domingo, abril 18, 2004

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma..."

(Cecília Meirelles)

Cara Clarice,

Não consigo dormir, dessa vez boto a culpa no café. Mas bem sabes que não sou homem de dormir a noite, bem. As noites foram feitas para serem madrugadas, encaradas de frente. Falo tanto de estrelas porque sinto saudades, sinto inveja daqueles que podem dormir por exaustão e não por obrigação.

Todas as manhãs são terríveis, sinto-me bêbado e cansado, as pálpebras pesam sem refúgio, as palavras caem sem peso. Não existo pela manhã. Desapareço. Neutralizo. Mal respiro. Quebra-se o encanto.

Mas resisto até quando posso. Sei que em breve farei isso por obrigação, na frieza cirúrgica do Hospital. Já vi a madrugada do Hospital, uma vez. É bela, naquela beleza ligeiramente trágica. Silêncio, passos, assepsia. Branco, muito branco. Sem esforço. Apenas.

Tenho feito muitas coisas, a maioria que não necessariamente necessitava. Inverti prioridades. Franz Ferdinand à Patologia do Sistema Digestivo. O Pequeno Príncipe à burocracia do Sistema Público. Passeios noturnos. Fez-me bem.

Existem ainda vários apesares, eu sei. Mas ainda é madrugada, respiro, amanhã será outro dia que provavelmente se alongará sem justificativa. Será um dia bom. Pelo menos, tem tudo para ser.

Saudades,

Gabriel

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