quinta-feira, setembro 30, 2004

Balada recorrente

Eu amo porque te amo - e meu amor não precisa de explicações.

E sofro, como sofro: porque você nunca olha pra mim.

quinta-feira, setembro 23, 2004

Carta a um amigo que parte

Caro amigo,

Lembro-me quando passei no vestibular. No susto. Quando minha vida estava toda estruturada, outros planos e projetos. O trote na praça, o churrasco na minha casa e depois, o mundo. Nem deu tempo para pensar nas conseqüências. Nem deu tempo de lembrar que meus melhores amigos estavam ficando para trás, o conforto de casa, a segurança da concha que eu seguramente me repousava.

Faz-me lembrar que mudar é bom. Começar de novo é bom, cara. Sem medo. No começo, você nem vai lembrar de casa, amigos antigos. Vai ser uma euforia, aquela coisa bem de "descobrir a América". Descobrir que vai poder sair com quem quiser, em plena terça-feira, voltar às quatro da manhã, vomitar pelo quarto e não ter ninguém para encher o saco, nem fazer torturas psicológicas. Vai - teoricamente - levar a vida da maneira que você quiser. Cobranças zeradas. Possibilidades incalculáveis. Oportunidade única de libertação. E como diria nosso amigo Kundera, vai sentir a vertigem da leveza.

Mas não se esqueça que a vertigem é perigosa. Que não se pode voar tão alto a ponto de perder a noção do chão. Que existem limites e dessa liberdade ilimitada, como diria o Homem Aranha, também aparecem grandes responsabilidades. É preciso ter senso de perigo, senso de ridículo - tudo em doses saudáveis. É preciso ligar o botão foda-se com força e moderação. Porque, apesar de tudo e todos, sair de casa também é um exercício de solidão.

Há dias londrinos. Há dias de fossa. Muitos, muitos. Longos e intermináveis. Que a única coisa que poderá fazer é desejar voltar para concha, para os amigos antigos, para o conforto do lar e todo aquele mundo previsível que é Franca. Incrível essa capacidade de se apegar a tudo aquilo que ficou para trás, depois que a fase da euforia acabar. Você verá como a nostalgia é uma coisa boa. Mas a vontade de prosseguir é sempre irredutível: o retorno definitivo significaria abrir mão de toda liberdade conquistada. E depois das tempestades, a leveza voltará. A leveza impera. Há um instinto violento que impele para o prosseguimento das coisas. Para a evolução. Para aquilo tudo que um dia sonhamos ser e temos uma mínima, porém palpável, chance de conquistar.

Conselho para agora? Don´t worry. Não se preocupe muito. Conquiste e domine seu espaço. Estabeleça metas, daquilo que você quer fazer. E acelere o carro. E muita pinga. E desencane. E seja você mesmo, para o bem, para o mal. Porque agora é você quem constrói seus caminhos. E eu tenho plena confiança que, além de um excelente relacionador internacional, essa sua longa estada em Brasília mudará completamente sua maneira de enxergar o mundo e, ao mesmo tempo, você ainda vai permanecer a mesma pessoa nas coisas que mais importam.
Leo, desejo tudo de bom e do melhor nessa sua nova etapa de vida. Sinto muitíssimo não voltar para Franca para o churrasco de despedida, mas enfim, fico por aqui mesmo, na intenção e na torcida que dias melhores e mais leves virão.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Quase adeus

“If I never see you again you’d stay in my mind”
(Teenage Fanclub – If I never see you again)

Vou me mudar. E dessa vez acho que não vou voltar tão cedo, ou tão freqüentemente e isso me assusta um pouco. Estou com medo de como será nos momentos de solidão durante a noite quando sei que não poderei ligar para ninguém. Irei ler alguma coisa do meu curso possivelmente e ficarei lendo sem parar até que eu enjoe e vá para a sacada com um copo de vodka com alguma coisa.

