sábado, fevereiro 28, 2004

"I spent the summer wasting
The time was passed so easily
But if the summer's wasted
How come that I could feel so free?"
(A summer wasting - Belle and Sebastian)

E as férias terminaram. E eu não fiz nem metade das coisas que gostaria (e precisaria) de ter feito.

Não li os livros que planejara, não vi os filmes que queria ter visto, não comecei as pesquisas, não fiz as oficinas, nem me apaixonei violentamente, não gostei ternamente de alguém, não cometi erros deliciosos, nem guardei os tickets do cinema pois lá nem fui, não vi Dogville, nem Encontros e Desencontros, nem Adeus Lenin, nem Cold Montain, também não fui ao Hopi Hari, nem a São Paulo, nem a Ribeirão Preto com a freqüência que gostaria, nem à praia, não comprei presentes, não resolvi assuntos pendentes, não superei medos, não escrevi cartas, não escrevi contos, nem terminei aqueles contos que estavam começados, não comecei meu livro, não tirei fotos, não fiz loucuras, não fiquei preocupantemente bêbado, não pulei Carnaval, não aprendi a cozinhar, não revolucionei o mundo, não estudei as regras de gramática, nem a Neurofisiologia, não morri de tanta alegria.

E haveria outra lista enorme de coisas que não gostaria de ter feito e fiz.

Mas a impressão desse verão ficou tão particular que não sei colocar em palavras. Dias leves de insônias. Exercitando minha capacidade de reerguer silenciosamente. Do desapego a certas pessoas. Da desistência. Da insistência. Da espera prolongada, sem cair em desespero. De como escutar coisas difíceis sem se deixar abater.

Exercícios solitários. Mas necessários.

Esse verão teve a cara do Pequeno Príncipe, só para concluir que a vida não é séria, as pessoas não são sérias e nem há motivos plausíveis para você se deixar contaminar por esse "espírito de seriedade adulta". Teve a cara de Holden Caulfield, para reconhecer a iminência da queda e que certas batalhas não tem como ser vencidas. Teve cheiro a cara de Evangelion, de pessoas solitárias que lentamente se aproximam, como ouriços, cautelosos e com medo. Teve a cara das novelas do Fernando Sabino, que nunca sabemos de quem é a culpa mesmo.

Soou como minha redescoberta pessoal de Belle and Sebastian...

Apesar das crises e imprevistos, do marasmo e das decepções, foram boas essas férias. Ah sim. O ano não promete mudanças radicais, não tenho altas perspectivas a não ser a velha manutenção do status quo. Mas estou aprendendo a sobreviver com ele. Retirando toda a energia que eu conseguir e me contentando com isso. Exigindo pouco e colhendo o que posso. Sem me sentir frustrado por não colher tudo o que poderia...

Malas para Uberlândia agora.

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Histórias que voltam. Sempre são assustadoras. Porque você nunca as espera. Você acha que já as matou e escondeu o corpo. Já lavou as mãos sujas de sangue. E ainda voltam, assustadoras. Mas confesso que ultimamente estou assustando menos e raciocinando mais.

Conclui que enquanto eu caminhar, sempre ficarão as pegadas. Por mais cauteloso que eu seja. Tenho duas escolhas então: paro de caminhar ou aprendo a conviver com elas.

Por amor próprio, estou com a segunda opção. Sem culpa. Pelo menos, tentando.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Aniversário em plena Quarta Feira de Cinzas. Depois de um Carnaval atípico: chuvoso, frio, com neblina. Aniversário em plena Quarta Feira de Cinzas... Irônico ou metafórico?

Não importa. Nada importa muito. Não há muito que falar: um sorriso pelas coisas boas que aconteceram nesse ano; um lamento, pelo tempo desperdiçado. E só. Porque o tempo passa muito rápido, tem passado muito rápido. As coisas ruins desaparecem muito rápido. As coisas boas, também.

Gosto de aniversário. É bom para você se sentir especial. Que é amado. Que as pessoas se importam com você. Sempre alguém apronta uma surpresa. Daí eu rio, também passo a amar mais os outros. Sempre alguma história boa é desenterrada e relembrada. É bom.

Nem me importo com o ano a mais. Porque as coisas não mudam. Nunca mudam verdadeiramente. Mais velho ou mais novo, foda-se. A sucessão de dias prossegue. Dias bons, dias ruins. Vitórias e derrotas. Efemeridades... Não, não irei me estender demais. Vamos ver o que esses 19 anos me reservam. Vou esperar. Silenciosamente.

