lá me vou interpretar silêncios novamente. Colocar tanta coisa na balança, com tanta gente falando tanta coisa. Aguardar, igual um pescador, a movimentação concluir (ou, numa hipótese provável, se mostrar inconclusiva). A isca tá lá, na água. E eu fico aqui, com cara de paisagem, pensando pensando.

Isto porque eu odeio pescarias. Filosofo sim, mas sou um menino de ação.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Pipa

Também queria ser a Kite* distante no céu, baby. Equilibrado e preso por apenas um fio, mais nada. O vento, a brisa, seja para onde for. Not afraid to die, not afraid to live, como diria a música. Só que essa é uma postura tão insustentável. Já tentei ser pipa e pairar por cima de tudo, dos prédios, dos problemas insolúveis, dos sentimentos feridos. Não deu.

Porque viver é sinônimo de criar fios. Ainda que não se perca a natureza de pipa, a cada dia fico mais preso ao chão. Cada dia, sinto mais necessidade de ter amarras suficientemente firmes para aguentar todo o peso do papel e barbante. O céu é vasto demais, grande demais, solitário demais. Ser tão livre é assustador pois liberdade está longe de ser uma benção: é uma pesada condenação.

Talvez a beleza de tudo esteja na tal liberdade compartilhada. Que voemos, ao sabor das brisas e tufões. Mas acompanhados de outras pipas, que o vento caprichosamente as joga para perto e para longe. Assim, os fios antes solitários se entrelaçam, se amarram em diferentes pontos, criando proximidades e afinidades de todos os níveis. Com o devido vagar e parcimônia, para que um puxão súbito não derrume todas as pipas do céu. E que fiquemos assim, com o pálio aberto como promessa de possibilidades - e os pés, ligeiramente presos ao chão só para que a leveza não se torne insustentável...

* Kite (U2)

quinta-feira, setembro 29, 2005

Crime e castigo

Novamente fui julgado e condenado pela superficialidade dos meus atos. Acho que, por uns cinco segundos, fiquei muitíssimo irritado. Até perceber que, para julgar as pessoas, superficializamo-nas, para ficarem mais compreensíveis e palatáveis.

Julgamos o livro pela capa e isto é fato. Comigo não seria diferente. E vamos indo.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Murphy é pai...

Se na quinta finalmente minhas caras amígdalas resolveram dar trégua e o corpo, vencido, pôde respirar, zás: logo na sexta um caprichoso cálculo, provavelmente de um tamanho ridículo, começou a doer em algum lugar entre meus rins e minha bexiga. Ali, do lado esquerdo - gauche. E como o é um cálculo ridículo, se trata de uma dor ridícula; porém, muitíssimo irritante.

Devo estar no quinto litro de água e mijo igual um bêbado, na esperança que meus glóbulos homeopáticos e o fluxo de urina mandem esse hospedeiro para fora. Eu, por aqui, assisto passivamente as traquinagens que Murphy vai me reservando. Sem dinheiro para academia, só quando outubro vier. Deveria ter estudado qualquer coisa sobre coração, mas o Orkut falou mais alto. Descobri que posso ser odiado em mais um nível, fato que eu sinceramente duvidava. Marcam o show dos Los Hermanos exatamente no final de semana que não poderei assistir - ou poderei, se a pindaíba continuar e os Strokes forem cancelados. A conta de telefone veio astronômica. Quem tinha que me ligar, não me ligou. E como diriam os franceses: "c'est la vie".

Só mentalizar que ainda é primavera. É primavera. É primavera e eu vi um ipê em flor...

Uma Carta Aberta

Essa carta foi enviada à um Y group que faço parte por uma amiga.

"Pessoal,
Talvez o grupo não sirva para encaminhar esse tipode mensagem. No entanto, como todos vcs que tiveramcontato comigo nesses últimos dias jah devem terpercebido, me encontro, digamos assim, puta e resolvienviar. Estou puta com a situação em geral, não somente coma greve. A greve provavelmente só desencadeou umsentimento de impotência diante dos fatos e de revoltapor ver o que os nossos governantes fazem (o que, bythe way e pior ainda por isso, não é de hoje)e por nãosaber como agir diante disso. Apesar de não concordar com o mecanismo da greve eachar que só prejudica a todos e não resulta em nada(o que é muito triste e demostra mais descaso aindapor parte de todos _ governo, sociedade e o caralho aquatro) entendo os motivos dos reivindicantes e não éisso que contesto aqui. O meu objetivo com esse email é o objetivo egoístade desabafar. Sei lá, talvez pedir ajuda. Ou somentedemostar revolta. Isso porque não tenho a pretenção,ou melhor, estou pessimista o bastante para achar quenão posso, nem por meio desta , nem de jeito algum domeu conhecimento e ao meu alcance, mobilizar aspessoas e mudar uma situação que me parece imutável. Mobilizar a quem mesmo??? Mobilizar a fazer o quemesmo??? Percebem a gravidade da situação? Não sei oque fazer nem a quem recorrer.
O que sei no momento, é que não devemos abandonaro nosso país. Apesar de ter dito para alguns queentendo as pessoas que vão estudar fora pela falta derecursos nacionais, e pelo tom de abandono e revolta etalvez fatal comodismo, não acho que devamos nosrevoltar contra o país, nem desistir. Na verdade nãosei como agir, mas não desistirei de fazê-lo (aindavou desbobrir como). Temos que fazer alguma coisa (mefalem o que por favor) pelo país e não abandoná-lo aosestúpidos que se aproveitam do "sistema" (clichezão) eda falta de educação do povo para manter o podrestatus quo a seu favor.
Talvez eu tenha sido incoerente, o que eu mesmasempre critico, mas isso demostra a minha confusãomental. Talvez tenha deomstrado a minha ignorância(possivelmente ampliada pela confusão mental) e seesse for o caso ignorem a ignorância ou me ajudem aentender, melhorar, whatsoever. Talvez tenha sóparecido uma louca demostrando seu senso comum e assimtenha sido além de louca repetitiva (desculpem sealguém jah tiver escrito isso mas ainda não li osemail e precisava escrever logo). Talvez tenha deixadotransparecer meu nacionalismo infindável e, nesse casonão tenho do que me desculpar. Talvez vcs achem que eudeveria ter escrito isso em um diário, mas estoucansada de guardar isso só pra mim. Em todo caso, desculpem-me por tomar o tempo detodos com o meu desabafo. Para os que ainda tempaciência, segue o anexo. Para os que não tem, leiam-odepois, mas gostaria que lessem. Bjos,
Carolzinha"

quinta-feira, setembro 22, 2005

Como já diziam os boêmios...

"Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Presta atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés"
(O mundo é um moinho - Cartola, regravado pelo Cazuza e metade da MPB)

Escuta, vai. Escuta.

terça-feira, setembro 20, 2005

In Bloom

Minhas amígdalas travam um duelo implacável com meu corpo há três dias. Nada de grave, nada que mate. Umas febres, umas dores, umas indiposições, só. E enquanto a batalha não se resolve, fico aqui, contemplando o mundo.

Voltei para casa e estar em casa é bom. Mimado e bem tratado, enquanto observo o balé cotidiano da minha família que há muito tempo não era espectador. Numa passividade tranqüila e otimista.

Talvez amanhã eu finalmente saia de casa, se as amígdalas permitirem. Talvez um livro na biblioteca, um DVD da locadora, um filme no cinema. Solitário, mas a solidão é algo que nem de longe me incomoda. Só esperando o final de semana. Só esperando a primavera que chega amanhã. E que ela leve todo ranço dos amores que morreram no criado-mudo por falta d'água, as perdições, as incertezas, os sentimentos desperdiçados, as navalhas inconscientes.

Só esperando, distraidamente (como se deve ser), outra nesga, outro estalo para correr atrás...

sexta-feira, setembro 16, 2005

Summer breeze

E eu me pego refazendo os velhos caminhos. Os antigos profiles do Orkut. Mudo o profile tão distraidamente. Vou mastigando murmúrios de minhas conclusões solitárias, enquanto arrumo a bagunça tão lentamente que em cinco minutos depois tudo já está como antes.

A inútil paisagem se forma diariamente pela minha janela, atrás do prédio que cobre o pôr-do-sol.

E ainda vou à academia tão religiosamente que me assusto. Esqueço de pagar as contas do mês e vou deixando, deixando. De resto, tudo congelado pela greve dos professores. Todo mundo ficou no mesmo estado - até eu.

