terça-feira, novembro 30, 2004

Pela chuva

E eu caminhava a passos pesados e fixos. A noite foi tão mal-dormida que o torpor me pegou por todo dia. No hospital, princípio de vertigem, desmaio. Almoceci rápido, sem perceber. A tarde correu, voou, quando vi já minha cabeça doía e eu caminhava pensando que queria dormir, mas dormir de verdade, que queria voltar à minha terra, minha sagrada segurança do lar, que a saudade aperta o peito e sufoca, que as traições involuntárias também doem, que meu corpo também me trai e tantas outras coisas que absorviam minha atenção que mues pés seguiam numa freqüência ritmada e mecânica e automática como se não houvesse necessidade alguma de alguém para guiá-los.

E começou a chover. E começou a chover uma chuva triste e fina que mal molhava a alma, mas na medida exata para me lembrar que eu estava vivo. Que havia sangue quente dentro de mim. Que havia sensibilidade na pele, gosto na boca. Todos corriam, buscando abrigo. Continuei, dentro da chuva, apesar da chuva, mas alheio ao mundo lá fora, às tempestades, aos antimicrobianos, às obrigações sociais. E agora que o ano acabaria, que o ciclo terminaria exatamente onde começou: cenários diferentes, mas mesmas dificuldades, mesmas limitações, consolidação de certezas que nunca gostaria de consolidar.

E choveu mais forte. Agora chovia verdadeiramente. Agora desabava o mundo. Agora eu encharcava minha alma, minhas roupas, meus papéis e documentos. Ah, que se dane. Eu caminhava apesar da chuva. E sempre não havia sido dessa forma? E os óculos começaram a embaçar, por isso os tirei: para igualar à miopia do mundo. Os carros e as motos acendiam os faróis. Não enxergava mais que um palmo. Anoitecia.

As águas acumulavam nas calçadas, em poças largas. As enxurradas aumentavam, intransponíveis para quem gostaria de permanecer de pés secos. Por isso tirei meus tênis e continuei o irremediável caminho. Continuaria até quando fosse preciso, às cegas, aos pingos. Talvez, porque eu fosse orgulhoso demais. Talvez, porque eu sempre precisasse de uma prova cabal de vida para permanecer vivo. Talvez, pela busca inútil do caminho mais longo. Ou talvez, porque não me restasse escolha: e somente isso que eu soubesse ainda fazer.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Ta bom?

"Voce precisa reagir
nao se entregar assim
como quem nada quer"
(Ta bom - Los Hermanos)

Eh preciso superar tudo isso, num exercicio assombroso de reinvencao. Hoje, me considero capaz de superar as adversidades que nao estava por esperar. As promessas que nao se concretizaram. As traicoes involuntarias, dolorosas. As promessas de amor que nao se cumpriram. As promessas de liberdade que se mostraram ilusorias. A valorizacao do status quo. O exercicio do perdao.

Agora, eh preciso construir uma fortaleza. Voltar aos tempos de concha, de defesa, de mais observar que agir. Essa eh a minha natureza original: observar. Tatear lentamente, buscando as verdades que desapareceram no inicio do mundo. Expurgar a culpa, toda culpa, que ainda sobrar. Aproveitar o verao, o retorno, ao conforto de ter ao meu lado tudo aquilo que me fez ser quem sou. E fazer disso, minha fortaleza. Nao esquecer, jamais esquecer e nunca perder de vista aquilo que me construiu. Aqueles que me construiram.

Reconhecer que meus defeitos tambem sao as minhas vigas. Minhas paredes. Meu chao.

Afinal, so tenho a certeza que hei de superar. Hei de suportar. Hei de vencer, no final das contas. No balancete final.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Tati Quebra Barraco

Eu amo a Tati Quebra-Barraco. Ela é o retrato oficial do Brasil. Como ela mesma diz num dos seus maiores hits “Sô feia, mas to na moda”. O Brasil é alguma coisa alem disso? Somos um país tropical abençoado por Deus, bonito, feio, pobre, que só produz sexo, mulheres, futebol, samba, feijoada, carnaval e pinga e que, ninguém sabe o motivo ta na moda no exterior.