Essa ultima semana se consiste em despedidas. Despeço-me das caminhadas inúteis no centro da cidade, do carrinho de hot dog, do suco daquela lanchonete, do espetinho do açougue (volto a enfatizar que eu saia pra balada num açougue alguns dias), do golzinho que não dirigirei, da minha cama, do computador, do blog por período indeterminado, dos meus parentes, dos meus amigos e de um pedaço da minha vida que eu sei que não vai voltar. Não vai.

Começar novamente é o sonho de muita gente.É como se tivesse uma gama de possibilidades que jamais foi oferecida antes. A imagem que fazem de mim será uma pagina em branco e poderei fazer tudo, seja para o bem ou para o mal, e isso assusta muito, muito mesmo. Ë verdade que eu gostaria de ser auto-suficiente, mesmo, mas eu sou daqueles que se enquadram na frase clássica que diz “o homem é um ser social”. Preocupo-me com o que os outros acham de mim e sou paranóico o suficiente para achar que tudo o que digo pode e será usado contra mim (droga!).

Espero ter forças para agüentar as merdas sozinho, e a sobriedade necessária para não me perder no meio de todas as possibilidades. E só.

terça-feira, setembro 21, 2004

Post conjunto

"Tenho fases, como a Lua"
(Cecília Meirelles)

Tenho fases, como a Lua. Tenho fases de fazer barulho, tenho fases de fazer silêncio. Tenho fases de coragem e covardia, de grandeza e insignificância. De agir racionalmente, agindo impulsivamente. De querer abraçar o mundo e abandoná-lo logo em seguida.

Tenho fase de precisar dos outros, ou precisar de ninguém. Regozijar-me com o silêncio para depois me desesper com ele. Contentar só com migalhas ou só com o pão inteiro. Tenho fases de ser moderno, outras de retrocesso. Iludir-me, ser cético. Democrático e autoritário. Compreensivo e radical. Sincero, mentiroso. Inocente, ardiloso. Puro, vil. Cheio ou minguante. Novo ou crescente.

Alterno fases de mania, melancolia - sem calendário ou previsão. Ontem eu amava todos, agora já não amo ninguém. Há poucas coisas minhas que são constantes, mas me orgulho disso. Sou um alguém que busca o equilíbrio esbarrando nos extremos...

quarta-feira, setembro 15, 2004

TIM Festival

Viram que vai ter TIM Festival? Eu e o Joey já fizemos um cronograma básico de "o que queremos fazer no TIM Festival, já que vão ter muuuuuuuuuuitas atrações legais". Vamos lá:

05 - Motomix: com Cansei de ser Sexy (20 reais)

06 - TIM Stage: PJ Harvey e Primal Scream (40 reais)

07 - TIM Lab: The Libertines (30 reais)
Motomix: Pet Shop Boys e DJ Mau Mau (20 reais)

Evento Cult-Wannabe total. Quem vai?

Cenas de um velório.

Velórios são tristes , eu sei , já fui em alguns na minha vida , mas nada impede que em alguns momento dele não possa haver algum humor .

Cena 1
No inicio do velório , meu amigo (que perdeu o pai) tava mal e pedimos pra que ele saísse um pouco da sala para dar uma respirada e não ficar só naquela sala triste , eis que chega uma tia dele , que provavelmente não o via faz muito tempo e diz empolgada: “Oiiii Paulo , tudo bem?” e corre para abraça-lo com entusiasmo. Precisava disso? Pra que perguntar se ele tava bem? Lógico que ele não estava uai, o pai dele não era nenhum milionário com uma herança gigantesca , era um bom pai comum , NÃO TERIA COMO ELE ESTAR BEM ...

Cena 2
Meu amigo contou sobre seus pareceres da morte do pai , fato que comoveu a todos , e todos os amigos da turma começaram a chorar junto e a fazer aquela chupação de nariz. Não satisfeito com a situação eu resolvo abrir a boca pra fazer uma piadinha infame “ galera , eu acho q o Sorine deveria contratar a gente para um comercial de TV”

Cena 3
Meu amigo estava inconsolável comendo um saquinho de baconzitos e tomando uma coca na cantina do velório, eis que nossa amiga Lívia (sim , com a licença da ocasião, ela é loira) abre a boca e fala a seguinte merda “ Gente , Vamos no Edson e Hudson hoje lá em Cristais? Vai ta tão legal lá!”. Todos lançaram o maior olhar de reprovação q eu já vi alguém receber na minha vida toda. E ela não percebeu isso.