Meu melhor presente: um sentido para isso tudo que vivo. Mas não precisa ser para hoje...

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Uma música que...
... me faz feliz: Yellow (Coldplay), Turn (Travis)
... me faz muito feliz: 12:51 (The Strokes), Glad Girls (Guided by Voices)
... me deixa triste: Don't look back in anger (Oasis), I'm just a kid (Simple Plan), Vento no litoral (Legião Urbana)
... me deixa deprê: Wild Ones (Suede), There there (Radiohead), Sentimental (Los Hermanos)
... me lembra meus melhores amigos: Yoshimi versus the pink robots (Flaming Lips), Secret Garden (Bruce Springsteen)
... me lembra minhas melhores amigas: Kite (U2), Formato Mínimo (Skank)
... me lembra minha mãe: Como nossos pais (Elis Regina)
... me lembra meu pai: Tempo Perdido (Legião Urbana), Leãozinho (Caetano Veloso)
... me lembra praia: Pacific Coast Party (Smash Mouth), Me dá um olá (Ultraje a rigor)
... me lembra balada: Saxo (Laurent Wolf), Happy (Square Hands)
... me deixa animado(a): Boss of me (They might be giants), Sumatran (Electric Soft Parade)
... me deixa desanimado(a): If you're feeling sinister (Belle and Sebastian), Don't go away (Oasis)
... me faz querer dançar: Heavy Metal Drummer (Wilco), Keep fishin'(Weezer), Allright (Supergrass)
... me faz querer dormir: No Surprises (Radiohead), Complainte de la butte (Rufus Wainwright)
... me faz querer morrer: How to fight loneliness (Wilco), What can I do (The Corrs)
... é boa pra ouvir no carro: My Favourite Game (The Cardigans), Killer cars (Radiohead)
... é boa pra ouvir a dois: Fly me to the moon (Frank Sinatra), Come away with me (Norah Jones)
... me lembra a última pessoa que eu fiquei: Try it on my own - remix (Whitney Houston)
... é boa pra ouvir sozinho: Nice Dream (Radiohead), Next Year (Foo Fighters)
... representa a sua vida: Get me away from here, I'm dying (Belle and Sebastian), Live Forever (Oasis), Imperfeito (Pato Fu)
... representa o que você não quer pra sua vida: King of Sorrow (Sade), I wanna be sedated (Ramones) ... você acha muito boa: Closing Times (Semisonic), Tonight tonight (Smashing Pumpkings), Stand by me (Oasis)
... você acha uma bosta: qualquer uma do Jota Quest que fale de amor
... tem que tocar em toda festa: Murder in the dance floor (Sophie Ellis-Bextor), Satisfaction (Benny Benassi)
... me deixa com vontade de beijar: Celia's inside (The Cardigans), Kiss me (Sixpence None the Ritcher), Make your own kind of music (Mama Cass)
... me deixa com vontade de transar: Meet me in the bathroom (The Strokes), Feeling This (Blink 182)
... te lembra de um momento inesquecível: Dream a little dream of me (Mama Cass)
... te lembre alguém que você ama: Não sei viver sem ter você (CPM22), Só tinha que ser com você (Fernanda Porto)
... te deixe com medo: Perfect (Alanis Morissette), Shiver (Coldplay)
... te lembra a tua infância: João e Maria (Chico Buarque), Ursinho Pimpão (Balão Mágico)
... você podia ouvir a vida inteira sem enjoar: Fake Plastic Trees (Radiohead), Murray (Pete Yorn), Judy and the dream of horses (Belle and Sebastian)

Pois é, achei que colocar uma música só por tópico era difiícil demais...

(Post conjunto com a Anita, idéia "roubada" da Karina)

sábado, fevereiro 21, 2004

"Quando a gente anda sempre para frente, não se pode ir mesmo longe"
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)

Postei há um tempo minha teoria dos ponteiros, que apareceu quando li essa frase do Pequeno Príncipe. Paradoxal, não? Porque estamos sempre tão preocupados em realizar objetivos, cumprir metas, vencer limitações, estamos sempre tão preocupados em caminhar para frente que esquecemos de olhar para trás.

Esquecemos que muitas coisas boas, sem querer, ficam para trás.

