sexta-feira, julho 30, 2004

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do pocó você vai descobrir quê". (Nos poços - Caio Fernando Abreu)

domingo, julho 25, 2004

Voltei de Curitiba. Nem preciso falar que a cidade é o sonho de qualquer um morar: aquele clima europeu convidativo, trilhões de restaurantes legais, uma arquitetura de cair o queixo, o sistema de ônibus organizado, uma cidade limpa e bem conservada, um sebo do tamanho da Siciliano de Uberlândia, um cinema de filme cult pra lá de legal...

Apesar das nossas péssimas instalações e do frio quase siberiano (pois é galera, aguentar cinco graus ao meio dia quando você SÓ levou dois moletons e uma jaqueta é meio dose), foi uma viagem inesquecível e altamente recomendável. Vou publicando ela devagarzinho lá no Cult-Wannabe.

Cumpri mais da metade dos objetivos que me propus e isso é bom. O saldo da viagem foi altamente positivo. Agora é só juntar grana para revelar as 80 fotos que eu bati por lá.

sexta-feira, julho 16, 2004

O filme que, até então se assemelhava com dramas iranianos sem emoção nenhuma, agora lembrou filmes de suspense B. Nos últimos cinco minutos, duas ou três reviravoltas aconteceram, aparentemente mudando toda a história que se arrastava.

O roteirista lamenta por não ter interferido em certos pontos relevantes da história, mas bota a culpa na inexperiência em escrever roteiros mais complexos. Lamenta também que as reviravoltas tenham afetado apenas núcleos secundários: a história central, com exceção destes respingos de mudança que inevitavelmente acabam por atingir toda a história, continua no ritmo iraniano de sempre.

Agora, o roteirista realiza inúmeros testes para a inserção de novos personagens, já que os atores em cena não tem mais a capacidade, por si só, de encaminhar o filme para um final que não seja morno e clichê. Talvez, a busca por novas locações, mais ao Sul, tragam novas idéias para abordagens e desfechos. Importante não esquecer que o tempo urge e é curto, já que a fita já passou da metade da duração inicial prevista...

***

Off-topic: viciei em "How soon is now", versão do Love Spit Love".

segunda-feira, julho 12, 2004

Porque no final das contas não sabemos quem é o culpado...
"A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal"


No início, tudo parecia como estava antes. Observava todos ao meu lado já sentindo os princípios da vertigem - dizem muito sobre essa tal vertigem de viver. Parecia que eu havia chegado atrasado à estação e perdido o trem. Parecia que eu havia ficado para trás. Entristeci. Repeteco de dias, anos passados. Eu não merecia. Eu queria mesmo era me libertar.

"You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us"


Joguei-me na cama, sem muita esperança. Estava suficientemente escuro. Estava suficientemente fracassado. Impotente. Foi aí que percebi. Foi quando senti a vibração da música na epiderme, na ponta dos dedos, nos fios de cabelo. O tempo mudou, descompassou.

"I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide"


Senti que voava. Senti meu corpo pesar tanto, tanto. Um peso tão insustentável que mover meus dedos já era um esforço absurdo. Mas flutuava, muito acima das casas, das luzes noturnas, das pessoas que adormeciam em seus lares. Senti o vento na cara, bagunçando o cabelo. Senti o frio da brisa da madrugada. Contemplava o mundo do alto, pequeno e distante, enternecido com tudo aquilo que eu via. Senti-me o dono do mundo. Senti que, tudo aquilo que contemplava, de certa forma era meu. Eu era parte do mundo, o mundo era parte de mim. Senti como se tudo que eu enxergava fosse mera extensão do meu corpo.

Sem perceber, adormeci.

"With no alarms and no surprises,
No alarms and no surprises,
No alarms and no surprises,
Silent, silence..."


