quarta-feira, março 31, 2004

"How would I explain?
How would I explain this to my children if I had them?"

(Alanis)

Não sou muito bom com explicações. E minha capacidade de justificar-me é inversamente proporcional a importância da situação. Tudo faz sentido quando escrevo, ou enquanto tomo banho, ou quando realizo as menores tarefas: mas lá na hora H, naquela hora que tudo é necessário para fazer sentido, tudo foge. Tudo emperra. Tudo desanda.

Gostaria que as coisas fossem mais fáceis, sem tantas variáveis. Sem que fossem necessários tantos desdobramentos, tanto trabalho mental antes de formular frases simples. Medir com demasia as palavras para elas não me traírem: e também para eu não ser traído.

Não sei como irei explicar todos os eventos da minha vida de forma linear, clara e concisa. Compreensível. Não sei se terei (porque é fato que não tenho) essa força necessária - sem engasgar - para explicar tudo. Acho que acabo por insistir naquele meu status quo inseparável: guardo todas as explicações só para mim e espero que quem me rodeia acabe por me descobrir lentamente.

Sem eu precisar me revelar. Verbalizar. Me expor.

Acho que tudo funciona bem mais facilmente assim...

(Post conjunto - atrasado de novo - com a Anita)

terça-feira, março 30, 2004

"They never know unless I write..."
(Get me away from here, I´m dying - Belle and Sebastian)

Pois é, há um ano atrás esse blog começava. Estava pensando em fazer um post especial, mas faltaram idéias. Achei aquela enquete muito idiota, muito pretenciosa e desisti no meio do caminho. Enfim...

(tentando começar de novo)

Não sei se vocês sabem a importância que esse blog tem para mim. Ele começou de uma intenção bem simples: escrever como um exercício. Sempre gostei muito de escrever, sem nenhum motivo especial. Mas não tinha um espaço para isso. Daí começou o blog. Logo ele serviu para os mais diversos propósitos: válvula de escape, mural de recados, ócio criativo, veículo de idéias e novidades. Ele tornou-se algo bem maior que o propósito inicial, algo inseparável e viciante.

Hoje sei que o Get me away serve para eu remoer as idéias que aparecem no cotidiano, para não ficarem perdidas no meu inconsciente. É a maneira que eu tenho para refletir, decidir, escolher. Esse espaço é um rascunho das formas, coisas e maneiras que eu penso.

Lógico que muita coisa mudou nesse meio tempo. Até o título do blog está um pouco defasado. Até pensei em mudá-lo num passado não muito distante. Não mudei foi por preguiça mesmo. E é muito interessante quando leio um texto antigo e penso: ainda bem que não penso/ajo mais assim. Através desse blog que visualizo meus saltos qualitativos. E todas aquelas falhas que eu ainda posso melhorar.

E isso não poderia ter sido alcançado sem meus leitores, muitos que acabaram por virar valiosos amigos. Um tipo de amizade muito interessante e diferente, que não conhecemos o rosto, mas conhecemos muitas outras coisas que dificilmente saberíamos numa convivência cotidiana. Até os amigos próximos são surpreendentes quando escrevem nos blogs, quando comentam por aqui.

Queria deixar registrada toda minha felicidade por alcançar essa importante marca pessoal e torcer intimamente que, ano que vem, complete-se outro ano. Com os mesmos leitores amigos, com novos leitores amigos... Que eu continue num estado de mudança que me encontro: para melhor, espero que esteja sendo para melhor. Num constante esforço.

Não sei mais o que dizer.

É isso.

segunda-feira, março 29, 2004

"Tenho certeza de que a humanidade se sustenta porque muitos insistem em não perder a paixão"
(Suzete)

"Como fazemos para admitir que mesmo nós não saberiamos bem o que dizer, nem como dizer? Como fazemos nos colocarmos no nosso humilde lugar, com tranquilidade, sem nos acusarmos de omissão? Como fazemos para incluir a possibilidade de que nossas considerações talvez não passem de preconceitos? (Se bem que não acredito...) Como fazemos para deixarmos de ser arrogantes a ponto de acharmos que sabemos mais sobre a vida dos outros do que eles próprios?"
(Camila)

"I'm gonna buy a gun and start a war
If you can tell me something worth fighting for"

(A rush of blood to the head - Coldplay)

Venci o medo, não perdi o ônibus e, em linhas gerais, tudo deu (quase) certo no final.

sábado, março 27, 2004

(post lá do fundo da gaveta...)

Era uma dia completamente atípico. As coisas que deveriam dar certo não deram, independente de mim. As coisas que não deveriam dar certo acabaram dando, independende de mim também. As coisas aconteciam independentemente de mim. Foi daí que aconteceu. Inesperadamente. Pela primeira vez, desde quando me lembro.

A noite estava gostosa, sim. Foi quando perguntaram - sem nenhuma segunda inteção - por um detalhe irrisório e peculiar da minha vida. Interesse puro e simples. Tom de voz doce, olhos fixos esperando resposta. Eu, assustado com a simplicidade desse movimento, respondi. Não da melhor forma, não como gostaria de responder: estava desprevinido e as palavras fugiram dos meus dedos.

Porque? Porque naquele momento senti que minha vida trazia alguma importância, que merecia ser discutida. Que poderia ser útil à alguém. Ainda mais vinda de maneira tão desinteressada e simples.

Havia me esquecido que a vida, ainda que simples, pode reservar algumas gratas surpresas. Gratuitas, alheias. Ternas, doces e belas.

E se os dias e noites fossem outros...

sexta-feira, março 26, 2004

Você está vendo aquela tempestade na linha do horizonte? Não sei que faço: entro nela de uma vez por todas, escapo pela tangente como sempre.