Tati assim como muitas meninas dessa pátria que nos pariu foi mãe cedo. Ela é mais uma dessas estatísticas toscas do IBGE que insiste em falar aquilo que nos sabemos que existe só que não gostamos de pensar. Mãe aos 13 anos! Imagino se alguém realmente entende a barra que deve ser isso, acho que não. Mas ela atualmente esta se dando bem, ela é a Diva da musica brasileira atual, feia e na moda ela representa o funk no melhor estilo possível com suas letras de apelo sexual forte e de atitude ela vem ganhando platéias de todos as classes sociais. Ela vai de morros da Cidade de Deus, lugar onde nasceu, até boates badaladas da noite paulistana como a Lôca e a Lov.e .

Pro inferno quem me falar que ela é baixaria. Só por que ela fala “soca a theca, É bom a beça Vem garotinho, Não gosto de piru pequeno, Uh Ta na moda, Bota pra mamar na horta”. As mesmas pessoas que criticam isso muitas vezes ficam pensando em temas como Porto Seguro na época do colegial ou em quando será a próxima grande micareta (carnaval fora de época) para ver quem vai catar mais e para dançar as coreografias super ingênuas que existem no axé, e se isso não fosse suficiente muitos ainda adoram gêneros musicas como o hip-hop e o gangsta rap norte americanos que se analisados falam tanto de sexo e termos chulos quanto.

O que me deixa triste é pensar que o que esta sustentando esse sonho de pop star que ela esta vivendo é uma classe alta e média fútil que se rende aos modismos. Não digo amanha, mas num futuro próximo é bem provável que a Tati Quebra Barraco vai ser só uma das milhares de Tatis que existem nas favelas do Brasil. Não sei se ela vai conseguir fazer fortuna para construir uma casa e viver uma boa vida. Não gostaria de ver a Tati com seus 30 anos sendo perpetuada como empregada doméstica na casa de uma família alienada que não sabe o que é sofrer para viver diariamente e que nunca vai saber o que é dar um passo além da própria mediocridade.

Post conjunto

"E direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás"
(Estrela da manhã - Manuel Bandeira)

Hoje quero tão pouca coisa, meu amor. Talvez um sorriso. Talvez um breve encontro de epidermes. Algumas palavras serenas, em tom de tranquilidade. Encerrar o dia com cafuné, música leve, filme Sessão da Tarde com pipoca.

Esbarrar com você, desprevinidamente, nos corredores do Hospital. No ponto de ônibus. Na fila do cinema. Mas com aquele sentimento de encontro de almas perdidas, solitárias, que rastejam dia a dia para cumprir as obrigações cotidianas. Lembra de "Encontros e Desencontros"? Lembra da angústia de estar circundado por pessoas que não entendem o que você diz, nem entendem o por quê você faz?

Não quero, por hoje, tradução instantânea: quero apenas que alguém - você - tenha vaga noção do que estou dizendo. Coisas irreproduzíveis, impublicavéis e terrivelmente sinceras.

Já comprei jujubas e outros alguns poucos víveres para sobrevivermos a uma noite morna, limpa e estrelada. Já comprei Coca-cola e alguma bebida alcóolica de qualidade discutível, para desmaiar entorpecido em seus braços após horas e horas...

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, novembro 21, 2004

Post conjunto

"Alice sabia que era o Coelho a sua procura, e tremeu até fazer a casa sacudir, completamente esquecida de que agora era umas mil vezes maior que o Coelho e não tinha razão nenhuma para temê-lo." Alice no país das Maravilhas

Uma espécie de fobia. Um anjo triste que veio, ficou e parece não ter prazo para ir embora.

Talvez seja cansaço acumulado. Talvez, resultado de conversas no sábado. Talvez, essa situação cruel de nem lá, nem cá, nem lugar nenhum. Talvez, uma necessidade de voltar às origens.

Só sei que estou sem resistência.

