terça-feira, abril 20, 2004

"O desejo da Medicina é prolongar a vida, reestabelecer a harmonia. Mas a cura nunca é o retorno a um estado anterior"
(A Vertigem da Imortalidade - Paulo Schiller)

Infelizmente, o ser humano raramente se regenera: apenas cicatriza. E que fique bem clara a diferença, que as cicatrizes são carregadas até a hora da morte.

Por isso que a Medicina é meio charlatanismo quando promete a cura: os remédios também fazem mal, a experiência da doença pode ser traumática, o entregar seu bem mais precioso - a vida - na mão de um desconhecido é desesperador.

Na maioria das vezes, silenciamos nossos órgãos - e pensamentos - à força. Compramos uma harmonia relativa, mas tão frágil que é passível de ser quebrada com as mínimas modificações. E ninguém nunca nos avisam disso.

Ninguém avisa que as coisas nunca irão voltar a ser as mesmas. Nunca voltam. Pode haver perdão ou culpa. A melhor das intenções. Uma colite pseudo-membranosa. A pior das traições. Uma vacina BCG. Não importa, apenas cicatrizamos. Trazemos conosco uma marca visível, reminescente, que sempre estará para nos lembrar de algo.

Como diria Holden Caulfield, certas coisas deveriam ser trancadas em um mostruário de vidro e serem deixadas em paz. Eternamente. Longe de qualquer lesão que necessitasse de um processo cicatricial. Queria que certas coisas nunca mudassem. Sei que é impossível.

Sei também que ainda existem os corticóides, cirurgias plásticas, toda tecnologia para suavizar o contorno das nossas cicatrizes. Mas isso nunca vai superar o fato de que apenas cicatrizamos. Tão raramente regeneramos. E nunca iremos voltar a ser aquilo que éramos antes.

Infelizmente.

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, abril 18, 2004

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma..."

(Cecília Meirelles)

Cara Clarice,

Não consigo dormir, dessa vez boto a culpa no café. Mas bem sabes que não sou homem de dormir a noite, bem. As noites foram feitas para serem madrugadas, encaradas de frente. Falo tanto de estrelas porque sinto saudades, sinto inveja daqueles que podem dormir por exaustão e não por obrigação.

Todas as manhãs são terríveis, sinto-me bêbado e cansado, as pálpebras pesam sem refúgio, as palavras caem sem peso. Não existo pela manhã. Desapareço. Neutralizo. Mal respiro. Quebra-se o encanto.

Mas resisto até quando posso. Sei que em breve farei isso por obrigação, na frieza cirúrgica do Hospital. Já vi a madrugada do Hospital, uma vez. É bela, naquela beleza ligeiramente trágica. Silêncio, passos, assepsia. Branco, muito branco. Sem esforço. Apenas.

Tenho feito muitas coisas, a maioria que não necessariamente necessitava. Inverti prioridades. Franz Ferdinand à Patologia do Sistema Digestivo. O Pequeno Príncipe à burocracia do Sistema Público. Passeios noturnos. Fez-me bem.

Existem ainda vários apesares, eu sei. Mas ainda é madrugada, respiro, amanhã será outro dia que provavelmente se alongará sem justificativa. Será um dia bom. Pelo menos, tem tudo para ser.

Saudades,

Gabriel

sexta-feira, abril 16, 2004

Cara Clarice,

Tenho tido dificuldade para escrever em público, sem propósito. Há três dias tento e nada sai. Por isso escrevo para você, porque se escrevo para alguém todos esse bloqueios relativos que sinto parecem desaparecer.

Estou cansado, de uma forma que não sei explicar. Estou com os sentidos anestesiados e nada mais parece surtir efeito: não vejo as folhas de outono, não escuto o barulho dos meus passos, não sinto o frio nas noites claras, o cheiro das damas da noite, o gosto dos chocolates de Páscoa. Preciso gritar, mas sei que gritar de nada adiantaria: não mudaria a ordem das coisas. Mas não gritar é um pecado quase mortal. Condenável. E grito, como grito comigo mesmo... Minha cara, não aprendi a ser agressivo e essa agressividade me falta nas horas mais importantes.