Não precisaria voltar para Franca hoje. Não precisaria romper com esse meu universo de pequenas preocupações. Não precisaria me irritar com as irresponsabilidades alheias, com a minha incapacidade de romper com diversas dependências psicológicas. Tenho festa, tenho várias coisas para me ocupar nesse final de semana. Se eu ficar...

O outono realmente começou e estou com uma vontade enorme de perder o ônibus dessa vez.

quinta-feira, março 25, 2004

Ontem assisti Adeus Lenin! no cinema, é ótimo. É o tipo de filme tocante, uma história incomum, com um fundo histórico atual e interessante. O filme se passa durante a queda do Muro de Berlim e conta a história do Alex, um rapaz da Alemanha Oriental que se esforça para esconder da mãe que o socialismo ruiu no período que ela esteve em coma, por causa de um infarto. Ela era uma ativista ferrenha durante o regime socialista e, por recomendações médicas, deverá ser poupada de desapontamentos e emoções fortes, porque isso poderia causar outro infarto adicional - de consequencias fatais.

Toda a história se desenrola em cima do esforço de Alex para manter a mãe viva, se utilizando de todos os artifícios para esconder, num esforço progressivamente difícil, que quarenta anos de história evaporaram em apenas oito meses. O filme aborda muito bem a questão da manutenção e perda de valores, uma discussão muito apropriada nos dias de hoje.

Um filme que entrou para categoria dos top 5. Pela sensibilidade, pelas cenas em Berlim, por ser um filme alemão, por se tratar de um filme de redenção e manutenção num estado de inocência.

Assistam, é sério. Compensa. Se não der, ao menos entrem no site, que um dos mais bem feitos que eu já acessei.

Adeus Lenin! alimentou em mim uma dúvida que tenho desde que me entendo por gente: até quando compensa sustentar uma mentira só para preservar os outros (e a si mesmo)?

Até quando?

quarta-feira, março 24, 2004

"When your heart's on fire, you must realize
Smoke gets in your eyes"

(Smoke gets in your eyes - The Platters)

É preciso sentir menos. Acho que já falei isso. Mas reli "O Apanhador..." novamente e entendi o capítulo do Carrossel, que é a coisa mais maravilhosa que eu já li na vida. E a idéia voltou, mais forte, mais necessária.

Sei que muitos vivem intensamente, chupando da vida tudo que ela pode oferecer, até os ossos. É bom, mas é errado. Quando vivemos demais, temos menos oportunidades em focar nossos sentimentos em uma coisa só. Acabamos presos dentro de duas mil sensações, quinhentas e noventa e sete variáveis, setecentas possibilidades. Quando temos muitos caminhos, maior a probabilidade das coisas darem errado, isso é fato. Quanto mais vemos, menos conseguimos enxergar.

Por isso é preciso sentir menos, amar menos, odiar menos. É preciso deixar uma boa margem mental para reflexões, para respirar e redirecionar para onde queremos ir.

Ainda não existem explicações anatomofisiológicas, ou semiopatológicas, ou bioquímicas para o mistério da inflamabilidade cardíaca. Só sei que ela ocorre quando estamos presos numa tormenta de sentimentos contraditórios, intensos e demasiados. Senti isso na pele e como poucos, queimei-me demais: e sobrevivi. Depois da chuva. Que apagou tudo e deixou o que restou apenas em brasas.

Porque eu havia me cansado de viver tateando no escuro, abrindo espaço entre a fuligem. Fumaça nos olhos. Agora, como nunca, quero mais ver que sentir. Por enquanto.

(Post conjunto - e atrasado - com o Sete Faces)

quinta-feira, março 18, 2004

Tenho medo. Tenho medo, porque nunca quis alguma coisa tanto assim que precisasse lutar por ela e sair do meu estado de inércia habitual. Tudo que conquistei foi sem sacrifício algum. Tudo que conquistei veio de forma automática, como se houvesse um quê de predestinação: independente da minha vontade, ela aconteceria. Ela viria. Nunca tive aquele sentimento de grandes vitórias após derramamento de muito sangue e suor. Nunca.

Por isso, sinto-me extremamente envergonhado quando cumprimento alguém com as mãos ásperas de calos. Ou quando converso com vários colegas de turma que enfrentaram três, quatro, cinco anos de suplício nas cadeiras de cursinho e vejo que, para eles, estar na Medicina foi fruto de um grande esforço e grandes objetivos. Quando vejo colegas que são tão melhores que eu, tão mais estudiosos e dedicados, e sou eu acabo por roubar suas vagas na faculdade, na monitoria, no PET. Quando converso com pessoas que tiveram grandes amores, grandes histórias, viveram tudo com grande intensidade: o que vivi foi tão morno e tão independente do meu pulso firme, que restrinjo as minhas palavras a meros conselhos racionais.

Meus prêmios, minhas realizações, as batalhas morais vencidas... Nada disso quis verdadeiramente, como se minha vida dependesse disso. Nada quis o suficiente, intensamente, que eu sentisse necessidade de engatar a segunda marcha e sair do meu universo comodista.

Por isso eu tenho medo, porque nunca precisei de engatar a segunda marcha. Nunca precisei lutar, nunca precisei sofrer, nunca precisei não dormir para chegar em algum lugar. Tenho medo, muito medo, de na hora que eu precisar disso, de iniciativa, força de vontade, peito para levar as decisões até as últimas conseqüências... eu não conseguir.

Não conseguir.
Não conseguir...

Tenho um pressentimento que ficarei nesse meu complexo de ter as mãos isentas de calos por um bom tempo...