O Coelho venceu.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, novembro 15, 2004

Restos de uma reflexão de LPT

Fico pensando como que a consciência atinge as outras pessoas. É um ótimo exercício mental. O Pinóccio, por exemplo, tinha um grilo falante chato do seu lado falando um monde te merdinhas cheias de moralidade para o narigudo. Eu tenho uma voz chata falando comigo (dupla personalidade? Talvez!), que me xinga e de difama e se a desobedeço por minha vontade ela diz “vai lá, faz isso, não fala que eu não te avisei depois, você sabe muito bem o que isso vai dar, mas se vc quer fazer isso faça, eu vou estar aqui pra te culpar quando você ver que fez merda”... Minha consciência é pior do que bronca de mãe!
Eu sou assim e assumo que de vez em quando eu fico mal por isso, mas, quanto às pessoas que apertam o botão de “Foda-se” pra vida, como elas pensam? Será que elas falam deixam pra lá mesmo e não pensam da condicional “E se...?” (o “E se...?” merece uma reflexão também, mas isso fica pro futuro.) Ou pior, será que o estado “Foda-se” vai acabar e quando isso ocorrer à pessoa entrará num processo de autoflagelação de consciência e culminará numa depressão profunda e vivera na base de Valuim e Prozac?
E quanto às pessoas que eu vejo na rua diariamente, como se opera esse mecanismo de culpa e consciência? Se todos tivessem um mecanismo tão opressor e intimidado como o meu eu diria que os índices de suicídio seriam maiores (Sim, eu já pensei nisso!). Então como que elas pensam? Será que elas se ocupam com coisas demais para pensar em si mesmas? Isso não justifica o por que de tantas pessoas felizes, afinal, merda acontece não é verdade? (Eu também não acredito muito em pessoas felizes e podem me contestar quanto a isso.) Quer saber, elas não são Eu então, que se fodam! (Até parece que o meu Eu bonzinho ia permitir esse tipo de pensamento).
Retomando o eu bonzinho eu tenho vários eus. Tem o sádico, o masoquista, o caridoso, o bobo, o revivalista nostálgico (Meu deus, Anos 80 e começo da década de 90 que anos bizarros), o bêbado, o performático, o amor de pessoa o moralista e o honesto(Tá bom , devem ter outros mas eu não me lembro quando eles aparecem). E muita gente da classe me acha maldoso só por que eu ri da menininha de treze anos idiota que morreu por inalação de Rexxona! Puta que pariu! Tentar ficar doidona com Rexxona? Ela pediu pra morrer. Se fosse gente arranjava uns 40 conto com o papai e arranjava alguém pra comprar um barato pra ela. Essa daí devia sr candidata ao Darwin Awards!

P. S. Poderia continuar escrevendo esse texto mas é uma da tarde e eu tenho que almoçar.

Bloody November

"Nada rende. Faculdade continua por pura inércia. As cartas se empilham sobre a escrivaninha, começadas e sem terminar. Os livros ficam pela metade, mesmo que eu morra de curiosidade para ler o final. Vários textos para traduzir e eu vou adiando a tradução por tempo indeterminado. A academia quase não vê mais minha cara. O PET não sai, a monitoria não acaba"
(27/11/2003)

Há algo em novembro que não sei explicar. É quando o cansaço dói, é quando o ar falta, é quando todo o peso parece acumular sobre os ombros.

Novembro é um mês insuportável. É o próximo ano que se anuncia pela decoração natalina que desponta entre ruas e shoppings. As promoções de Ano Novo. As famigeradas resoluções de Ano Novo. Os arrependimentos que se acumulam. Tudo aquilo que poderia ter sido e não foi.

E não ando bem. Há dias que acordo e não dá vontade de sair da cama. Fito minhas prateleiras, minha escrivaninha, o despertador. Levanto-me por pura obrigação. O sono é uma constante durante o dia e de madrugada custo a dormir. Falta energia até para postar por aqui.

As pessoas me decepcionam, por um silêncio grave e absurdo. Parece que tudo perdeu, de certa forma, sua capacidade de surpresa. Ninguém fala, ninguém se movimenta, ninguém surpreende. E estou cansado demais para botar as coisas em movimento. Resignei-me. Calei-me. Mudei de estação. Nem procuro mais.

Sabem a gota d'água, que congela antes de cair? Então.

Ainda bem que Franca, desta vez, reservou-me gratas surpresas. Érico Veríssimo também. São víveres para alcançar dezembro. Meu desejo interno é alcançar dezembro. Somente. Porque sei que é impossível botar as paredes abaixo para começar um novo grande projeto do zero...

