domingo, maio 30, 2004

Cartas desconexas em cinco partes

#4/5 - As mãos atadas

Cara Clarice,

O que eu mais queria dizer era para não fazer isso, para deixar para lá. Que o silêncio não é covardia, nem auto-preservação é algo tão deplorável que merecesse passagem imediata ao inferno.

Queria pegar no colo, afagando, e dizer que vai passar, explicar que no caminho de lá as coisas são dolorosas e feias mesmo, que era melhor ficar do lado de cá do muro enquanto nossa consciência permitir. Colher as lágrimas com a palma das mãos, recolher os soluços num enorme tubo de vidro e fazer adormecer nos meus braços, da forma mais paternal possível.

Queria dizer que há toda beleza do mundo nesta caminhada, mas o mundo não merece toda essa sua beleza, pelo menos neste presente momento. Que é preciso reservar toda a beleza, esperá-la passar sem sobressaltos ou avisos, é preciso guardá-la como um segredo e revelá-la em doses homeopáticas, 12 CH.

Queria dizer essas coisas e tantas outras mais. Mas eu não posso Clarice, simplesmente não posso. E essa incapacidade me tortura. Estou de mãos atadas, com medo de salvar alguém que se afoga e ser tragado para o fundo do mar, juntamente. Culpando-me por não salvar, culpando por me submeter a ser mero espectador de uma possível agonia em praça pública.

É tão doloroso observar o sofrimento alheio, escutar os gritos e você não poder oferecer nem um mero paliativo.

É desesperador estar amarrado, amordaçado, tolhido das palavras mais essenciais de ajuda. Porque sei que aquele caminho é tortuoso e perigoso, que haverá muito sangue derramado no chão, que os pés farão bolhas e as estrelas desaparecerão do céu, se não houver ninguém para dizer: continue. Persista. Não olhe para baixo ou para trás.

O que mais dói nessa rotina de existir é quando temos asas, mas não podemos voar. Ou quando temos as palavras, mas não as podemos dizer. Ainda que por covardia. Ainda que por auto-preservação...

quarta-feira, maio 26, 2004

"My words and smile are so easy now
Yes, It's easy now
Yes, It's easy now"
(Franz Ferdinand)

Agora, de certa forma, tudo faz um pouco de sentido. E quando as coisas fazem um mínimo de sentido, ficam mais fáceis.

Há dias que acordo numa felicidade silenciosa e inexplicável, como se houvesse algo grandioso e imponente a minha espera. Sem nenhum motivo. E esses dias se repetem numa frequencia cada vez maior.

Hoje meus passos são mais seguros e firmes. Aprendi a me conformar ativamente, aprendi que com paciência chega longe.

Aprendi até a me desesperar sem perder o foco da maioria das coisas que me sou atento. Ainda me decepciono com os outros, mas agora tenho suficientemente me bastado.

Não espero mais muita coisa dos outros. Só o possível. Só o provável. Só aquilo que a pessoa realmente me oferece. E isso também tem me bastado.

E se fodeu, que se foda logo de uma vez. Eu sinceramente não me importo.

Porque as coisas estão mais fáceis, sim. A casa está se organizando, os jardins quase aparados, as janelas abertas. Continuo à espera, é verdade. Mas nem de longe ela me incomoda. Sorrio, cada vez mais facilmente.

Post conjunto com o _Sete Faces_

sábado, maio 22, 2004

Carta desconexa em cinco partes

#3/5 - Esperanças

Cara Clarice,

Mas parece até paradoxal alguém racional e cético ter essa necessidade de acreditar em alguma coisa. Eu sou do tipo que se entrega vertiginosamente a uma esperança, a primeira sincera e simples que aparecer em minha frente. Sem medo do tombo. E vivo exclusivamente dela. Em extase. Extraindo dela todas as possibilidades, todos os desfechos possíveis, por mais irreais que eles pareçam.

Não consigo viver sem a sombra de uma esperança. Mesmo que pálida. Ainda que inconclusa. Eu sobrevivo construindo histórias, materializando-me dentro dos meus anseios: é a minha forma mais secreta de obter prazer. Mais íntima. Mais silenciosa e efetiva. Perco-me conscientemente dentro delas, sem prazo definido para voltar.

Também seria pecado escrevê-las ou verbalizá-las. Porque não as domino: sou mero escravo das minhas esperanças vãs. Não tenho qualquer controle, são elas que me possuem e me consomem. Repasso fragmentos e impressões, aquilo que escapa de seu controle. Mas é tão pequeno e sutil, que desapercebem-se dentro de tantas coisas a se perceber.

