domingo, junho 06, 2004

Vamos retomar o princípio de tudo, o princípio de todos os erros: minha maldade está voltando porque não consigo retirar dos outros aquilo que me basta para viver e resignar-me deixou de ser uma opção. E sinceramente tenho medo dos futuros encaminhamentos. E quem me conhece, sabe disso.

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Este comentário da Suzete merece virar post: (é longo, eu sei. Mas merece ser lido até o final)

Gabriel,

Essas suas cartas são genuínos atos de coragem. Sabe que muitas vezes pensei que coragem maior é a de, mesmo não se conhecendo, prosseguir? Que é fatal não se conhecer, que não se conhecer exige também muita coragem? Você, para encontrar coragem, para pôr fim ao silêncio, preferiu me fazer seu interlocutor imaginário. É preciso coragem para fazer isso, rapaz. Coragem danada. Você foi enganado. Não sou a pessoa certa. Percebeu que sempre falei para o nada e para o ninguém? Pediram demais de minha coragem só porque me achavam corajosa. Pediam minha força só porque me achavam forte. Eu fui um coração desprotegido. Sabe quem veio à minha fraqueza? Ninguém. Como te compreendo, rapaz! A coragem dá esperança. Sabia que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta? E que o ato de perguntar, de inquirir, de perseguir resposta é uma forma privilegiada de coragem? Lendo suas cartas, lembrei de um rapaz, jovem como você, que me fez uma pergunta difícil de ser respondida.

Perguntou assim, assim, do nada: o que é a angústia? Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria -- o que também é uma forma de angústia. Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia -- e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda. Conversa estranha essa. Não respondi e não te acolhi. Só aprendi a perguntar, a desnortear. Sina. Não aprendi quase nada: nem dizer adeus. Talvez, só ouvir.

Clarice

(Suzete, não sei como te agradecer...)

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