Será que isto é bom?

terça-feira, setembro 13, 2005

Impressões ribeirãopretanas

Não havia ninguém para me ajudar: todos só sabiam parte da verdade. Meus pais entregaram a decisão em minhas mãos, para que eu fizesse o melhor que fosse para mim. Ao pesar na balança, ficar e partir tinham pontos positivos tentadores e pontos negativos consideráveis. E depois de meses insones, degladiar contra matérias soporíferas, de conversas complicadas, de magoar pessoas sem ver, expectativas de tranquilidade e liberdade, decidi: ficar.

Não porque Uberlândia fosse melhor ou pior. Não porque tivesse medo da mudança, que todas as promessas de quatro anos se convertessem em realidade. Não porque eu tivesse reencontrado a magia nas pequenas coisas daqui, finalmente confrontado a verdadeira face lisa da maioria das pessoas que convivo. Decidi ficar por pura teimosia. Decidi esgotar todas as possibilidades por aqui, mesmo que só seja para ratificar todas as minhas opiniões.

De resto, Ribeirão foi muito bom. Pinguim com pizza, novas vitórias. Recuperar a moral. Daquelas noites sem dormir, mas tão boas, tão redentoras mesmo não acontecendo nada. E vamos assim, passos lentos e silenciosos, só para o coração não ser enganado novamente...

sexta-feira, setembro 09, 2005

Must like dogs

Tão estranho te ver de novo ali, querida, entre nós. Como se nada tivesse mudado, nós não estivéssemos crescendo, os adultos cobrando cada vez mais responsabilidades e eletrodomésticos, estarmos às portas da emancipação, do boa sorte e vai catar seu rumo.

Como você disse uma vez para mim, na carta mais linda que já recebi na vida, éramos os mesmos. Mas, ao mesmo tempo, estávamos tão diferentes. Percebi isto quando você me falou "e você estava tão seguro, tão confiante". Reverberou forte. Porque eu realmente estava seguro e confiante. E ainda estou, de uma forma diferente. Como se os meus passos fossem firmes e fortes. Como se, ao deparar com um desvio, não fosse tão difícil alterar a rota e tentar o retorno para o caminho inicial. Naquele sentimento de: e se der errado, é só começar de novo.

Lembra quando tudo parecia tão difícil? Os blogs tinham fundo preto e ficavam lamentando por uma vida que poderia ter sido. Tão Bandeira, tão tísicos. Achava toda aquela nossa melancolia tão bonita e romântica, aquela que aprendeste com a madrugada e eu fui apreendendo com o tempo. Nós éramos tão lindos e ninguém percebeu, essa é a verdade. E mudamos. E, apesar de toda beleza, prefiro acreditar que continuamos lindos porém diferentes, tão mais isto tudo que estamos virando, estamos crescendo (sim, no gerúndio mesmo, e daí?), estamos caminhando para um dia... puff! Vai saber.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Before sunsire

"Sabe qual é a pior coisa de alguém terminar com você? É quando você se lembra o pouco que pensou nas pessoas com quem você terminou, e percebe que é assim que elas estão pensando em você. Você sabe, você gostaria de imaginar que ambos compartilham todo esse sofrimento, quando na verdade estão só pensando algo como 'hey, ainda bem que você foi embora' "
(Antes do Amanhecer)

Quase aluguei Antes do Amanhecer novamente só por causa desta cena (não aluguei pois estou em falência decretada). Talvez, ao ver essa cena, curtir os últimos segundos de melancolia e finalmente enterrar esta história. Para quem não conhece, Antes do Amanhecer é uma tese de doutorado sobre relacionamentos. Tão real e vivo, tão a nossa cara, de pessoas comuns cheias de sonhos, verdades pré-fabricadas, boas intenções e uma vida inteira pela frente.

E depois de tudo, querem saber? Estou bem. Não a 100%, mas bem. Mais rapidamente que eu esperava - como num estalo, fui esquecendo aquele tom de voz. Do segredo das suas piadas. De como seus cabelos encacheavam na ponta dos meus dedos. Das manchas borradas na sua íris. Seus tiques, seus desejos. Daquele olhar atravessado, um cruzar de mãos debaixo da mesa, das almas perdidas que se encontraram no meio da madrugada. Com a sucessão dos dias, dessa semana, as lembranças foram perdendo as cores - algumas principais, ficam marcadas como cicatrizes. A maioria, no entanto, vão para o limbo, escorregam pelas frestas do inconsciente com destino desconhecido...

Mas o que marcou, não há jeito de deletar. Não posso pedir às rádios para nunca mais tocarem nossas músicas, as grandes emissoras trocarem as programações, nem às multinacionais para retirarem do mercado alguns perfumes. Não vou pedir para ninguém retirar a Lua no céu. Este resto, só o tempo. Mas vai ser tranquilo. Pois já sei que viver é um eterno exercício de superação.

"How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd..."
(do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, que com crise ou sem crise, assistirei novamente)

sexta-feira, setembro 02, 2005

Vento no litoral

Não esperava voltar para Guanxuma tão cedo. Deixara a casa tão bem trancada que foi difícil entrar por ali novamente. Guanxuma me esperava só no verão. Voltaria feliz e ensolarado, com o violão nas costas, para contar estrelas enquanto a maré não subia. Mas não deu. Não deu.

Deixei as malas à porta de casa e fui caminhar contra o mar, seguindo o indo e vindo das ondas. Praia deserta, completamente deserta. Mas é mais ou menos esta a inteção: para que eu possa curtir novamente as coisas pequenas. Admirar toda a beleza das areias cinzentas de Guanxuma, da água salobra e marrom, das raras conchas que vêm morrer sem destino por entre os meus dedos. O dia esta nublado, a brisa está fria e caminho até as pedras, quero chegar às pedras, subir nas pedras, só para ver o mar dali de cima, os barcos que lutam lá longe contra as ondas do mar.

Penso em pular nessa água ártica, álgida. Só para sentir um pouco mais vivo. Novamente. E nadar, nadar, nadar, até cansar e perder os sentidos. Arrastar-me até a areia, tão frágil e abandonado, salgado até o último fio de cabelo. E satisfeito. Muito satisfeito. E dormir por lá mesmo, na areia, enquanto a Lua não chega.

E sonhar que estou caçando cavalos marinhos, enquanto o vento vai levando tudo embora...

quarta-feira, agosto 31, 2005

Fight test

"I thought I was smart
I thought I was right
I thought it better not to fight
I thought there was a virtue in always being cool"
(Fight Test - The Flaming Lips*)

Feriado. Tédio. Muitas coisas para fazer, pouco ânimo para. Três noites mal dormidas. Novas certezas, antigos medos, velhas batalhas. Falência financeira iminente. Conclusões, conclusões:
ser sempre bom está longe de ser uma virtude - eu só não sei outro jeito de ser.

E a vida continua, vai continuando, por incrível que pareça. Agora, tenho net rápida no meu apartamento. Tive a certeza que as pessoas que realmente gostam de mim e se importam com essa coisa que chamo de minha vida é num número superior que o esperado. E sou infinitamente capaz de resistir.

* também estou com saudades tuas, amigo. Bom te ter por aqui de volta

terça-feira, agosto 30, 2005

Saudade ( ou só ra não dizer que eu falei adeus)

Fazia muito, muito tempo que eu não escrevia alguma coisa para o blog, de modo que eu estava com medo de nem lembrar mais a senha do blogger, mas, como minha cabeça ainda não entrou em parafuso e como, mesmo contrariando algumas espectativas eu estou vivo, estou aqui para escrever um oi.

Digo oi por que faz tanto tempo que eu não escrevo que o blog está sendo uma atividade totalmemte nova pra mim que nesse período estive afastado daqui or conta de milhares de compromissos academicos assim como um bom tempo envolvido com o terceiro setor.

Infelizmente assim como eu tratei esse blog, isso é, deixando ele meio empoeirado, creio que assim fiz também com algumas amizades e que por mais que possa parecer o contrário, eu as estimo de maneria fora do comum...

Acho que mesmo depois de ter lido o " Pequeno Príncipe" três vezes eu fiu incapaz de aprender o significado da palavra cativar, e isso doí, muito, especialmente pra mim que me vejo como uma pessoa distante, quase fria, enquanto na verdade eu só não consigo demonstrar...