Post conjunto

"Leiam muitos livros, plantem algumas árvores, casem-se por amor e nunca aceitem caronas de estranhos"
(Charles Kiefer)

A vida é simples. A vida é de uma simplicidade absurda e encantadora. Aposto que meus medos particulares, anseios e esperanças sejam muito semelhantes à 99,99% da população.

As coisas boas da vida são todas clichês e batidas. Vemos todos dias na Sessão da Tarde, nas novelas das oito, naqueles filmes pegajosos de "mocinho fica com mocinha".

Não há motivos para se aventurar muito além dessas metas. A sabedoria popular e grande parte do mundo não podem estar errados.

Quanto a mim, tenho tentado, ao meu modo, encaixar minha vida insana dentro dessas metas áureas. Talvez, deixando de viver um pouco para viver um pouco mais no futuro. Talvez, tenho guardado energias para um sprint final. Mas tenho esperanças sinceras que o caminho que vislumbro seja o correto, apesar de tão comum: livros, árvores, amores - e carona de estranhos, por que não?

Post conjunto com o Sete Faces

sábado, setembro 11, 2004

Bestiário escolar parte 2

O petista convicto.
Nos seus olhos só se vê uma cor, vermelho. Vermelho é sangue , é paixão, é fúria, é guerra é energia é comunismo é PT. Ele não liga se ele está bem perante o sistema ou não , ele quer é ajudar os outros com suas idéias de riqueza para todos,terra para todos, tudo para todos, uma verdadeira orgia de bens.Acha que o mundo um dia vai ser um mundo teletubie e todos vão se dar bem. Geralmente esse tipo estressante morre quando entra na faculdade. Quando na faculdade ele ou se transforma num frustrado político que diz que política não presta e fala que vai votar em branco( mas na verdade vota no PT) , ou se converte num vermelhinho extremo que faz passeatas com o lema “Contra Burguês, vote 16”, isso é , ele vira um PSTUísta . Não estranhe se esse tipo de espécime for encontrado em cursos de humanas, principalmente história, serviço social e filosofia.

A beata.
A beata é uma criatura à beira da extinção, porem, ela existe. Geralmente as beatas se encontram em redutos inócuos de pureza, bondade e sonsice. Ela geralmente costuma ser mirradinha, já que reflete fisicamente a falta de maldade e sexualidade de sua psique. Não suporta nenhuma brincadeira com conotação sexual e costuma possuir um certo fervor religioso. Geralmente estas, depois de longos períodos de existência costumam lançar a SINTA, Síndrome do Tesão Acumulado, se tornando uma insaciável sexual, geralmente quando chegam nessa fase elas abandonam todos os parâmetros morais e éticos da fase beata e começam a viver uma vida de pecado.

A puta carente de família.
Aparentemente ficou dito no popular que putas não são garotas de família, e isso não passa de uma falsa generalização. Um dos seres mais interessantes e perigosos desse bestiário é a puta-carente-de família. Um belo dia você está com aquela vontade de tirar o atraso e procura um alvo aleatório, você fica com ela , transa com ela e alguma coisa a mais, o natural seria que o mundo seguisse o seu curso, porém, ela esta apaixonada e acha que você não pode abandona-la já que foi “tão legal” vocês juntos. Ela vai chorar todos os dias por você nos corredores, vai se sentir abandonada , traída, e mesmo assim vai querer grudar em você que nem chiclete na cruz. E todos vão te zoar, falando que você só cata puta (catapulta hahaha ...Que infame!). O problema não é ser zoado , o problema é ter que escutar eu te amo e outras coisas do gênero ...(arghhh)sendo que ela não te ama e a recíproca é verdadeira. A grande verdade é que essa besta só quer afeto e acha que só vai conseguir isso através do sexo. Pode acabar naquelas clinicas de pessoas com problemas de compulsao sexual caso não visitem um terapeuta ou um psiquiatra.Tenho pena!

