sexta-feira, junho 04, 2004

Cartas desconexas em cinco partes

#5/5 - A despedida

Cara Clarice,

Não há como dizer adeus. Não há como enterrar o defunto depois de exumado. Apaixono-me pelas coisas que carrego. Acumulo papéis inúteis na prateleira, com a desculpa de possível precisão futura. Guardo livros usados, canetas sem carga, rascunho de textos, roupas antigas, tudo, tudo. Guardo, porque não sei me livrar das coisas. Mesmo aquelas que pesam, incomodam, são impossíveis de serem abandonadas.

Eu não sei dizer adeus. Eu não aprendi a dizer. Eu não consigo.

Por isso me afasto, lentamente, antes que percebam meu primeiro passo.


(Estas "cartas" foram as coisas mais sinceras que já escrevi...)

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