Gostaria de verdade que todos me perdoassem por ser esse amiguinho( companheiro) relapso, de ser essa criança incapaz de conciliar brincadeiras com todos os amigos ...

enfim...

sábado, agosto 27, 2005

Perfect strangers down the line

"We promised that we'd be
Perfect"

(Perfect - Smasinhg Pumpkins)

Um grande amigo meu uma vez me disse que talvez estejamos conhecendo as pessoas certas nos momentos errados. Talvez, se eu estivesse formado. Noutra cidade. Noutra sintonia. Noutra estação. Talvez ele esteja certo, o que não vem ao caso.

O que vem ao caso é que desta vez eu tentei. Não queria e até resisti inicialmente. Mas não deu. Certas coisas não se escolhem. Lá me vi novamente, naquela montanha-russa de sentimentos, aquela tortura e glória. Desta vez reloaded, sabendo até onde gostaria de pisar, por qual caminho seguir. Colhendo pequenas epifanias, como maçãs que caem duma árvore carregada. E foi tão bom. Sentir que não se é tão único assim, que caminhar junto é bom e redentor, essa coisa tão besta de completar as frases alheias, juntar músicas e cds, perceber todos os detalhes da íris, as variações de voz, os comportamentos freudianos.

Mas não se pode fugir da própria natureza. Talvez eu quisesse demais - desta vez, no entanto, soube aprender aquela difícil lição que o Pequeno Príncipe me ensinou: "não espere que uma pedra voe". Sacrifiquei parte dos meus princípios para não esperar aquilo que não me prometeram. Só que não deu.

Em certo ponto, esperava reciprocidade. Não sei explicar, assim estoicamente, o que eu esperava. Mas um feedback, que eu estava indo pelo caminho certo (ou pelo errado, para eu ter chance de me corrigir). Não sou bom em decifrar silêncios, como eu disse. Ficar do meu próprio lado, sem calor ou uma mão esperançosa, é insuportável. Sim, a minha matéria de salvação é quem está do lado de lá, é cada pessoa que me ajude a me encontrar, a me resolver, a botar um pouco de sentido na minha vida.

E quando eu estava deveras perdido e gritava por ajuda, disseram-me: se não houver reciprocidade, que mal tem? Você é lindo e encantador. Você só tem 20 anos. Você não precisa tentar abraçar o mundo. Você tem pernas fortes e se sustenta. Você é brilhante e tem um longo caminho pela frente. Só que eu, surdo e frágil, não entendi. Não quis entender. Como continuo não entendendo.

Porque não queria tudo isso. Só queria que desse certo, desta vez. Que aguardassem o tempo necessário para colocar as coisas no lugar, organizar essa bagunça toda que chamo de MINHA vida. Que também cedessem eventualmente e me dessem a impressão de movimento, um pouco de segurança para eu mesmo continuar me movimentando. Com o tempo, as coisas caminhariam para uma sintonia. Tenho certeza. Tinha certeza.

Hoje, não sei. Lá fora está nublado e não consigo ver estrela alguma. Estou na quinta lata de cerveja, sem saber o porquê de eu estar bebendo tanto, sozinho, na frente deste computador, escutando Perfect no modo repeat há uma hora. Pensando em todas as coisas, como diria Bandeira, que poderiam ter sido e não serão. Mas saio desta sem culpa, com a sensação de dever cumprido. Mais forte, ainda esperançoso. Porque deixei sangrar, depurar. Porque acreditei naquela teoria que somos infinitamente capazes de cicatrizar. Porque tentei, tentei, tentei. And the band plays on, no final das contas. Como disse, com a sensação de dever cumprido.

Ou melhor, quase. Quem sabe eu poderia iluminar alguns pontos cegos, ajudar a compreender certos movimentos inconscientes de auto-defesa. Ajudar a ir fundo na ferida, longe de todo Carnaval que se forma habitualmente na rotina. Só que deixa para lá. Não é nada que não surja daqui há algum tempo, em qualquer terça-feira chuvosa, com o mundo pesando todo nas costas. Quando se descobrir o peso torturante do silêncio e que a liberdade não é uma benção; é uma pesada condenação. Que dois é um número perigoso - mas pelo menos mais seguro que um.

Quanto a mim, fico do jeito que sempre fui. Otimista, por incrível que pareça. De volta ao Vinícius, às intempéries de quem decide viver. E quem sabe ali, num futuro entre o próximo e o distante, os caminhos não se cruzem novamente? Todas estas palavras não tenham sido em vão? Estranho seria se eu não tivesse me apaixonado por você, dizia aquele outro velho poeta que aprendi a gostar tanto. Mas, na atual conjuntura, hoje não; nem amanhã.

Já sanguei demais, até a penúltima gota. A última, deixo para mim. Só porque quero continuar e ver até onde esta zona chamada destino vai me levar. Depois dos copos de café (21/03/05 - só consultar os arquivos), cheguei aqui. E existe todo um mundo ensolarado lá fora. Não queria, não queria mesmo, que as coisas caminhassem assim. Mas já que caminharam, enfim. É ajeitar a vida de novo: e quem sabe, não pular de bungee-jump novamente?

But please, you know you're just like me
Next time I promise we'll be
Perfect
Perfect strangers down the line

quinta-feira, agosto 25, 2005

Caminho

Um caminho. É isso o que eu quero. Queria que o céu se abrisse e me dessem um caminho - não precisa nem ser um dos melhores, um mais ou menos fácil - tô aceitando qualquer um. Estou cansado desse limbo no futuro próximo, tantas dúvidas: andar de bicicleta ou tomar sorvete? Infecto ou Cardio? Ir ou ficar? Insistir ou desistir?

Só de pensar que não tenho a menor idéia de onde estarei nos próximos dois, três anos...

Entenda: não que eu esteja cansado de caminhar com as próprias pernas, escolher os próprios rumos. Mas esse processo está desgastante. Queria, sei lá, que as coisas se resolvessem um pouco mais passivamente, uma luz pelo menos delineando o destino.

Esse negócio de ser adulto é um saco.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Sempre por um fio

O duro é não saber se o que nos prende é uma corda ou um fio de cabelo.

domingo, agosto 21, 2005

Desalento

Uma distração quase me custa a vaga da transferência da USP. Mas me custou 15 horas de ônibus, quase mil quilômetros rodados e cem reais de passagem em pouco mais de 48 horas.

O importante que deu tudo certo. Ou melhor, quase. A documentação foi toda entregue, etc, etc, etc. Mas existe uma prova, a última prova - mais extensa, mais difícil, menos tempo para dedicar. Pressão por todos os lados. Incerteza se "é mesmo o que eu quero fazer".

Só sei que essa série de pequenas dificuldades (somadas a outras de nível pessoal) acabaram me desanimando. Ainda estou atordoado com o grande volume de informações dos últimos três ou quatro dias. Meio carente, meio desacostumado com a rotina. Por isso me dei férias nesse final de semana - apesar da enorme lista de coisas da faculdade para fazer - e ficou tudo bem.

Até terminei de ler o novo Harry Potter. Vou ao teatro, coisa que eu não faço há séculos. Pretendendo sacudir as estruturas num futuro bem imediato.

E amanhã, segunda, só resta estudar. O último fôlego. O sprint final. E vamos ver no que isso vai dar...

sábado, agosto 20, 2005

Pela primeira vez tentei te esquecer.

Talvez por isso ontem bebi, também fumei. Sim, eu precisava fugir para longe, deixar de sentir as pontas dos dedos, só para ver se essa coisa toda pára de latejar, e de doer, e de sentir.

Mas não adiantou. Nunca adianta.

Eu estava tão patético e solitário, pela madrugada, na completa escuridão, com aquela brasa incandecente na mão. Tocava Radiohead e eu balbuciava algo parecido com "bulletproof, I wish I was". Queria sair ileso disso tudo. Sei lá, como se num estalar de dedos tudo pudesse voltar a ser o que era. Sem expectativas nem esperanças, naquela vida tão morna, morta, idiota, que eu estava chafurdado.

Mas é impossível. Tão impossível, eu sei.

E depois veio Vinícius, com todas aquelas verdades dolorosas. É uma agonia. Deixa sangrar. Sofrer junto. Mais um adeus. Cuidado com o seu resfriado...