Tenho certeza que poderia estar amando essa vida que eu levo, cada singelo aspecto, se houvessem perspectivas futuras. Qualquer possibilidade. Alguma possibilidade real a curto prazo, sem que eu precisasse sacrificar a maior parte do meu mundo para consegui-la. Clarice, as coisas por aqui andam por demais áridas que minha alma pede água. Poupo tanta energia que todos os esforços são heróicos. Tudo por aqui está engessado, sem mobilidade alguma. E não tenho nem coragem, nem ânimo, nem força, nem estrutura para botar tudo abaixo e começar de novo.

Quando vejo nos outros a minha possibilidade de salvação é tão mais doloroso que se nunca a tivesse visto - nem sonhado. Mas não aprendi a pedir ajuda, principalmente a desconhecidos, e essa minha incapacidade tem me desagradado profundamente.

Não sei como as coisas andam por aí, espero que estejam bem. Lógico que estar bem é diferente de serem boas; no entanto, creio que só das coisas estarem bem já seja um grande avanço.

Quanto a mim, tento ficar melhor.

Saudades,

Gabriel

quarta-feira, abril 14, 2004

"Eu quero saber a verdade e você se preocupa em não se machucar"
(Paulinho Moska)

Sei que não sou altruísta, mas pelo menos estou tentando. Vim dessa vez sem qualquer outra intenção a não ser te escutar, olhar nos olhos, esforçando em ser compreensivo. E você continua dentro de seu castelo, cercado de muralhas, fossos de jacarés. Véu nos olhos, só para me confundir: e confundir os outros, todo mundo. Você adora confundir todo mundo.

Você diz que ninguém te entende, mas nunca deixa ninguém te entender. Eu me esforço, juro. Mas você não deixa ninguém aproximar. Nem começar a falar. Você abaixa os olhos, finge que não é com você. Nunca é com você, não é?

Estou cansado disso. Você quer se preservar, eu até entendo. Mas pelo menos não fique pedindo ajuda quando viro as costas. Agora é assim: quer se foder, foda-se. Quer se perder, perca-se, com gosto. Detalhe: bem longe de mim. E não adianta depois vir correndo para contar as coisas, fragmentadas, dentro do seu maravilhoso castelo...

Post conjunto com o Sete Faces

domingo, abril 11, 2004

Estou quase tísico: febre, tosse produtiva, dor no peito irradiando por todas as regiões. Sorrindo. Apesar da doença misteriosa (gripe? tuberculose? infecção respiratória?), tenho tomado sorvete, tomado banho de banheira de uma hora escutando Belle and Sebastian, ficado no sereno mais que deveria. Embora o corpo esteja pagando o preço pelas minhas irresponsabilidades, está sendo profundamente redentor.

(Bem verdade que nada mudou concretamente: só a perspectiva dos fatos)

Esses dias gelados e essa tosse fazem-me lembrar de Álvares de Azevedo e Manuel Bandeira. O que, por sua vez, desenterra um certo saudosismo gostoso, um romantismo empoeirado. Uma sensação de finitude boêmia, sem ser amarga. Tenho lembranças de Bandeira muito fortes, muito vívidas: ensolaradas. Meu primeiro sarau. Os primeiros movimentos. A Lua, tão branca, pregada no céu.

Tusso bastante, na verdade. Mas ainda quero continuar a tossir, a lembrar de Bandeira, dos dias tão ensolarados de Recife, do Rio de Janeiro, da infância que ficou para trás...

quinta-feira, abril 08, 2004

Os melhores comentários de Camila

A Camila tem sempre comentários interessantíssimos. Selecionei aqueles que achei mais significativos durante esse ano e fazer um pequeno revival:

"Quase morri quando, um dia, uma pessoa me disse que eu me dava muita importância e que ela tinha coisas mais importantes pra fazer na vida dela do que ficar pensando em mim. Horrível no momento em que se ouve, mas extremamente libertador a longo prazo..."

"Um dia, quem sabe, acho que você se liberta dessa necessidade de ser um pouco triste..."

"Sou da opinião de que infâncias nunca são tão tranqüilas quanto parecem..."

"Quando as pessoas dizem que nós mudamos para pior é preciso analisar se não ficamos apenas mais incômodos para elas..."

"Fiquei pensando como sou incapaz de ir a qualquer lugar apenas com a roupa do corpo e em como ser você mesmo + as suas coisas as vezes pesa."

"Melhor é não sentir que a sua maçã tenha uma parte errada... (escolhe uma mais bonita, bobo, sem bichinho, sem machucados, bem crocante...)"

"Mas sei que adrenalina demais mata."