E há o final. Há sempre o final. Há sempre o momento que a esperança se torna insustentável e afunda, comigo junto. Há sempre o momento do "choque de realidade". Daí eu quase morro junto, arrasto-me por alguns dias em carne viva. Porque eu me entrego vertiginosamente a alguma coisa, porque eu deposito minha alma em tudo que me cativa. Eu aposto diariamente aquilo que me é mais valioso e desconheço o que seja, aposto diariamente porque vivo buscando uma espécie de salvação externa.

Sobrevivo de esperanças enquanto não posso ser salvo.

terça-feira, maio 18, 2004

Carta desconexa em cinco partes:

#2/5 - Fraquezas e coragem

Cara Clarice,

Pois confesso que hoje assisti a um quase milagre, não daqueles enormes e bíblicos. Assisti a um milagre diminuto e quase imperceptível, escondido debaixo daquele nosso habitual vai e vem cotidiano. Hoje vi uma fraqueza soar como coragem logo depois que foi pronunciada, como a água que se transformou em vinho por um gesto mágico qualquer.

Eu acredito que somos construídos de mil fraquezas e poucas coragens, que sobrevivem em um complicado equilíbrio. Infinitas limitações e raras possibilidades de expansões. Por isso somos tão defensivos, temos que proteger nossas fraquezas, temos que isolar nossas limitações.

E vou te contar o milagre agora: displicentemente, a fraqueza escapou-lhe pela boca. Desconheço as razões, o background. Não importam os fatos anteriores. Só sei que, para desencostar a fraqueza do refúgio em que ela se encontrava, precisou-se de toda coragem que a pessoa possuia. Quando a fraqueza apareceu, já não mais era fraqueza: era coragem pura, boa, viva, daquelas que só de se escutar já alivia os pulmões, ri-se melhor das pequenas piadas do dia.

Foi uma transformação tão gratuita e inesperada que me assustei de início, mastiguei por horas e horas na compreensão dos mecanismos, para no final não conseguir dormir. Não, não fiquei pensando nisso. Mas revivendo na pele um quase milagre, não mais como protagonista: agora, como espectador distante, que reconhece a dificuldade de enxotar certas fraquezas para fora.

Quando se cortam as primeiras cordas e inicia o desejo de vôos mais altos...

domingo, maio 16, 2004

Carta desconexa em cinco partes:

#1/5 - Dos instintos

Cara Clarice,

Querida, agora eu acredito. Já havia lido coisa ou outra em técnica de planejamento, visão instintiva. Ou vagamente em conversas de botequim, teorias vagas e inconclusas. Nunca levei a sério. Nunca me parei para ver onde minha bússola particular apontava: e ela sempre apontava para algum lugar. Eu racionalizava, inutilmente, as direções da bússola. Racionalizava tanto que acabava desconsiderando as direções, por falta de substrato, por falta de acreditar na minha sintonia. Para todo crime, eu precisava do corpo. Para todo sintoma, precisava de um agente. Não havendo, não existia verdadeiramente.

Passaram-se anos e anos então.

Daí, houve o estalo: eu estivera sempre certo e minha necessidade de claridade havia escurecido tudo. Já era tarde demais para correr atrás do tempo perdido, mas a lição ficou. Os arrependimentos, felizmente, não ficaram. Porque eu havia feito aquilo que me era possível e suportável no momento, não haveria como cobrar mais de mim. Então, respirei mais lentamente e tentei escutar mais longe. Olhos atentos. O coração batendo. E outras direções foram aparecendo, depois de passado o desespero inicial.

Já estou pensando menos e isso é um avanço...

quinta-feira, maio 13, 2004

Fico pensando na minha constituição passada, tudo aquilo que me magoava e agora não me magoa mais. Todas as coisas que deixei de ligar, que ficaram para trás esquecidas, que as mãos cansaram de carregar.

Mudamos conforme a necessidade. Queratinizamos. Formam-se calos. Anestesiamos os sentidos. Submetidos à força maior, os músculos hipertrofiam. Aprendemos a resistir, a esconder. A criar engenhosos mecanismos de auto-preservação.

Fico pensando em tudo que nos impele a evoluir e tudo aquilo que ainda temos que deixar para trás.

Todos os deliciosos pecados, os comentários infames, as crenças pueris, os medos infundados, as personalidades dissonantes, os problemas arquivados, as irresponsabilidades inconfessáveis, os passos em falso.

Fico pensando que, no final, nada nos resta a não ser a capacidade de renúncia. Somos constituídos para desistir, para partir e desencontrar.

Fico pensando que tudo acontece mecanicamente, instintivamente e a única coisa que me restou a fazer foi suspirar e prosseguir em frente.