... e eu só queria esquecer, esquecer, esquecer...

terça-feira, agosto 16, 2005

Roubado de um mail 2

Sabe, eu mudei. Mudei demais. Mas no fundo, lá no fundo, eu continuo com as mesmos defeitos, as mesmas tatuagens. Hoje eu tenho corte de cabelo moderninho, sei combinar roupas, consigo interagir minimamente com as pessoas, sou expansivo e até um pouco divertido, aprendi a beber e fumar, tenho auto-estima e um caminho traçado, um futuro delineado, com metas e objetivos claros e muitas pessoas leais para me apoiar, torcer por mim. Só que eu não consigo deixar de ser aquele menino Creep que eu era há uns seis, sete anos atrás. Isolado atrás de uma pilha de livros, que assistia Arquivo X todo domingo e desconhecia o que era o mundo por trás das janelas. Que comprava o lanche na cantina e ia para a biblioteca ler a Folha, todo dia, por falta de coisa melhor para se fazer. Que chorava sem saber o porquê. Que sobrevivia a base de "Fake Plastic Trees" e "Creep". Eu achei, sinceramente, que eu já havia matado este Gabriel. Achei que já havia superado toda a culpa por pecados contra os outros que cometi, achei que já tinha tanta força nos próprios punhos que poderia socar o que surgisse na minha frente. Achei que os dias de peso excessivo já haviam acabado e nunca mais me encontraria numa situação de desespero automático e sem motivo.

Mas a gente nunca deixa de ser completamente aquilo que já fomos um dia. E fui aprender, com o horóscopo (grandes contribuições de Caio Fernando Abreu,um autor ótimo), uma verdade. (Obs: Não que eu acredite piamente em horóscopo, mas é que fez sentido e eu achei que foi uma espécie de epifania). Sou Peixes, com ascendente em Virgem, com todas as implicações práticas disto: de Peixes, a insegurança; de Virgem, o perfeccionismo. Tudo,para mim, tem que estar sob meu controle, dentro do meu planejamento. E quando isto não acontece (e sempre acontece, pois a maioria das coisas caprichosamente escapam por entre os dedos), fico deste jeito que você conheceu: tão perdido, tão carente, tão achando que o mundo vai cair nas costas, tão confuso, tão míope, tão desesperado. Tenho uma necessidade de segurança, que me batam no ombro e me digam que está tudo bem - se isto não acontece, é porque algo está indo errado. Sou um péssimo intérprete de silêncios. E para mim, um perfeccionista, admitir que não tem o controle emcoisas cruciais, é um pecado digno de morte.

E porque passei tanto tempo sozinho, tenho muito medo de perder as pessoas. Principalmente aquelas pelas quais senti grande afinidade, que eu coloquei para o lado de dentro do círculo. Como não tenho religião, minha grande busca se foca nas pessoas. E você sabe que as pessoas são tão, mas tão difíceis. E me rebaixo, como não deveria. E me subestimo, como não deveria: raciocino como o velho Gabriel, pensando que sou tão desinteressante e sem graça, tão pálido e sem brilho, tão torto, tão incapaz e tão fora do mundo -trancado no próprio quarto, de onde nunca deveria ter saído...

quinta-feira, agosto 11, 2005

Shortcuts

* Quando os parafusos saem (pela enésima vez) do lugar, voltar às origens. Belle and Sebastian na veia, até o tempo melhorar.

* Tá na hora de interpretar menos os silêncios e ficar mais atento aos acasos que se repetem, assim, quando menos se espera.

* Quero um All-Star vermelho para atravessar a ruas pela madrugada, solitariamente...

terça-feira, agosto 09, 2005

Bingo!

"Você parece que tem muito medo de perder as pessoas, mas aquele medo de achar que um passo em falso é tudo culpa sua, sendo que todo mundo dá uns ou outros"

Pois é, querida. Ainda não eliminei todo o perfeccionismo. Mas juro que estou tentando.

sábado, agosto 06, 2005

Melhor e suficiente

Há muito tempo, eu tinha a preocupação obsessiva em ser o melhor. De mim, inconscientemente cobrava que fosse o primeiro da sala, o melhor amigo, o melhor namorado, o melhor filho. E, como sempre tive uma relação interessante de crime e castigo comigo mesmo, quando não conseguia, desabava.

Era como se eu estivesse em uma eterna competição com o mundo. Deveria sempre correr, manter-me à frente, custe o que custasse.

Até que eu entrei na faculdade e percebi que as coisas não funcionam exatamente desta forma. Foi aí que me dei conta que ninguém lá se importa muito com o que fazemos. E as pessoas que se importam, é de uma forma positiva - é para estar ali, dando apoio, segurando a mão em momentos de dificuldade e tomando uma cerveja para comemorar a vitória.

Resumindo, na passagem mais genial de Sunscreen: "The race is long and, in the end, it's only with yourself".

Percebi isso sem perceber, uma daquelas pequenas epifanias cotidianas que, de tão pequenas, mal notamos. Daí minha postura com o mundo mudou: comecei a querer andar mais devagar, apreciar mais a vista, contar as formigas e os ladrilhos da piscina.

Hoje, tento fazer o suficiente. Não que eu tenha me acomodado com a mediocridade do meio termo: mas a minha meta inicial (e principal) é atingir a suficiência. Estou me organizando de forma que meus passos não sejam lesivos, corrosivos ou pesados demais. Finalmente caiu a ficha que fazer o suficiente é o meu melhor. E se eu não consegui ser o melhor, fico tranquilo, pois sei que tentei fazer o suficiente.

terça-feira, agosto 02, 2005

Ah, eu estava meio doente e, por isso, acho que meio cético com o mundo. Passara o dia inteiro dentro de casa, com as narinas ardendo por conta de uma "infecção de vias aéreas superiores" qualquer. Talvez Mononucleose. Talvez.

Entrei no Champagnat com a velha Elba de guerra. Aquele Colégio é um dos lugares que é mais carregado de lembranças para mim. É um colégio antigo, vagamente lembrando aquele da Hilda Furacão. Completamente arborizado, uns bancos muito simpáticos, a melhor biblioteca da cidade. Foi ali que fiz o Pré, que já não existe mais. Minha antiga sala de aula, onde aprendi que os feijões também nascem em copos de café, virara qualquer coisa administrativa da prefeitura. Enfim. Mas os coqueiros que eu trepei, a enorme quadra que eu corri, e tropecei, e brinquei, e tive as primeiras frustrações da minha vida, continuavam todos ali. Sorri.

E depois tiveram outras lembranças. A biblioteca, como conheci e construi meu mundo: Robin Cook e a Medicina, Fernando Sabino e as primeiras revelações, Clarice Lispector e Cecília Meirelles, meu inventário de alma. Os livros do Projeto Nestlé. Os concursos, pregados no quadro. Aquela vitória e meus quinze minutos de fama.

Mas ontem, porque eu estava anormalmente cético, só lembrei dos ladrilhos. Pretos e brancos. Daquele dia, que chovia uma garoa fina suficiente para molhar a alma e insuficiente para abrir guarda chuva. Estávamos sentados num banco, naqueles bancos atemporais que desde a época dos frades deveriam estar por ali. Conversávamos coisas miúdas. Estávamos ali, como dois fugitivos, traçando planos. Não me perguntem quais, eles foram engolfados por tantas outras leituras, outras vivências, outras pessoas. Mas havia tanta esperança naquele banco, daquelas sinceras e pungentes, daquelas que são redentoras só por estarem acontecendo. E a sensação que a vida finalmente iria dar certo, sei lá, engatar a terceira marcha e sair finalmente cantando pneu, estourando de tanta felicidade reprimida e acumulada, como num grito de Carnaval.

Mas nada disso aconteceu. Com a mesma facilidade que foi construído, desabou. E nem aconteceu algo cataclísmico, Marte não ficou oposto ao Sol e nem eu cometi algum pecado capital. Assim, acabou. Vai passear amigo, eu te trai porque você não era o suficiente. Porque você morava longe, não tinha carro nem carta, nem era suficientemente encantador.