O Supersociável
Você não conhece a pessoa e ela vira do nada e fala com todo entusiasmo do mundo “eeeeee aaaiiiiiiii caaaarraaa , belezaaa????? , Como você chama?? Nó Léo , eu tenho um amigo com o seu nomeeee” Pra que alguém se sujeita a essas coisas? Acho que o supersociável feminino é mais forte, especialmente por sua mania de abraçar as pessoas e falar que ama todo mundo, que a sua roupa é legal , que adora tudo em você e abordar as pessoas na rua com um abraço gigante e gritando “Amiiiiiiiiiiiigaaaaaa, comu vai você???? , Que saudadeeeee ... aiiii , tudo bom com você? Aiii você ainda ta namorando fulano?? Mee liga ta , (dois beijinhos melosos no rosto da outra menina) txauuu” ... Isso merece vômito!

quinta-feira, setembro 09, 2004

Post nonsense, mas enfim...

"I’d rather be in Tokyo
I'd rather listen to Thin Lizzy-oh
Watch the Sunday gang in Harajuku
There’s something wrong with me, I’m a cuckoo"
(I´m a cuckoo - Belle and Sebastian)

Querem entender como estou me sentindo? Como estou pensando? Escutem essa música.

É Belle and Sebastian, the official soundtrack of my life.

É o tal do Martini Seco fazendo efeito...

Bestiário Escolar Parte 1

A Paty.
A Paty do Inferno é uma espécie que por mais que seja altamente combatida sempre retorna e parece nunca entrar em extinção. Um dos principais pontos da espécie é o gosto de se vestir do modo que as tendências fashion indicam e a forte demarcação territorial. Quando um outro grupo da mesma espécie cerca algo do território original acontece uma forte disputa entre os grupos que pode perdurar até a conclusão de um curso.Os hábitos alimentares dessa espécie são bem variados, porém, espécimes gordos podem ser mandados para o exílio. Sexualmente ativas muitas gostam de fazer o estilo garota de família pura e inocente, seus não-me-toquem podem ser irritantes, especialmente se demorarem muito tempo até ceder. São atraídas por: Cartões de crédito com limite alto, Heranças, metrossexuais, mauricinhos, e pessoas que mesmo sem essas características sejam populares ou consigam falar alguma coisa não muito inteligente, mas que as deixe com tesão.

Esportista.
Esportistas geralmente se destacam pelo físico. Não necessariamente inteligentes eles se destacam nas aulas de Educação Física, sabe o nome de todos os aparelhos da academia, são desejado por muitas outras espécies do bestiário, e geralmente não bebem e não fazem uso de drogas, salvo a maconha que não é droga, “maconha é natural e serve para inúmeras coisas é um presente de Deus”. Se um dia chegar ao profissional ele será bastante religioso e em suas entrevistas usará o nome do senhor em vão muitas vezes. Geralmente os indivíduos masculinos dessa espécie se dão melhor que os espécimes femininos. Espécimes femininos podem apresentar características masculinas em alguns casos, cuidado.

O intercambiário.
No começo de um semestre normal chega alguém vindo de uma cidade que você desconhece que exista de um país estranho. Essa pessoa geralmente sabe se comunicar em inglês, porem, se não sabe se comunica através de gestos e aponta para as coisas. Por vir do céu e ter hábitos estranhos esse E.T. vira uma celebridade instantânea sendo cercada por abutres que querem ganhar alguma coisa desse ser de outro universo cultural.

Continua...


quarta-feira, setembro 08, 2004

Um post inútil

Numa discussão sobre encostos da universal, num dos renomados postos points de Franca, uns amigos e eu nos deparamos com um “mendingo” que tinha dois cigarros na mão e ficava olhando para eles e dizendo “paranóiaaaaaa” e soltando eles no chão, até que resolvia pagá-los novamente para refazer o mesmo ato diversas vezes.