Às vezes, odeio estes mecanicismos. Mas fico pensando que este é o fluxo natural das coisas e que esse tipo de preocupação é daquelas que precisa ficar para trás.

terça-feira, maio 11, 2004

"It is never too late to be what you might have been"
(George Eliot)

Eu ainda acredito no futuro. Apesar de todos os pesares, eu ainda acredito que amanhã vai ser melhor, serei salvo de alguma maneira idiota, simples, que nunca teria nem imaginado, e tudo vai melhorar.

Reconheço que sim, houveram erros no passado, mas nenhum que fosse tão grave que tornasse a vida irremediavelmente desastrosa. E ainda mais, é bem provável que eu fizesse as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, da mesma forma. A gente não muda. Só evoluímos.

Acredito que, depois de muito esforço, vamos ser quase tudo aquilo que queríamos, com algumas alterações necessárias. Teremos aprendido a renunciar com mais facilidade, a solidão não incomodará tanto, seremos mais tolerantes. Conquistaremos nosso espaço, chegaremos o mais próximo possível da independência, trancaremos os fantasmas no armário e perderemos as chaves.

Porque ninguém está preso a um único caminho, que dele não possa sair na hora que bem queira. Existem desvios, atalhos, passagens subterrâneas, encruzilhadas. Só é preciso estar atento, ler todas as placas e indicações, mesmo aquelas que não seguirmos.

Voltar quando for necessário e não ter medo disso.

Acredito inocentemente que tudo termina bem no final, e se não está bem é porque ainda não terminou. Sei que é clichê, mas desejo que isso seja a mais pura verdade.

Post conjunto (e otimista, porque não?) com o Sete Faces

sábado, maio 08, 2004

1 - Post esquecido na gaveta

Sinto uma necessidade imensa de viajar nessas férias. Conhecer gente nova, torcer para que coisas boas aconteçam, esperar a poeira de outras não tão boas baixar. Conferir se o Sol das outras pessoas também brilha do mesmo jeito, trocar sotaques, essas coisas...

Mas também é curioso como não me senti animado para viajar com minha sala para Guarapari. Nem um pingo. Não que a galera seja ruim, não que Guarapari fosse um lugar ruim de se conhecer. Apesar do mar, da praia e dias de ócio coletivo longe de Franca, essa Guarapari não estaria suprindo as minhas necessidades mais urgentes: várias respostas que o pessoal da minha sala não poderia me responder. Por isso, não vou gastar um dinheiro que não tenho (e vai ser importante no futuro) para provar que estou errado.

Minha bússola e vontades apontam para outros lugares: final de semana com tudo que eu tenho direito em Ribeirão Preto, a exposição do Pablo Picasso em São Paulo... Mesmo sozinho. Boa companhia também não seria recusada, lógico. Comprar o CD do Belle e Sebastian que virou sonho de consumo, ir ao cinema, comer algo que nunca experimentei, encontrar de novo o amor...

Mas a realidade é outra: tenho que voltar à Uberlândia, por força do PET, no domingo, por longos três dias. Para encontrar com algumas pessoas que eu gosto muito, mas outros preocupados demais com oficinas, bolsas, estágios... Pessoas que estão preocupadas com coisas importantes e concretas, muito longe das minhas dúvidas simples e triviais. Se fossem mais de três dias, acho que não iria aguentar.

Há fevereiro. Minha maior esperança está em fevereiro. Quando eu voltar de Uberlândia já vai ser fevereiro e fevereiro vai ser melhor. Estou sentindo. Vai ter aniversário, Ribeirão Preto, Sampa (com um pouco de fé), Belle e Sebastian e novas expectativas. O suficiente para apagar janeiro, varrer toda essa poeira para muito, muito longe.

Mas Guarapari não. Boa viagem a todos, prefiro ficar por aqui. E não tive como não deixar de ficar orgulhoso de mim mesmo: trocar o complexo e duvidoso pelo certo e simples. Uma pequena lição, para uma pessoa que é mestra em complicar demais o que não precisa...

(janeiro/2004)

sexta-feira, maio 07, 2004

O blog está em sofrimento. Agonizante. O Weblogger a cada dia mais problemático. Eu, sentindo-me cada vez menos identificado com tudo aqui. Necessitando mudanças urgentes. Princípios de mudanças urgentes do lado aqui de fora também.

Existem aquelas verdades que caem na testa, como piano, sim. São ótimas. Mas no meu caso específico, ela despencou faz tempo. Já tenho todo um plano, de ganhos e riscos traçados. Falta escolher os caminhos: onde, quando, como. É impossível, sem alterar a estrutura da minha vida. Só botando tudo abaixo. E isso demanda muito mais energia que possuo no momento.

Queria agradecer a Carolina, pelo post maravilhoso de quarta.

Por enquanto, é só isso.

"Se for pra se arrepender, que seja por não ter dado o tiro e ter morrido logo em seguida"
(Carolina)