E a vida, como tinha que ser, continuou. E vai continuando, muito bem, obrigado.

quarta-feira, julho 27, 2005

Roubado de um mail

O arrependimento é inato da nossa natureza, ainda mais da nossa, dos que pensam demais, dos que ficam escarafunchando todas as decisões e medindo todos os passos. Quando escolhermos o caminho A, já fizemos o esboço de todos os outros e temos uma vaga noção do que nos aguardaria em cada um. E raramente podemos retroceder ao ponto inicial e tentar o caminho B, ou o C. Acho que o mais importante é sermos AGENTES dos nossos atos. Que nossas escolhas sejam ativas e não guiadas unicamente pela inércia do destino. Para, nos momentos de arrependimento, ter a capacidade de gritar "o que fiz de mim!" que um "o que fizeram de mim!". Quem vive sem se arrepender está enterrado no próprio cotidiano, porque se arrepender é uma condição daqueles que sempre ambicionam algo maior e estão se movimentando.

segunda-feira, julho 25, 2005

Back to start

"Você alguma vez na vida já ficou com medo de que tudo vai dar errado, a menos que você faça alguma coisa?"
(O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger)

sexta-feira, julho 22, 2005

Anatomia do início de férias

Os dias, por aqui, tem sido muito tranquilos. Beirando o tédio, mas aquele tédio gostoso e produtivo. Durante o dia, sofro com todas as tentações que o Orkut e o MSN provocam em mim (e meu juízo e essa porcaria de conexão discada me impedem de consumá-las com a frequência que gostaria de). Mas resisto, impavidamente, e chego a até me orgulhar disso. Tenho estudado, não o bastante, talvez o necessário: e dou risadas involuntárias de "uma menina com Síndrome de Turner e daltônica". Quando canso (e isso não é raro), deito no puff laranja que herdei e levarei para meu apartamento, uma manta colorida e fico zapeando canais, sem propósito nem fixando muito a atenção em algo específico.

Tenho planos e assim que a coragem vier, vou lá na locadora pegar filmes antigos, já que o videocassete daqui finalmente foi consertado. Pensei em Ingrid Bergman, algum latino, outro despretencioso. E também tomar sorvete sentado no banco da praça e visitar todas as pessoas queridas que passo, por causa desse atropelo que é a vida, sem ver por meses e meses.

O anoitecer é terrível e custa a passar. Depois que acaba a novela da seis (que tenho assistido com muito gosto), um vácuo se abre e fico assim, zanzando pela casa, sem muito o que fazer. Ou durmo. Ou fico na cozinha, conversando com os meus pais. Enfim. Não importa.

E as noites, quando caem, estão deliciosas. Álgidas e sombrias, como todo bom inverno deveria ser. A cidade está coberta por uma neblina espessa, daquelas que se custa a enxergar um palmo à frente. Frio, bem frio, de doer na ponta do nariz e desejar um fondue, um copo de conhaque, um edredon em boa companhia.

Saio todas as noites. Seja para cinema, forró, conversa descompromissada, happy hour no apê alheio. Tenho bebido, até mais que eu deveria. Mas é bom. É bom aquele entorpecimento rodeado por pessoas queridas, é bom engatar aqueles papos desimportantes com a única intenção de passar o tempo. E, por causa de Vinícius, sempre fico comovido como um pobre diabo, ali beirando a meia-noite. Cantarolo "Onde anda você" ("Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser/ Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você..."), com o peito apertado de saudade.

Sim, Saudade. Maiúscula. Difícil de lidar. Principalmente quando estou sozinho em casa, imerso em silêncio. Ou ao voltar para casa, dirigindo meu carro sem som. Ou quando assaltado pela lembrança daquelas milhares de coisas pequenas, que só eu ou você sabemos. Dói. E fico feliz por estar doendo, por estar sentindo, por estar voltando. Fico assim, contando os segundos no relógio, na espera por um toque de celular perdido pelo dia.

E ainda tem outras milhares de coisas que eu gostaria de contar. Essas miudezas do cotidiano em casa. Mas não quero fazer deste post um livro...

quinta-feira, julho 21, 2005

Anotações durante um forró

Não me perguntem: esse é o tipo de pensamento que chega sem aviso e sem se perceber, ali pelo décimo terceiro ou décimo quarto copo de cerveja, como a brisa gelada do inverno francano caprichosamente vencendo as paredes e toldos. Com o cérebro encharcado de álcool, você não se apega a pequenas racionalidades, essas preocupações mesquinhas habituais que tanto ocupam nosso pobre tempo numa terça ou quarta feira.

Talvez, se os bons ventos soprarem à favor, minha vida finalmente possa se explodir num Carnaval. Talvez, no mais simples esforço de manter o atual status quo, as melhores epifanias dos últimos vinte anos aconteçam. Talvez, se eu tirar todo o amargor decorrente de incompreensões sucessivas, perceba que a maioria das pessoas ainda continuam ali, lindas e brilhantes na essência.

Talvez, eu só queira voar*. E eu não sei para qual lado o vento vai soprar**...

(* Live Forever - Oasis // ** Kite - U2)

terça-feira, julho 19, 2005

Acabou...

Acabou. Depois de seis semanas de contagem regressiva, muita paciência para suportar tanta expectativa e saudade, cento e sessenta e seis pessoas se interpondo ao meu objetivo prioritário do mês, cinco rodoviárias diferentes em três dias, acabou. Estas férias iniciam já com o gosto iminente de término e morte - três semanas apenas para visitar todos que gosto, curtir o silêncio e o tédio habitual de casa, continuar nas grandes descobertas sobre as pequenas coisas, estudar até morrer para ser apenas o melhor em semana e meia, a formatura do meu quase-irmão, organizar oficinas e, principalmente, descansar porque o pior vem à cavalo no semestre que vem. O tempo é escasso e o tempo urge - mas creio e tenho toda a fé do mundo em um final feliz.

Tenho conseguido focar naquilo que me movimenta, como falei em posts anteriores. A maior prova disso é que consegui vencer toda a minha insegurança e a tendência ao desespero irracional quando as situações fogem do meu controle. Tenho me fiado na reciprocidade, nas palavras ternas e em sorrisos doces - que tem sido um potente combustível em tudo isto que estou vivendo - seja em Dermatologia, na prova de transferência ou em ser um pouco mais sincero com o mundo.

E tergiversando, talvez ainda até sobre tempo para um filme ou dois. E faz um frio tão convidativo por aqui...

segunda-feira, julho 11, 2005

... talvez, escamotear em cada centímetro quadrado de epiderme, para encontrar aquela cicatriz desconhecida no queixo. Até perceber que as linhas de tensão da pele convergem até o ângulo da boca e a íris é repleta de pequenas manchas escuras, mergulhadas num oceano acastanhado ...

sexta-feira, julho 08, 2005

Retorno

Mudei. Mudei mesmo. Em coisas pequenas, essenciais.

Principalmente na forma que eu me relacionava com os outros. Com o mundo. Resolvi levantar todas as defesas que eu pude para colocar ordem no barraco. Resolvi deixar de relevar muitas coisas que me irritavam.

Acabei me desvinculando da maioria das coisas que me prendiam por aqui. Esperando pouco, quase nada, das pessoas que me cercavam. Fui ocupando os espaços agora vagos com outras coisas, outros sentimentos, outros programas. Um lento processo de recuperação.

E agora eu fiquei bem. Estou bem. Suficientemente capacitado a ocupar alguns velhos espaços. Com um sentimento urgente de recuperar um pouco do que deixei para trás, depois que tantas pessoas queridas vieram comentar desse meu aparente sumiço.

Não sei se foi a coisa certa, mas foi bom para mim. 2005 caminha rápido e indolor. Taquicárdico e ligeiramente feliz. Instável - mas daquela instabilidade boa, com aquelas preocupações boas e boas perspectivas.

Digam a todos que estou voltando. Para Franca, de férias, em breve. Em Uberlândia, para mais ou menos da forma que eu sempre fui...

segunda-feira, julho 04, 2005

Segunda-feira, 07:35

Perdi a primeira aula do dia por dois minutos e agora estou aqui, à toa porque tudo o que eu preciso fazer funciona só depois das oito da manhã.

Não fazia idéia da capacidade que as coisas tinham de se acumular só porque você se distraiu um pouquinho nas últimas duas semanas. Pois é, elas se acumularam. E, como melhor alternativa, estou rezando para a Providência Divina botar a mão e me guiar, para que entre mortos e feridos todos se saiam bem.