Não seria pecado algum desejar um pouco de novidade. Positiva. Como uma manhã ensolarada e morna, com piscina, churrasco e boas perspectivas.

domingo, novembro 14, 2004

O exercício da bondade

Acho que boas pessoas mereçam e devam ser elogiadas, para elas lembrarem que são boas e manterem no caminho de serem boas. Já me cansei de ver tantas pessoas boas se perderem nos caminhos da vida...

sexta-feira, novembro 12, 2004

"Hey, that's no way to say goodbye"
(Leonard Cohen)

Um ano de esforços concentrados. Olhando cara a cara com minhas maiores fraquezas e deficiências. Fazendo a difícil contabilidade das perdas e ganhos. Preparando o espírito para sacrifícios. Sofri e venci. Testei e consegui. Reuni toda a coragem e me desafiei.

Agora, tudo isso depende de uma medida final. Colocar as intenções em palavras duras. Verbalizar e objetivar os planos.

E quem disse que eu consigo?

Dói-me demais pensar que posso estar decepcionando alguém. Dói mais em mim. Quase é insuportável.

Prefiro sofrer. Depois me acerto com meus pobres mecanismos de auto-piedade. Já estou acostumado a juntar os cacos. Não consigo enfrentar o sofrimento alheio que eu mesmo causei. Provocar uma decepção, uma desilusão. Frustrar expectativas.

É, eu não nasci para dizer adeus.

Post conjunto com o Sete Faces

sexta-feira, novembro 05, 2004

Life is unfair...

Cheguei ao Guarujá ontem e aproveitei a manhã para me embebedar na praia. Dormi, dormi, voltamos para a Enseada. Tomei banho, assisti a palestra de abertura do Congresso e teve coquetel, bebida na faixa e um DJ que mandou muito, mas muito bem.

Hoje eu acordei e viemos para o Congresso. Estouramos de tanto comer por conta dos laboratórios de medicamentos diversos, que tentam nos comprar com brindes baratos a qualquer custo. Fui almoçar numa cantina italiana. Tomei Boêmia com tomate seco, champignon e azeitonas chilenas. De prato principal, rondelle com molho à Napolitana e Filet à Lucca. Trilha sonora: Vinícius de Morais. Arrematamos tudo com um café expresso e sorvete da Kibon.

O dia está ensolarado e quente lá fora, perfeito para um Happy Hour.

Daqui a pouco estarei subindo a Serra, rumo à Sampa e o TIM Festival.

Enfim...

terça-feira, novembro 02, 2004

Post conjunto

"Sell me a car that goes
Sell me a house that stands
I never cared before, I never cared before"
(Radiohead)

Existem pouquissimas coisas nessa vida que eu ja me importei. Que eu me preocupei. Que eu verdadeiramente me esforcei para conseguir.

Contei com a sorte. Contei com a ajuda alheia. Com a providencia divina. Contei com a boa vontade de muitas pessoas. Contei com deus e o diabo.

Mas agora eu cansei. Agora, o que mais gostaria, era aprender a caminhar com meus proprios pes. Nao quero mais contar com os outros - quero contar comigo. Porque nunca me importei se conseguiria fazer tudo por minha conta.

Agora, quero ser forte, decidido. Meio impulsivo, sem perder a racionalidade. Meio defensivo, sem deixar a agressividade de lado. Meio especial, ainda ficando incolume dentro da multidao. Meio melancolico, sem descambar para o pessimismo.

Quero aprender a fazer planos sovieticos, para delimitar meu futuro. Quero ser ironico, para desarmar pessoas idiotas so com palavras. Quero auto-estima. Quero pernas fortes que possam me levar mais longe. Quero olhos sem miopia para tambem enxergar mais longe. Quero um carro possante, para fugir do mundo sem que possam me alcancar. E uma casa no Taiti, ah, o Taiti...

(Sem acento, porque o teclado esta desconfigurado)

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, novembro 01, 2004

Nostalgia otimista

Ultimamente, tenho escutado bossa nova. Frank Sinatra. The Smiths. Para mim, sinais concretos e inegáveis de um sentimento de nostalgia e saudosismo.

Como andar pela madrugada francana, falando sobre abelhas que produzem pouco mel e são muito violentas. Ou rir sobre as pequenas maldades cometidas gratuitamente, mas são inócuas e tão salvadoras no nosso cotidiano. Ou discutir sobre o destino que espreita à porta, sobre o caminhos que desenhamos para nós mesmos e estamos em um esforço constante e contínuo para permanecer nele.

Perceber que há certas coisas que, felizmente, nunca mudam. Perceber que certas coisas, felizmente, também mudam e para melhor.