sexta-feira, abril 16, 2004

Cara Clarice,

Tenho tido dificuldade para escrever em público, sem propósito. Há três dias tento e nada sai. Por isso escrevo para você, porque se escrevo para alguém todos esse bloqueios relativos que sinto parecem desaparecer.

Estou cansado, de uma forma que não sei explicar. Estou com os sentidos anestesiados e nada mais parece surtir efeito: não vejo as folhas de outono, não escuto o barulho dos meus passos, não sinto o frio nas noites claras, o cheiro das damas da noite, o gosto dos chocolates de Páscoa. Preciso gritar, mas sei que gritar de nada adiantaria: não mudaria a ordem das coisas. Mas não gritar é um pecado quase mortal. Condenável. E grito, como grito comigo mesmo... Minha cara, não aprendi a ser agressivo e essa agressividade me falta nas horas mais importantes.

Tenho certeza que poderia estar amando essa vida que eu levo, cada singelo aspecto, se houvessem perspectivas futuras. Qualquer possibilidade. Alguma possibilidade real a curto prazo, sem que eu precisasse sacrificar a maior parte do meu mundo para consegui-la. Clarice, as coisas por aqui andam por demais áridas que minha alma pede água. Poupo tanta energia que todos os esforços são heróicos. Tudo por aqui está engessado, sem mobilidade alguma. E não tenho nem coragem, nem ânimo, nem força, nem estrutura para botar tudo abaixo e começar de novo.

Quando vejo nos outros a minha possibilidade de salvação é tão mais doloroso que se nunca a tivesse visto - nem sonhado. Mas não aprendi a pedir ajuda, principalmente a desconhecidos, e essa minha incapacidade tem me desagradado profundamente.

Não sei como as coisas andam por aí, espero que estejam bem. Lógico que estar bem é diferente de serem boas; no entanto, creio que só das coisas estarem bem já seja um grande avanço.

Quanto a mim, tento ficar melhor.

Saudades,

Gabriel

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