Mas disso tudo (final de semana e dente de siso), ficou a conclusão que uma nova mudança é necessária. Que eu definitivamente preciso andar mais devagar no próximo semestre. Deixar de fazer 682 coisas ao mesmo tempo. Questão de qualidadidivida. Promessa de campanha

sexta-feira, julho 01, 2005

Siso

No início, até fiquei meio culpado por odiar tanto alguma coisa que ainda nem tinha nascido. Mas era um siso, enorme e intratável. O esquerdo, o inferior - e por isso suspeito que ele deva ter resolvido se vingar de forma tão sublime. Foi hora e meia de trabalho árduo e suor. Tecnicismos incompreensíveis: mas a única coisa que eu sabia era que ele estava ali, engarranchando na mandíbula, custando para deixar o lugar inicial. Gauche, o coitado. Mas enfim.

Pensei em milhares de coisas enquanto a anestesia fazia efeito e eu sangrava bicas. Nos amores que tive. Na taxa SELIC. Nos opióides (como eu quereria opióides ao invés da simplicidade das drogas antiinflamatórias não-esteroidais). Em pequenos planos românticos, pequenas viagens. No futuro. Nas provas de Dermatologia. E quando eu já estava exausto de permanecer imóvel, minhas articulações da mandíbula já nem se davam ao trabalho de doer, ele saiu. Aos pedaços, o estraga-prazer - nem para sair inteiro, para trazê-lo como um troféu de sofrimento como as mães exibem os filhos. Como resultado direto, um buraco enorme da na boca e um atestado de três dias do professor, porque, segundo ele, abre aspas "ele vai ficar bastante incomodado nos próximos dias".

E como eu realmente precisava dessas pequenas férias tortas - um atestado de três dias, começando numa quarta-feira, recebi-as de muito bom grado. Entreguei-me a uma rotina ártica de gelos e sorvete (os quais, já acabei com quatro litros), gelatina e alimentos pastosos que muito me lembram as aulas de Puericultura. E ficar em casa, e levar a vida realmente devagar. Consegui ver Sessão da Tarde e a novela das seis, o jogo do Brasil e do São Paulo sem culpa por acordar cedo no dia seguinte. E receber atenção carinhosa e despretenciosa e ficar um pouco magoado por esperar que algumas pessoas viessem para ficar ali um pouquinho, segurar a sua mão, falar que iria terminar tudo bem. Mas enfim. C'est la vie.

Hoje, day three, voltei à Franca. Escrevo com uma toalha enrolada em volta da cabeça com gelo, escutando Oasis, curtindo o amor de mãe e atenção de pai. Voltei no ônibus, tomando sorvete e observando aquela noite linda que só o inverno consegue mostrar. Ainda continuo sangrando um pouco (e esse gosto de sangue na boca fica açulando as idéias), continuo doendo um pouco, mas nada que seja o final do mundo e supere o prazer desse descanso, torto, gauche como o meu dente. Nunca que iria ler Caio F. tão sem culpa, em plena sexta de manhã, com tanta coisa da faculdade a bater a porta e cobrar uma atitude.

Quem se importa? Vou lá, ligar para os meus bons amigos, tomar mais um gole de sorvete, planejar a noite. Apesar do inchaço residual e dos pedidos insistentes de minha mãe para eu ficar de resguardo. Até mais.

terça-feira, junho 28, 2005

A mesma praça, o mesmo banco...

Pois é. Os bancos da praça mudaram, os da Cultura também. Mas a gente continua os mesmos: as mesmas preocupações, inseguranças, desejos. Meio assim, perdidos na vida. Estava pensando nisso quando visitei a Cultura, na semana retrasada, enquanto os pobres alunos sofriam com o FCE. É engraçado que faz tanto tempo e parece que foi há tão pouco...

A gente vai levando a vida, como pode, aos trancos e barrancos. Mas vai levando. E mesmo sem aquela convivência diária (ou mensal, nessa altura do campeonato), curioso como ainda mantemos a sintonia. Como, quando nos encontramos, parece que tudo está no mesmo lugar, que nem há poeira cobrindo a sala que ficou por um tempo fechada. "We never change", disse o Chris Martin. E é verdade.

De tudo, espero que as coisas nunca mudem. E sei que não vão mudar. A você, ofereço minha amizade incondicional que tantas vezes já foi posta à prova. E que continuemos assim.

Feliz aniversário, Leo.

segunda-feira, junho 27, 2005

Desastre acadêmico

Talvez a vida pudesse ser muito mais feliz e interessante se eu não tivesse oito pendências extrracurriculares, daquelas que te tomam muito tempo, além das milhares de coisas da faculdade que você vem negligenciando nos últimos meses.

Lógico que isso ficou claro nos resultados das últimas avaliações, afinal, 60% é a mesma coisa que 100%. Quando Dermatologia sair, provavelmente esses 60% vão parar ali nos 50% para menos.

Meus últimos dois dentes de siso vão embora na quarta-feira. Sem suporte e paparicação materna until Friday.

É reconfortante lembrar que todos os meus amigos entram de férias até nesta semana. E eu continuo na lida escrava por mais duas.

E a última semana vai bombar: seis provas. Algumas realmente precisando de dedicação. Mas quem disse...

... minha cabeça gira a trezentos quilômetros de distância. E eu não consigo deixar de ficar feliz. E eu não consigo parar de contar os segundos para as tão merecidas férias...

segunda-feira, junho 20, 2005

Conhaque

"Estranho é gostar tanto do seu All Star azul"

Talvez fosse aquela Lua, aquele conhaque, o contexto daquele fondue e uma vida toda me esperando, expectante. Perspectivas reais e concretas. Quem me visse, não perceberia. Acho que nem eu percebi aquele momento de puro Drummond. Só sei que fiquei comovido como um diabo.

E nem senti. Dilui o conhaque na Coca-cola, para ir perdendo os sentidos sem sentir. Para o mundo real, de certa forma, fundir com todas as coisas que eu tinha na minha cabeça. Ficar mastigando aquele gosto bom de chocolate, coca-cola e conhaque na boca, enquanto a minha própria cabeça dava voltas e voltas.

Bebi o suficiente para postergar os efeitos para o dia seguinte. Acordei bem, com aquela sensação melancólica e convidativa do conhaque no sangue. E fui cuidar da minha vida. E fui escutar Nando Reis enquanto esperava a inspiração vir.

E parei. "All Star". E chorei, daquele jeito dos filmes que nunca havia acontecido comigo. Primeiro, os olhos marejaram ser perceber - depois, desceu lentamente, quente e salgado, pelas bochechas até sobrar na margem do queixo.

Mas foi bom. Do tipo de comoção boa, para dar nome naquilo que permanecia nebuloso, obscuro.

Uma pequena epifania.

E continuamos...

"Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras,
Satisfeito, sorri"
(All star - Nando Reis)

terça-feira, junho 14, 2005

Por assumir uma tarefa hercúlea

Uma das poucas coisas prestáveis que um professor peruano meu, com um sotaque portunhol terrível, falou foi: "Deus me livre das águas calmas, pois das bravas me livro eu!". Depois de pensar a beça, refletir sobre a existência e minhas capacidades, decidi mergulhar de cabeça em uma missão impossível.

Não que ela seja impossível - somente muito difícil. Mas tenho todas as armas possíveis em minhas mãos e o apoio (e torcida) de todas as pessoas queridas que me cercam. Estou suficientemente motivado para sacrificar tudo aquilo que não for essencial (e algumas outras essencialidades que não vem ao caso) para realocar tempo e esforço.

Talvez porque eu goste demais de insistir naquilo que parece perdido. Talvez porque eu seja bem teimoso. Talvez porque eu seja osso duro de roer mesmo.

Como diriam os romanos: Alea jacta est!

domingo, junho 12, 2005

Esclarecimentos importantes

Atenção:

Não leve esse blog muito à sério.

Se você leu alguma coisa subjetiva aqui e eu não te disse nada objetivamente/espontaneamente no mundo real, é porque o fato não é da sua conta.

Simples assim.

Estamos entendidos?

Dia dos namorados

Não tenho opinião muito concreta sobre a data. Imagino que deva ser ótima para quem namora - só discordo da tempestade em copo d'água dos solteiros (e) carentes. Por exemplo, eu não fico deprimidíssimo no dia dos professores porque não sou professor. Tá, esse clima love is in the air enjoa - mas nada não seja administrável.

Nem quanto ao amor eu entrei num consenso. Jurei que havia chegado em uma conclusão, depois de filmes, livros, discussões úteis, situações. Tinha precitadamente achado que tinha umas diretrizes acertadas, uns caminhos delineados. Pois bem. Daquela água que dissera que nunca mais iria beber, estou bebendo até a última gota do pote. Minha promessa em não insistir nos erros passados esfarelou-se tão rapidamente quanto o Muro de Berlim. Cá estou eu novamente, de humor variante, inconstante, etc etc etc etc etc.

