quarta-feira, junho 30, 2004

Já é tarde, muito tarde, meu amor...

Bebi: pinga (de boa qualidade) + cerveja (Bohemia)

Escutei: Shiver (Coldplay) + No Surprises (Radiohead) + Creep (Radiohead) + Sparks (Coldplay).

Misturei com: frustrações recorrentes, solidão na madrugada, falha na tradução.

E daí...

Diálogos perigosos 1

- Então sorria.

- Não posso...

- Porque?

- Porque a renúncia é a minha única forma de salvação.

- E você acha que só negar as coisas vai te levar a algum lugar?

- Não sei. Mas já tomei bordoada demais da vida tentando construir alguma coisa. E isso, sinceramente, não me levou a lugar algum.

terça-feira, junho 29, 2004

"So maybe tomorrow
I'll find my way home"

(Maybe Tomorrow - Stereophonics)

Hoje quero ser gato de rua. Bêbado com amnésia. João sem bolinhas de pão, Teseu sem a corda que o conduz para fora do labirinto.

Quero esquecer de onde vim, para onde vou. O rosto daqueles que gosto, daqueles que não gosto também. Quero fechar os olhos e prosseguir às escuras, até alcançar terras que não conheça. E não me conheçam também.

Quero me entorpecer com tudo aquilo que é novo. Recriar. Reviver.

Quero me surpreender com uma nova palavra, uma nova música, uma outra estação. Um outro naipe do baralho. Uma outra previsão da cartomante.

Quero perder as contas e o senso. Quero deixar os badulaques que carrego. Esquecer as potências, a trigonometria, as arritmias. Os desejos reprimidos, a agressividade poupada, as falhas de caráter.

Quero regredir. Involuir. Retroceder.

Para talvez amanhã voltar para casa. Hoje, pelo menos, não.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, junho 28, 2004

Hoje é aniversário do Leo. E o Leo merece um post legal, apesar da minha atual falta de criatividade.

O Leo é aquela pessoa que você pode verdadeiramente considerar um amigo. Amigo mesmo. Não só amigo de buteco, amigo de maldades, amigo de dias leves na Cultura, comendo coxinha da tia Su e falando sobre Belle and Sebastian. É tudo isso e mais um pouco.

O Leo é o cara mais leal que eu conheço. Foi uma das poucas pessoas que ficaram ao meu lado nas horas difíceis. Teve paciência de escutar zilhões de vezes as mesmas neuroses, sem reclamar. Teve o timing de amortecer vários baques e só me repassar na hora certa. Já está me suportando há nove anos, sem nenhum desentendimento.

O Leo é o cara mais corajoso que eu conheço. Suporta uma tortura psicológica que não sei se eu daria conta. Tá lá, batalhando no cursinho. Tá lá, olhando pacientemente na janela esperando as tempestades passarem.

O Leo é o cara mais divertido que eu conheço. Nunca vi recusar farra. Para beber, para andar à toa. Para montar set list de festa ou discutir o eterno retorno de Nietzche.

E eu aqui, sem saber o que falar e eu quero dizer tanta coisa, droga!

Espero que muita coisa mude nesses seus dezenove anos. Que você aprenda a fazer balizas. Que você passe em qualquer lugar legal e longe de Franca. Que você ainda seja mais corajoso, mais resistente. Que consiga vencer o peso sem ficar leve demais. Que você descubra outras bandas muito legais e me conte depois. Que você não sinta mais nenhum vestígio de auto-destruição. Que as maldades não mereçam castigo e continuem na diversão habitual. Que você tome mais tequilas e Alexanders. Que a gente volte ao Pinguim, tome aquele canecão de chopp enorme, mais rápido possível.

Feliz aniversário, cara.

sábado, junho 26, 2004

Ando meio ausente, as desculpas de sempre: tempo, falta de internet. Enfim.

Ando profundamente chateado porque estou perdendo as coisas com uma freqüência maior que a normal. Minha agenda. Minha carteira. As coisas parecem que somem debaixo do meu nariz. Eu esqueço onde as coloquei.

Sinto-me que ando me perdendo aos poucos...

quarta-feira, junho 23, 2004

"The demolition still can be a lot of fun
Someone should tell me that I'm done
I feel so far away from home
Always so far away"

(Grandaddy)

Botar minhas paredes abaixo é o que mais tenho feito nesses últimos meses. Porque, se externamente não encontro caminho algum, o caminho agora aponta para dentro. Assim tenho feito, assim tenho sobrevivido.

Faço isso por motivos conscientemente desconhecidos. Mas, inconsientemente, é a minha tentativa de refazer os caminhos, de reencontrar o ponto aonde a inocência ficou para trás, quando as palavras pesaram e passaram a significar muita coisa além do que elas mereceriam ou deveriam.

Todas essas minhas tentativas se resumem num esforço em voltar a um estado anterior. Melhor. Mais brilhante e suportável.

Mas a impressão que tenho é que, apesar dos meus esforços, todas essas coisas parecem ficar cada vez mais longe...