"O movimento natural após o excesso é o excesso oposto. Você subestimou as dificuldades? Agora está superestimando. Você superestimou suas capacidades? Agora está, visivelmente, subestimando."

"Ou será que não foi você que mudou muito pra Franca, sem perceber?"

"Não acho a alegria solitária necessariamente patética. Algumas alegrias ficariam patéticas se fossem divididas."

"E o que você vai fazer depois que tiver o perdão? Será que você não deixa de se perdoar apenas para adiar a próxima etapa?"

"Por que aquilo que se tem precisa sempre estar no final da fila? Ou será que um post sobre uma vitória desfigurará seu blog (ou talvez fará você se perder para sempre)?"

Muito obrigado pelas palavras sábias, pelas reflexões sempre bem pontuadas e produtivas... Obrigado.

(ao som de This Charming Man - The Smiths)

terça-feira, abril 06, 2004

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige-se. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semi-paralítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos
semi-paralíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior - vive-se, sem ao menos uma explicação"

(Clarice Lispector)

Estou cansado do mundo. Sinto que minhas utopias de bolso se esgotaram. Sinto-me cada dia mais egoísta. Já não leio mais notícias de política. Já não leio quase nada. Não sou mais crítico e tenho minhas dúvidas se quero voltar a ser. Vejo grandes pessoas contrariando princípios morais essenciais. O amor é cada vez mais raro, mais árido, mais inconstante. Tudo o que vejo é inconsistente. O álcool não é mais um subterfúgio razoável. Indolor. Minha garganta dói, estou sem remédios. Sobrevivo com felicidades homeopáticas. Finjo-me de cego para continuar caminhando. Roubaram meu celular, sem qualquer chance de defesa. A covardia humana me deprime. Essa falta de perspectiva. Essa intolerância. Ninguém nos ouve, ninguém nos ajuda, ninguém liga a mínima para o que fazemos.

Estou cansado. Meu único desejo imediato é ver o ladrão agonizando numa cama de hospital. Morrendo. Sim, eu ali contemplando a morte. Ganhar muito dinheiro. Comprar casa, viajar para Europa, televisão de plasma, whiskey 18 anos, muitos livros. Viver com um conforto absurdo e egoísta. Quero ser absurdamente egoísta. Pateticamente egoísta - sem culpa.

Sou a única explicação da minha vida. Ninguém importa além de mim. Quero viver só. Somente.

(Post conjunto com o Sete Faces)

sábado, abril 03, 2004

"Direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás"

(Estrela da manhã - Manuel Bandeira)

"Do You Realize - that you have the most beautiful face?"
(Do you realize - Flaming Lips)

Eu sei que você não irá me ligar. Eu sei que você não irá me escrever. Eu sei que você não está pensando, nem pensará em mim. Eu sei que escrever aqui não adiantará muita coisa: você
nunca lerá, você nem suspeitaria que estou escrevendo para você. Não adiantará. Mas continuo aqui, tentando verbalizar as palavras. Inutilmente. Com esperanças que talvez isso fizesse a diferença. Sei que não fará.

Eu sei que você nunca percebeu os meus olhares furtivos. Eu sei muitas coisas que você não sabe: perfume, horários, pequenos vícios e virtudes. Gostaria que você soubesse. Mesmo. Gostaria que você soubesse sim: e por mim. Gostaria de te falar que você é especial demais para existir dessa forma que você existe. Te falar todas aquelas pequenas coisas que deixamos passar na correria do cotidiano, leves mas tão essenciais que quase não vivo se não me alimentar delas. Te contar que você tem muitas coisas assim, leves e essenciais, e que eu teria todo prazer em descobri-las sem prazo definido de tempo. Gostaria de dizer que sei escutar, que sei ficar quieto e sei olhar as estrelas.

Eu sei que nunca poderei te falar isso. Não pertence a mim o próximo movimento. Nunca pertence a mim esse tipo de movimento. Eu sei que poderia esperar pacientemente pela sua resposta, se eu ainda desconfiasse que pudesse haver alguma resposta. Eu sei que suporto a espera: sempre esperei. Eu sei que mesmo sabendo que você não desconfia dos meus passos, vou passar um bom tempo esperando. Inutilmente?

Acho que não. Porque sei que para mim não há muitas perspectivas no momento. Eu sei que essa lembrança solitária irá me acalmar internamente, enquanto a poeira persistir. Eu penso no seu sorriso, o perfume, as palavras doces e consigo dormir em paz.

Mesmo sabendo que não há esperança