sábado, junho 19, 2004

"A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa"
(O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger)

Tive uma das experiências mais significativas dos últimos tempos. Conversamos com Olívia Calábria, uma simpática senhora de 91 anos, militante feminista e comunista, indicada ao Nobel da Paz 2005. Conversa curta, na verdade: pouco mais de uma hora, que poderia se estender por muitas mais.

Uma senhora frágil e imóvel em seu sofá. Falava cochichando. Mas de uma fala apaixonante. São poucas pessoas que chegam a casa dos noventa anos tão lúcidas e bem-humoradas como dona Olívia. Que nos recebem em sua casa, dispostas a contar um pouco sobre sua vida. De dizer, com orgulho, que lá pela década de quarenta bateu no delegado com uma sombrinha e ficou presa por um mês na cadeia. Que morou dois anos na Rússia, a mando do Partido Comunista, para estudar Dialética e História. Contou como as batatas são cultivadas no inverno, de como as vacas são cuidadas na Rússia, que não namorou ninguém por lá. Que conheceu Luís Carlos Prestes pessoalmente.

Depois de quase uma hora, viu-se cansada e exaurida. Quando sinalizamos que iríamos embora para poupá-la, ofendeu-se: "Não, eu ainda aguento muito mais".

Eu vi o retrato de alguém que viveu e ainda vive verdadeiramente em função de alguma coisa. Sabe porque vive, sabe porque luta e diz isso com orgulho. Com certeza, precisarei visitar dona Olívia mais vezes para consolidar alguns conceitos. Meu caráter. Minha coragem. A renúncia dos caminhos indolores.

Sinto-me cada dia mais como Holden e suas evoluções. Como se estivesse contemplando o Carrossel. Como se viesse a chuva e tudo começasse a fazer sentido. Como se o Gabriel melancólico e suicida estivesse partindo, abrindo espaço para outras abordagens...

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