Post conjunto com o Sete Faces

sábado, junho 19, 2004

"A característica do homem imaturo é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto que a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa"
(O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger)

Tive uma das experiências mais significativas dos últimos tempos. Conversamos com Olívia Calábria, uma simpática senhora de 91 anos, militante feminista e comunista, indicada ao Nobel da Paz 2005. Conversa curta, na verdade: pouco mais de uma hora, que poderia se estender por muitas mais.

Uma senhora frágil e imóvel em seu sofá. Falava cochichando. Mas de uma fala apaixonante. São poucas pessoas que chegam a casa dos noventa anos tão lúcidas e bem-humoradas como dona Olívia. Que nos recebem em sua casa, dispostas a contar um pouco sobre sua vida. De dizer, com orgulho, que lá pela década de quarenta bateu no delegado com uma sombrinha e ficou presa por um mês na cadeia. Que morou dois anos na Rússia, a mando do Partido Comunista, para estudar Dialética e História. Contou como as batatas são cultivadas no inverno, de como as vacas são cuidadas na Rússia, que não namorou ninguém por lá. Que conheceu Luís Carlos Prestes pessoalmente.

Depois de quase uma hora, viu-se cansada e exaurida. Quando sinalizamos que iríamos embora para poupá-la, ofendeu-se: "Não, eu ainda aguento muito mais".

Eu vi o retrato de alguém que viveu e ainda vive verdadeiramente em função de alguma coisa. Sabe porque vive, sabe porque luta e diz isso com orgulho. Com certeza, precisarei visitar dona Olívia mais vezes para consolidar alguns conceitos. Meu caráter. Minha coragem. A renúncia dos caminhos indolores.

Sinto-me cada dia mais como Holden e suas evoluções. Como se estivesse contemplando o Carrossel. Como se viesse a chuva e tudo começasse a fazer sentido. Como se o Gabriel melancólico e suicida estivesse partindo, abrindo espaço para outras abordagens...

terça-feira, junho 15, 2004

"We will go our way
We will leave some day
Your hand in my hand
We will make our plan
We will fly so high
Tell all our friends goodbye
We will start like new
This is what we'll do"
(Go West - Pet Shop Boys)

Um dia irei. Um dia irei embora, finalmente, vou deixar tudo que me prende para trás. Vou arrumar todos os instrumentos, vou esvaziar as malas pesadas, vou criar coragem e sair pela porta fora. Vou superar os traumas. Vou abandonar os medos e partir.

Vou deixar as intermináveis aulas de Semiologia. Vou deixar os babacas de internet para trás. Vou deixar minha impaciência velada com os outros. Vou deixar que pensem o que quiserem de mim. Vou contar as verdades, letra por letra, sem medo delas ferirem quem me cerca. Vou afogar as mentiras, num enorme balde de água. Vou espantar os fantasmas. Vou abrir as janelas. Vou ser tudo o que conseguir ser.

Hoje eu acredito que ainda tenho força nas pernas. Sabem, eu acredito em mim. Eu acredito que, um dia, eu conseguirei transformar a imobilidade em movimento. Eu acredito que estou fazendo o melhor, estruturando-me para um futuro promissor. Acredito que as companhias serão me muita valia, mas o mais importante nesse processo todo serão os passos solitários. Porque, para onde quero ir, precisarei caminhar sozinho.

Anotem: eu conseguirei. Apesar de todos os tropeços e contratempos. Apesar de me alertarem dos perigos. Apesar de tudo. Vou reunir forças sabe lá de onde e levantar vôo. Direi adeus e partirei. Cortar as amarras que me prendem e flutuar...

Post conjunto com o Sete Faces

sábado, junho 12, 2004

Estou com uma grave impressão de imobilidade. 2004 já se aproxima do seu meio sem que a grande maioria das coisas importantes desse o menor sinal de mudança.

Como em todo filme, os personagens já estão apresentados e esperamos ansiosos pelo desenvolvimento do enredo. Só que o enredo não evolui. Sinto que os personagens estão prontos e bem caracterizados, mas faltam as falas para o filme prosseguir seu desenrolar e sua conclusão.

Desconfio que o roteirista caiu na tentação de apelar ao improviso e deixar o barco correr do jeito que o destino quisesse. Ele lavou as mãos e decidiu não interferir na história. Acreditou que cada personagem sabia seu papel, sua participação geral, e que o único trabalho que ele teria era encaminhar as ações da forma que lhe agradasse. Mas isso não aconteceu.

Tudo permaneceu parado. Como conseqüência imediata, o roteirista desinteressou-se pela história e hoje ameaça procurar outros roteiros para escrever.

E 2004 prossegue, ausente das novidades necessárias...

quinta-feira, junho 10, 2004

"Believe, believe in me, believe
that life can change, that you're not stuck in vain
we're not the same, we're different tonight
tonight, so bright"
(Tonight, Tonight - Smashing Pumpkins)

Abra os olhos e veja tudo isso que está à frente. É de uma simplicidade ridícula e óbvia: a possibilidade de mudança. Hoje me sinto possuidor de coragem e do leve toque de transformação, de reforma, de botar as paredes abaixo. Hoje sinto-me suficientemente hábil para alterar, devagar, essa realidade que eu estou vivendo e parece não ter muitas alternativas.