Mas, querem saber? Nem ligo. Antes fiar-se em parcas esperanças que ficar na resignação desértica. Antes arriscar num pouco de movimentação que permanecer na estática habitual. Antes apanhar um pouco que chegar ao final da vida sem cicatriz nenhuma.

Não há ganhos sem riscos. E seja o que o destino quiser..

terça-feira, junho 07, 2005

Redenção em três palavras

Incrível como podemos atingir a redenção com tão, mas tão pouco...

(e saber que isto é só o início de milhares de outras complicações...)

sábado, junho 04, 2005

It's getting better

"I believe in memories
they look so pretty when i sleep"
(Jack Johnson)

Lógico que poderia ser uma sexta melhor, como aquela famosa do The Cure. Mas como Mama Cass diz (não é Leo?), it's getting better. Quando o pânico e a saudade passaram, tudo ficou mais claro. Como naquela cena, do Holden e seu carrossel: When your heart's on fire, smoke gets in your eyes. Engraçado que eu lembrei de The Platters na quinta, assistindo Adorável Júlia, um filme fabuloso com a Annette Benning. O filme termina com Júlia, tomando cerveja ao invés de champagne, tão segura após todo o desenrolar do filme, ao som de Smoke gets in your eyes. Pensei: é preciso voltar a esse estado. E cá estou eu, tentando.

A semana também colaborou - a prova de Dermato consumiu com todos os meus esforços (não adiantando muito, mas enfim, ficou a sensação de dever cumprido). O efeito boêmio do feriado também mostrou sua cara, fazendo a minha dor de garganta evoluir para uma gripe daquelas e me custar um dia inteiro, obrigando-me a ficar num estado de entorpecimento febril. No mais, outras milhares de coisas pequenas foram encaixando, ocupando a minha mente e qualquer vazio que pudesse aparecer.

Agora estou tranquilo e contente. Seguro. Exercitando-me para acreditar um pouco mais em mim mesmo e na minha impressão do mundo. Ultimamente, tenho acertado as coisas com precisão cirúrgica. Portanto, paciência: tudo (parece que) vai dar certo em breve, breve...

(P.S- ah, Jack Johnson é tão bom...)

quinta-feira, junho 02, 2005

I love this world

"O maior doador mundial para os programas de combate à Aids é os Estados Unidos, que gastaram 2,4 bilhões de dólares no ano passado. Mas grupos religiosos conservadores pressionam o governo a só incentivar programas que preguem a abstinência sexual, sem abordar grupos vulneráveis, como prostitutas, homossexuais e usuários de drogas".
(UOL)

Famoso: então tá, né?

quarta-feira, junho 01, 2005

Confuso e desconcentrado

Ontem eu fiquei mal. Mas não foi pouco, foi muito mal mesmo. De um jeito que nunca havia acontecido depois que eu havia entrado na faculdade, de um jeito que acho que só o Leo já me viu.

Parte dele foi causado pelo efeito-rebote pós-feriado, depois de tantos dias de sol & bebida & bons amigos & revista Caras. Parte dele, pela incerteza e insegurança, na esperança sincera por reciprocidade. Parte dele, pelo deserto que Uberlândia se transformou, sem um único ponto de segurança para me firmar. Tudo isto ficou gotejando, até o copo transbordar. E transbordou.

Mas consegui reconhecer o momento de perigo. Contei até dez, voltei para casa, cochilei (apesar da prova de Dermato que está por aí). Impus-me condições severas para me reestabilizar. Já acordei melhor, com a garganta ardendo, mas melhor. Até sexta, já devo estar 100%.

Só que muito triste com essa mediocridade que me imponho.

Muito triste, pelas possibilidades que se abriram e que agora tenho tanto medo de perder...

segunda-feira, maio 30, 2005

Acontece nos filmes, acontece na vida...

(6.30 am - domingo)

- Eu não queria te deixar em casa agora...
- Mas...
- ... está amanhecendo, eu sei.
(Silêncio)
- Pena que amanheceu tão rápido...

domingo, maio 29, 2005

Trouble

Desculpe-me por não ser infalível. Desculpe-me por ter minhas próprias limitações, algumas incoerências de caráter. Um terrível medo de dizer o não na hora correta. Mas não foi proposital, eu juro. Só que eu não pude ir aonde você gostaria que eu chegasse - e por isso lhe pedi perdão.

Não me importo em massacrar minha auto-estima para me desculpar quando percebo que fiz um grande mal. Por isso deixei de lado meu egoísmo filho da puta e fui lá, de peito aberto, pegar nas suas mãos geladas e dizer: desculpe mas não foi essa a intenção. Você ali, bela e intratável, enquanto eu tentava remediar uma situação por ora fora de controle.

E consegui. E foi bom e redentor. Reconheci minha parcela de culpa e bola para frente, da melhor forma que conseguirmos. Só não vou aceitar um masoquismo eterno de "enfiar o dedo na ferida". Tempestades em copos d'água. Bater na mesma tecla do meu erro. Daí, eu retiro minhas desculpas e prefiro que tudo fique da maneira que estava.

Fiz minha jogada e agora o turno é seu.

sábado, maio 21, 2005

Sobre bem e mal

Talvez o tema que mais me fascina é a eterna luta entre bem e o mal. Principalmente, o quão tênue a linha que separa os dois lados e como nós, eternos equilibristas, ultrapassamos e retrapassamos essa linha sem perceber.

Digo sempre que não gosto da dicotomia católica, que separa o mundo em céu e inferno. Preto e branco. Acredito que a vida é inteira em tons de cinza e dificilmente vamos encontrar uma situação que podemos encaixar num único espectro. Todas as ações são inconstantes e muito rapidamente podem se transformar: de essencialmente boas para essencialmente ruins. E vice-versa.

Pensei muito nisso enquanto via "Star Wars 3". Dados os devidos descontos, é sim um filme muito bom. Não existe o personagem essencialmente bom ou o essencialmente mau. Não existe ali uma única ação que não fosse dúbia. Até os Jedi cometem erros, fracassam, confiam nas pessoas erradas - mesmo com a preocupação constante nem se aproximar do lado sombrio da força.

Por causa dessas coisas, já desisti de ser bom - exatamente porque a bondade não é absoluta. Tento sim, permanecer mais do lado bom da linha que o outro. Mas aprendi a aceitar com muita tranquilidade o fato que, certas vezes, para o retorno da luz é necessário caminhar na completa escuridão...

quarta-feira, maio 18, 2005

Presunto Parma

Eu estava à toa no Centro - por isso resolvi andar um quilômetro e pouco para ir ao cinema. Mesmo sozinho. Algo relembrando os velhos velhos tempos, cinema solitário, tela enorme, coisas a pensar. Filme bom: "Maria Cheia de Graça", latino, terrível de se ver por nossas semelhanças culturais e econômicas.

Daí fui comer um último sanduíche de presunto parma, ali no Carrefour, minha janta antes de voltar para casa. E não sei se foi o cinema, se foi o sanduíche, se foi uma nostalgia aguda que me abateu, se foi o dia anormalmente nublado em plena Uberlândia. E me lembrei de você.

Mas não de você atual. Do que você era - do que costumávamos ser.

Por muito tempo achei que seríamos amigos próximos para sempre. De confissões e risadas. Daqueles que a amizade prosseguiria além da formatura, nossos filhos ficariam tão próximos quanto primos. E ainda que o destino nos levasse a lugares distantes e inóspitos, quando nos encontrássemos, seria como nada tivesse acontecido. Continuaríamos a planejar viagens loucas que dificilmente se concretizariam, filosofando sobre nossa eterna condição de perdidos pelo mundo...

Só que as coisas mudaram. Rapidamente, e não consegui acompanhar o passo. Agora percebo que certas coisas - essa, você, nós - são irreversíveis. Por mais que queiramos, não voltam. Ainda que eu me esforce e fique insistemente acendendo a fagulha, uma hora as mãos falham. A gente cansa. E eu me puno por ter cansado. E eu me lamento por toda mudança que nos aconteceu.

Queria que você soubesse que não é preciso se neutralizar para atingir qualquer objetivo. Queria que você percebesse o tanto que você acabou se afastando de muitas coisas que há tão pouco tempo eram essenciais. Queria que você entreolhasse, para perceber o que sobrou. Queria que você refletisse sobre a decepção que vem causado a tantas pessoas que lhe querem bem.