Segunda (06 setembro) quando estávamos no Barba (uma lanchonete point de Franca), um cara de uns 50 anos, sai de uma caminhonete Nissan prata, vestindo só com um shortinho de ginástica, daqueles que eram moda nos anos 70, e com um tênis de corrida , entra no estabelecimento, compra um Tampico e sai correndo.

Meu pedido clássico no bar triangulo é uma feijoada, uma pinga de alambique e uma maça cabeça de bugre(refrigeréco).

Pra que escrever disso???

terça-feira, setembro 07, 2004

Post conjunto

"Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Nâo solta da minha mão"
(Los Hermanos)

Não vá embora, meu amor, não vá embora. Eu sou igual a você. Carne, osso, sangue, células. Dor e alma.

Eu preciso de você, tarde da noite, na tarde dos dias. Para repetir palavras de esperança que desconheço, para relembrar a beleza individual das coisas que nos cercam.

Só você sabe controlar meus impulsos destrutivos. Só você consegue equilibrar minha melancolia. Só você consegue me inocentar de meus erros, até os crassos. Só você consegue entender as entrelinhas - porque as coisas principais sempre ficam só nas entrelinhas. Só você que traduz a difícil linguagem dos silêncios absurdos, das madrugadas.

Nada mudou. Acredite em mim, nada mudou. Não precisa ir embora. Não agora. Que as tempestades apontam no horizonte. Que eu preciso de colo, carinho, chá quente e um pouco de dedicação.

Gosto do calor da ponta dos seus dedos. Preciso desse calor. É tão difícil admitir que precisa de alguém: e eu admito, eu preciso de você. Muito, muito mesmo.

Porque você me conhece e eu continuo o mesmo. Apesar de todos os defeitos e inconseqüências que fazem parte de mim.

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, setembro 05, 2004

Eles também são inocentes

O que falar do atentado à escola russa? A barbárie? A consternação? Que continua sendo absurda toda essa carnificina? Não, não serei clichê. Não hoje. Serei confuso, pois não consigo juntar tudo o que estou pensando no momento. Tentem, por favor, ordenar meus pensamentos dispersos da maneira que convir.

Sei que depois de todo mal, não há como permanecer como se era. A cura nunca é um retorno a um estado anterior. As cicatrizes. Imagino que, para os reféns, os jornalistas, os terroristas sobreviventes e os policiais, a vida nunca mais será a mesma. Quero chamar atenção aos policiais que invadiram a escola de Beslam. Quero chamar atenção ao que consideramos sucesso e fracasso.

Hoje, imaginei-me na situação daqueles soldados, entricheirados defronte à escola. Por horas e horas. Tensos. São crianças, não? Daí, uma multidão consegue fugir - e os terroristas começam a metralhá-las, sim, eles metralham as crianças que fogem. Escuta-se o som de uma bomba estourando lá dentro. Quem, com a incumbência de resgate, ficaria assistindo passivamente ao que poderia ser o desfecho final dessa situação crítica? Se eles tivessem ficado parados, o crime maior não teria sido essa imobilidade dos policiais, lavando as mãos como Pilatos? Enfim, nenhuma das medidas parece razoavelmente levar a um sucesso completo, qual delas escolher?

E aí?

Aconteceu o resgate. Vamos ao resgate. Das conseqüências, sabemo-as de cor: que muitas pessoas morreram, é verdade. Em letras garrafais. Ninguém esquece. Mas é preciso lembrar, ler nas entrelinhas com muito esforço que a maioria dos reféns (80%) foram, sim, salvos.

É preciso lembrar que nem sempre o ideal é possível. Nem sempre o perfeito é aquilo que podemos alcançar.

É preciso romper com essa visão medíocre de sucesso e fracasso. Esse mundo binomial de 0 e 1. De preto no branco. É preciso aprender a enxergar e valorizar o cinza, que 99% das coisas giram em função do intervalo entre esses limites.