Hoje o mundo todo sorri uma esperança vaga, porém clara e concisa. Consegui perceber que não vivemos em realidades-estanque, consegui perceber que as coisas estão em movimento e com um (sutil?) empurrão também podemos colocar nossa impressão de movimento nas coisas.

Sabe, os dias de lamentação gratuita precisam chegar ao fim. Sabe, o equilíbrio é a melhor qualidade que alguém pode possuir. Sabe, não existe receita pronta de salvação. Sabe, o mais importante e essencial, não se pode ter medo da mudança.

Agora veja a mim, veja você, veja todas essas estrelas: hoje a noite é diferente. Veja também: hoje também somos diferentes. Acredite em mim, hoje a vida pode mudar.

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, junho 06, 2004

Vamos retomar o princípio de tudo, o princípio de todos os erros: minha maldade está voltando porque não consigo retirar dos outros aquilo que me basta para viver e resignar-me deixou de ser uma opção. E sinceramente tenho medo dos futuros encaminhamentos. E quem me conhece, sabe disso.

******

Este comentário da Suzete merece virar post: (é longo, eu sei. Mas merece ser lido até o final)

Gabriel,

Essas suas cartas são genuínos atos de coragem. Sabe que muitas vezes pensei que coragem maior é a de, mesmo não se conhecendo, prosseguir? Que é fatal não se conhecer, que não se conhecer exige também muita coragem? Você, para encontrar coragem, para pôr fim ao silêncio, preferiu me fazer seu interlocutor imaginário. É preciso coragem para fazer isso, rapaz. Coragem danada. Você foi enganado. Não sou a pessoa certa. Percebeu que sempre falei para o nada e para o ninguém? Pediram demais de minha coragem só porque me achavam corajosa. Pediam minha força só porque me achavam forte. Eu fui um coração desprotegido. Sabe quem veio à minha fraqueza? Ninguém. Como te compreendo, rapaz! A coragem dá esperança. Sabia que a esperança consiste às vezes apenas numa pergunta sem resposta? E que o ato de perguntar, de inquirir, de perseguir resposta é uma forma privilegiada de coragem? Lendo suas cartas, lembrei de um rapaz, jovem como você, que me fez uma pergunta difícil de ser respondida.

Perguntou assim, assim, do nada: o que é a angústia? Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria -- o que também é uma forma de angústia. Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia -- e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda. Conversa estranha essa. Não respondi e não te acolhi. Só aprendi a perguntar, a desnortear. Sina. Não aprendi quase nada: nem dizer adeus. Talvez, só ouvir.

Clarice

(Suzete, não sei como te agradecer...)

sexta-feira, junho 04, 2004

Cartas desconexas em cinco partes

#5/5 - A despedida

Cara Clarice,

Não há como dizer adeus. Não há como enterrar o defunto depois de exumado. Apaixono-me pelas coisas que carrego. Acumulo papéis inúteis na prateleira, com a desculpa de possível precisão futura. Guardo livros usados, canetas sem carga, rascunho de textos, roupas antigas, tudo, tudo. Guardo, porque não sei me livrar das coisas. Mesmo aquelas que pesam, incomodam, são impossíveis de serem abandonadas.

Eu não sei dizer adeus. Eu não aprendi a dizer. Eu não consigo.

Por isso me afasto, lentamente, antes que percebam meu primeiro passo.


(Estas "cartas" foram as coisas mais sinceras que já escrevi...)

quarta-feira, junho 02, 2004

"I'm not as sad as Dostoievisky,
I'm not as clever as Mark Twain,
I'll only buy a book for the way it looks,
And then I stick it on the shelf again"
(This is just a modern rock song - Belle and Sebastian)

No fundo mesmo, eu gosto de coisas baratas. Por mais que queira ler autores russos, grandes épicos, o que verdadeiramente me agrada e prende é o Harry Potter, ou uma literatura barata qualquer.

Eu tomo Nova Schin sem fazer muita careta. Tomo Chapinha achando que aquilo é vinho de verdade.

Não vejo muita graça em Kubrick. Mal conheço os papas do cinema. Só sei que assisto os blockbusters de Hollywood e adoro. As comédias pastelão, os filmes catástrofes. Tudo aquilo que os críticos torcem o nariz.

Odeio comida japonesa. Não conheço e nem tenho muito interesse na culinária internacional. Mas adoro um fast-food, as churrascarias, o sanduíche que qualidade duvidosa das barraquinhas do pronto-socorro.

Julgo livros e CDs pelas capas. Ou a parte pelo todo.

Sou fã dos seriados americanos e até assisto as novelas vez em quando. Troco o Jornal Hoje pelo Bob Esponja. Os textos politizados da net pelo Orkut.

Sou composto de gostos e pensamentos tão baratos. Fúteis, triviais, comuns. E não há como fugir disso, por mais que eu queira e me esforce.

Post conjunto com o Sete Faces