terça-feira, abril 06, 2004

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige-se. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semi-paralítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos
semi-paralíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação"

(Clarice Lispector)

Estou cansado do mundo. Sinto que minhas utopias de bolso se esgotaram. Sinto-me cada dia mais egoísta. Já não leio mais notícias de política. Já não leio quase nada. Não sou mais crítico e tenho minhas dúvidas se quero voltar a ser. Vejo grandes pessoas contrariando princípios morais essenciais. O amor é cada vez mais raro, mais árido, mais inconstante. Tudo o que vejo é inconsistente. O álcool não é mais um subterfúgio razoável. Indolor. Minha garganta dói, estou sem remédios. Sobrevivo com felicidades homeopáticas. Finjo-me de cego para continuar caminhando. Roubaram meu celular, sem qualquer chance de defesa. A covardia humana me deprime. Essa falta de perspectiva. Essa intolerância. Ninguém nos ouve, ninguém nos ajuda, ninguém liga a mínima para o que fazemos.

Estou cansado. Meu único desejo imediato é ver o ladrão agonizando numa cama de hospital. Morrendo. Sim, eu ali contemplando a morte. Ganhar muito dinheiro. Comprar casa, viajar para Europa, televisão de plasma, whiskey 18 anos, muitos livros. Viver com um conforto absurdo e egoísta. Quero ser absurdamente egoísta. Pateticamente egoísta - sem culpa.

Sou a única explicação da minha vida. Ninguém importa além de mim. Quero viver só. Somente.

(Post conjunto com o Sete Faces)

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