Só para finalizar:

Já pensaram que para uma criança resgatada que dorme hoje, no conforto do lar, a ação foi um sucesso? E para uma mãe que não dorme hoje, cujo filho morreu no decorrer do mesmo salvamento, foi um fracasso? Penso: como será que o policial, que salvou uma e não conseguiu salvar a outra, fará esse balanço entre sucesso e fracasso?

Entenderam aonde quis chegar, nesse post confuso?

quinta-feira, setembro 02, 2004

Bicicletas

Todas as pessoas têm alguma coisa idiota que não conseguem fazer. Alguns não conseguem soltar pipa, outros não cozinham, outros não sabem dobrar uma camiseta para fazerem uma mala. Uma das coisas que venho me mostrando completamente incapaz de fazer é andar de bicicleta.

Eu como maioria aprendi a andar de bicicleta quando eu era criança. Devia ter uns seis, sete anos quando comecei a andar sem as rodinhas de apoio.

Lá pelos meus oito anos eu resolvi que iria andar de bicicleta num circuito de motocross. Barro, subidas, decidas, curvas acentuadas...Fiz o percurso inteiro, ou melhor, quase. Quando estava para fazer a ultima subida eu falhei. A inclinação do montinho era de mais de 60°, resultado, a criancinha gordinha foi vencida pela gravidade e quase no topo, foi descendo, descendo, descendo... até cair de costas e machucar a canela. Fiquei manco por dois dias.

Passado o trauma do motocross eu resolvi andar em ruas normais como todo mundo. Andei por um bom tempo até resolver que voltaria para casa. As ruas que levam à minha casa são inclinadas, e eu adorava sentir o vento no meu rosto. Eram sete quarteirões de decida livre.
Desci uma rua antes da minha casa, não conhecia aquela rua. A velocidade que eu estava devia ser de mais ou menos uns 40 por hora. E tinha uma pedra no meio do caminho, uma pedra bem grande que me fez cair e me arremessou contra arames farpados enferrujados.
Conclusão: Uma antitetânica e um braço quebrado.

Depois disso eu ganhei uma 21 marchas que foi roubada, uma 18 que também foi roubada e fiquei sem andar de bike até esse ano.

As duas vezes que eu andei com ela eu fodi a minha bicicleta.Há um mês eu quebro a maldita caixa de marchas, e agora devido a uma manobra evasiva contra um caminhão e minha possível morte consegui quebrar o aro e o freio.

O jeito é andar a pé.

Ipês e Setembro

"A primavera tem um significado especial pra mim: me lembra reconstrução. Primavera é a estação de juntar o que sobrou de você e falar: foda-se para o mundo, eu vou continuar, com toda força que tiver"
(Eu, em 26/09/03)

E os ipês amarelos, absurdos e belos, já estão arrebentando em flor. Acho fascinante a capacidade dos ipês se prepararem, na calada da noite, sem que ninguém perceba a suspeita movimentação. Comunicam-se em língua desconhecida, sincronizam-se, ensaiam seu show particular. E num dia inesperado, quando acordamos, encontramos todos os ipês da rua desnudos, apresentando as flores amarelo manga, saltando a vista. Um pequeno milagre que acontece bem defronte aos nossos olhos.

Fico fascinado com o ciclo dos ipês. Esqueço-me deles durante o ano todo e surpreendo-me anualmente com o mesmo ritual. Anunciando a primavera. Anunciando dias ensolarados. Anunciando dias tépidos e o início do renascimento da natureza.

Por isso que todo setembro, para mim, é um mês de esperança. A vida parece que se recupera, brota da terra e das calçadas. Depois de agourentos agostos, dias nublados e frios, solidão irreversível, vem setembro e suas flores. Vem setembro e uma esperança irresistível de recomeço. Vem uma vontade de abrir as janelas, deixar a brisa leve varrer o pó, o cheiro de mofo, a imobilidade.

Setembro é sempre o início de um novo ciclo. Escolher novos caminhos. Assumir novos riscos. E assim tenho feito, sem medo. Porque sei que mesmo que as flores do ipê murchem, há sempre a possibilidade delas voltarem na próxima estação...