Por causa disso tudo fiquei ali, triste com meu sanduíche, cantarolando "Wish you were here". Para mim, essa é a música mais triste do mundo. E pensando fixamente em você. Querendo você por perto, aqui, ao alcance dos dedos. Como antes. Como sempre fora.

Talvez as coisas pudessem ser diferentes. Se não fosse essa falta de coragem crônica, essa incapacidade de gritar para os amigos nos momentos de socorro, a incapacidade em visualizar os próprios defeitos e idenficar os pontos de não-retorno. Somos irritantemente imperfeitos, essa é a verdade...

Mas isso não me impede de querer os dias ensolarados de sorvetes e morangos e sanduíches de presunto parma de volta, sem essas cerimônias cotidianas restritas a intervalos curtíssimos de tempo...

terça-feira, maio 17, 2005

RETORNO

Depois de mais de dois meses longe de Franca eu voltarei para o lugar que eu chamo de lar...
Saudade!!!
Franca e Ribeirão Preto 22-29/05
Mesmo sendo ruim, vai ser bom!

domingo, maio 15, 2005

Enjoy the silence

Devidamente instalado no apê, após duas semanas, já consigo fazer um balanço inicial dessa minha nova experiêmcoia. A primeira semana foi difícil: era eu, meu chuveiro, as luzes e minha cama. Mais nada. A geladeira estava pifada, nada de móveis, nada de comida. Felizmente, essa semana foi uma semana particularmente pesada - daquelas que você chega nove da noite, toma um belo banho e despenca na cama de cansaço. Nesse meio tempo, consegui perder a chave do apartamento por 36 horas e foi uma experiência extremamente traumática que não recomendo para ninguém. Mas enfim, entre mortos e feridos todos se saíram bem.

Quando estava prestes a derreter de tédio naquela solidão sem fim, meus pais chegaram. Passaram o final de semana passado inteiro por aqui e deram aquele toque familiar que só mãe e pai sabem dar. Minha mãe fez aquela faxina monstro e equipou a casa com todas aquelas coisas essenciais que eu nem deesconfiaria que são necessárias. Meu pai acertou as instalações elétricas, trocou móveis de lugar. E eu fiquei ali observando um moquifo ser transformado em apartamento.

Sim, aquilo virou um apartamento. Tem decoração básica, TV e mesa, as roupas arrumadas num canto enquanto o armário não vem. Existe ordem. Existe cara. Tá tão lindo...

Daí, na segunda semana, foi uma luta particular para manter as coisas em ordem. Tenho até conseguido, com muito custo e empenho. Não desconfiava que manter um espaço desse tanto trabalho...

Mas estou feliz e satisfeito. Morar sozinho não é pior nem melhor - é apenas diferente. Tem pontos positivos e negativos como tudo nessa vida. É estranho na early night, ali pelo horário da novela das sete, aquela solidão toda. Daí ligo o DVD, uma boa música e fica tudo bem.

Mas o silêncio, todo aquele silêncio habitual, é tão reconfortante...

terça-feira, maio 10, 2005

Lost

Sim, eu perco coisas. Já perdi tudo na vida: de guarda-chuvas a moletons, de livros a jalecos em sala de aula, de cobertores a toalhas. Canetas Bic não duram três horas nas minhas mãos. Meu molho de chaves, meu celular, já perdi infinitas vezes até encontrá-los, esbaforido, quase já apelando para São Longuinho.

Tenho infinitas teorias para isso, a maioria me eximindo da culpa. Mas o fato é que sou um perdedor crônico e desculpas não me bastam mais. Acabei por aceitar isso como parte da minha natureza. Daquelas coisas que fiquei na insistente tentativa de mudar e todas elas tiveram o mesmo desfecho fracassado.

Cansei. Cansei disso, junto com outras milhares de outras coisas. Agora, estou em uma fase de aceitar minhas deficiências pacificamente. Cansei de buscar a infalibilidade. Se não dá, depois de muita insistênciae esforço, que seja assim.

Prossigo, bambo e torto, buscando outras saídas...

quinta-feira, maio 05, 2005

Teoria e Prática

“Lógico que eu acho que tenha que existir os pobres. Sem eles quem iria lavar as minhas roupas e limpar o banheiro.”

C.S.S., uma sábia.

Verdade é que eu sempre tive pensamentos igualitários quase marxistas. Não vou negar também que já sonhei em um mundo igualitário, bonito onde as pessoas fossem felizes. Já pensei nessa sociedade de utopia. Já pensei num mundo onde todos tivessem acesso igual a maioria dos recursos. A grande verdade é que isso é impossível.

Sem a desigualdade é impossível manter o nosso feliz nível de vida. Gostamos alias, tanto de nosso modo de vida que estudamos não com o intuito de trabalhar em prol de uma sociedade mais justa, estudamos para ocupar uma vaga de alguém no mercado de trabalho, vamos deixar esse negócio de trabalho voluntário para socialites como a Loyola e afins, pessoas que tem capital e tempo disponível. Perdão pelo pensamento, mas, realmente eu gostaria de ter algum trabalhando para lavar as minhas meias e passar a roupa por um preço de trabalho irrisório que perpetuasse a seu estado social assim como o dos seus filhos, que não poderão estudar e nunca nem sonharam numa possibilidade real de ascensão social.

Os únicos que realmente são marxistas são aqueles que por sorte conseguiram ser educados dentro de um mundo proletário. Os outros , se preocupam na reprodução de um sistema capitalista e exploratório, acredito que eu, por não querer perder qualidade de vida ( não adianta, temos interesses , eu não gostaria de ter que dividir esse computador, não acho legal trabalhar num serviço que não garantisse uma vida melhor que a de muita gente ). Esse é um dos motivos pelo qual eu odeio pseudo-marxistas que usam Ellus, Opera Rock, Diesel, Gucci e aqueles bonés Von alguma coisa ( coisa tosca e feia que eu não entendo por que é tão caro, boné de propaganda política e mais bonito), e que desejam uma sociedade mais igualitária , onde as pessoas tenham todas o direito de possuir um i-pod e comer salmão pelo menos uma vez por semana. Quem são esses burguesinhos para entenderem alguma coisa de coisa alguma?

Que todo mundo se foda!

terça-feira, maio 03, 2005

O pouco que sobrou

"Eu cansei de ser assim
Não posso mais levar
Se tudo é tão ruim
por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
eu acho que acabou
Mas eu vou cantar pra não cair
fingindo ser alguém
que vive assim de bem
Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
o pouco que sobrou"
(O pouco que sobrou - Los Hermanos)

segunda-feira, maio 02, 2005

Mudança - last cut

Mudança finalizada - inclusive a geladeira carregada por muitos lances de degraus - ficam as últimas reflexões. Sim, toda mudança é um processo muito filosófico. O fato de você ter que fazer uma seleção daquilo que fica, daquilo que vai embora. Como organizar os pequenos pertences e, principalmente, o que de não-essencial você vai carregar junto com você.

Mudei sim. Sem remorsos, sem saudades. Não sei se será melhor: todos nós conhecemos o inferno que é conviver unicamente consigo mesmo. Mas tenho esperança e necessidade de algo menor, melhor, mais íntimo.

E se não der certo, a gente paga a língua e volta atrás em tudo o que falou anteriormente.

Ando tão desorgulhoso ultimamente...

sexta-feira, abril 29, 2005

Histeria temporária

O Orkut trás prováveis boas notícias...

... e eu vou me segurando para não voltar à tentação das velhas projeções....

"Lost boys"

A mudança está em seu deadline. Tudo está praticamente encaixotado. Falta desmontar a cama, limpar a geladeira, fazer a vistoria do apartamento. Mas as grandes coisas, aquelas que emperram o movimento, estão todas resolvidas.

Estranho que o que estou sentindo é uma leve indiferença. Nem ansiedade, nem medo, nem saudades. Talvez eu sinta leve falta por TV a cabo, das conversas noturnas, do movimento diário. Mas só.

Engraçado que ontem, enquanto criava coragem para estudar assistindo TV, as coisas fizeram sentido: realmente este é o caminho inevitável. Depois de morar tanto tempo com mais seis, é preciso de um pouco mais de espaço. Como necessidade básica. E privacidade. E silêncio.

E seja o que Deus quiser...