(No Surprises - Radiohead)

sexta-feira, julho 09, 2004

"If I get old
I will not give in
But if I do
Remind me of this

Remind me that
Once I was free
Once I was cool
Once I was me"

(Radiohead)

A idéia de envelhecer me desespera. Quando vi, todos os meus amigos já estavam dirigindo, meu irmão começou a sair a noite, minha idade irá mudar de dígito.

Eu me aproximando da metade do curso, sem saber direito se é isso mesmo que eu quero fazer pelo resto da vida.

Eu, que nem alcancei a metade dos meus objetivos. Que nem dei um jeito na minha vida. Que se sente ainda à deriva.

Não sei se, quando envelhecer, terei muita coisa para lembrar. Tudo o que pego, respiro ou vivencio nunca teve a capacidade de imprimir sua marca por mais de três anos. E isso é muito, muito deprimente.

Acho que serei um velho sem memórias. Por isso, quero morrer antes disso.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, julho 05, 2004

Vivo no binômio:

pessoas são legais versus pessoas são cruéis
preciso dos outros versus sou auto-suficiente
mania versus melancolia
confio demais versus desconfio demais
me amo versus me odeio
então versus porém

sábado, julho 03, 2004

Diálogos Perigosos 2

- Somos profundamente covardes.
- É porque trituraram nossos sonhos, reduziram-nos a pó.
- E não nos sobrou nem a inocência de consolo...
- É porque ninguém permanece inocente quando perde algo que quer.

quinta-feira, julho 01, 2004

"E vi que nada tinha mudado. Continuamos perdidos como estávamos. Tudo continua complicado ou só chato mesmo. Ainda não sabemos o que estamos fazendo aqui... E vi também que mudou tudo. Nada é como era antes"
(Maria Anita S. Leite)

Tudo ainda permanece num eterno estado de mudança. Ainda me surpreendo com suas palavras acertadas, escolhidas tão a dedo sabe lá de onde. Ainda me surpreendo com seu silêncio tão preciso. Ainda me surpreendo cotidianamente, quando as conversas ficam triviais ou sérias, leves ou conspiratórias, sobre presente e futuro.

Não há nada melhor no mundo que essa capacidade de surpresa. É uma benção. Ainda mais quando somos forçados a engolir um cotidiano que nos esmaga, afasta-nos de tudo aquilo que verdadeiramente vale a pena nesse mundo.

É por isso que lhe sou muito grato e me dou ao direito de desejar aquelas coisas idiotas, tão idiotas de tão boas.

Acredito que essa terceira década vai vir melhor, sim. Acredito, pois você já está se habituando com as regras do jogo, já sabe enxergar melhor as pessoas. Você está evoluindo.

Já, já, vai ter dinheiro para comprar o box do Arquivo X. Todos eles, porque não? Um sobretudo para dias londrinos, uma road-tripping pelo Sul, um cachecol vermelho, Machu Picchu. Todas essas coisas materias que valem muito mais que aparentam.

Já, já, vai abrir mão das reticências e se libertar, transformar todo peso em leveza. As incertezas, as defesas, os silêncios incômodos, jogar tudo pela janela e nem ligar. Vai finalmente acender a luz e perceber todos os caminhos que se escondiam além das sombras. Que provavelmente nem é preciso ir muito longe, que a salvação sempre esteve escondida no quintal. Que há um lugar além do arco-íris.

Só sei que é preciso ter muita esperança e fé. É preciso ter muita perseverança e paciência, enquanto tudo não acontece. Mas desconfio que, no fim de todo processo, vai valer a pena.

Nesse dia Anita, agradeço pela confiança, pelas horas de atenção. Por estar, de certa forma, acompanhando meu crescimento, aparando tudo aquilo que ameaça sair para fora. Agradeço pelos posts conjuntos, as conversas descompromissadas. Por tudo, só para generalizar as outras coisas importantes.

Estamos todos nos movendo sim, mais rápido que os continentes. Espero que você perceba. Espero que você abra a janela hoje e sorria, percebendo que ainda estamos perdidos: mas, pelo menos, num estado ligeiramente melhor...

Feliz aniversário.