Esquecemos que para viver também precisamos de parar um pouco, andar em círculos, retornar ao ponto de partida, olhar para cima e para baixo.

E precisamos caminhar para frente sem pressa ou atropelo. Sem cautela excessiva. Mas com atenção suficiente para perceber quando é hora de parar, quando é hora de voltar para trás, quando é hora de seguir em frente ou quando é hora de entregar os passos para direção que o vento soprar...

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Confirmado: viajo para São Paulo no dia 6 de março.
Objetivos (oficiais): exposição do Picasso na Oca e "O Mágico de Oz" no teatro.
Expectativas: altíssimas, para variar.

(criatividade quase zero)

Ah, o blog está em processo de reformulação. Isso significa novidades em breve. Assim que meu computador (e o Weblogger) resolverem colaborar.

A Yoshimi não sai da cabeça. E o Leonardo faz questão de me lembrar essa música toda-hora.

Peguei Réquiem para um sonho na locadora.

E ainda querem que eu faça uma lista sobre "congressos, cursos, etc" que eu quero assistir NO ANO. Definitivamente não dá.

(criatividade zero)

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

#03 - Comentando os comentários... "O mal que fazemos é sempre mais triste que o mal que nos fazem. Eu me condeno demais quando descubro que alguém, de certa maneira, sofre por minha causa. Esse sentimento absorve o pouco de amor próprio que tenho. Acabo me sentindo um monstro, que nem deveria estar no mundo. Aliás, acho até que prefiro ser machucada duas vezes a ferir alguém que gosto e com quem me importo."
(Éria)

Sim, eu me sinto assim também. Mesmo sabendo que é errado. Mesmo sabendo que às vezes não consigo suportar minhas próprias condenações.

E sei porque faço isso. Descobri naquelas inquisições mentais. É uma necessidade extrema para conseguir a aceitação do próximo. Inconscientemente acredito que, evitando o sofrimento do próximo, consigo um pouco de gratidão. Um sorriso. Mas as coisas não funcionam bem assim.

Muitas vezes, o certo não é poupar as pessoas queridas do sofrimento. Ser pára-raios. É preciso que elas quebrem a cara. Acho que só aprendemos verdadeiramente com as dificuldade e nossos erros. Nossa função aí não é tomar o tiro, mas fazer os curativos.

Sozinho, cheguei até ali. Mas lendo Freud (despreocupadamente, sem a intenção de me auto-analisar), encontrei uma idéia interessante: que quando preferimos o nosso sofrimento ao sofrimento do próximo, na verdade, é o resultado de uma falha de direcionamento de nossa agressividade (lógico que Freud sempre bota a culpa desses "deslizes" em alguém, mas esse alguém não vem ao caso). Sem termos para onde canalizar nosso instinto agressivo, ele é canalizado para dentro. Daí, não precisa de muita desculpa para, na primeira oportunidade, ele descer lenha em nós mesmos.

E isso foi de uma verdade assustadora. Porque sou tão agressivo quanto um vaso. Nunca consegui extravasar minha raiva, meu descontentamento. Engulo seco, sigo em frente, não discuto nem brigo. Infelizmente, não se sai impune quando um impulso é reprimido. Assim, minha consciência ficou severíssima, pronta a descarregar em mim toda a minha agressividade que neguei aos outros.

Resolvi reformular minha teoria anterior: eu preciso, com urgência, também aprender a atirar.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

"Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
estou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
estou me guardando pra quando o carnaval chegar"
(Chico Buarque)

Vivo poupando alegrias, como dinheiro. Guardo-as num arquivo pessoal, sem aproveitá-las direito. Como se isso fosse proibido. Retiro migalhas delas do meu bolso, para sobreviver. Somente. Esperando a hora certa. Fingindo que não as tenho. Apertando as mãos contra o próprio peito. Meus próprios segredos. Sonhando. Esperando...

Para consumir tudo numa explosão enorme. Irracionalmente. Enjoar de tanta alegria. De comer tanto mel. Gratuitamente. Sem medo. Sem culpa. Sem olhar para os lados com ar de conspiração. Debaixo de confetes e serpentinas. E tudo o resto.

Mas sem dividi-las. Porque acho que no fundo sou uma pessoa muito egoísta.

Post conjunto com a Anita

sábado, fevereiro 14, 2004

#01 - Comentando os comentários...

Sexta-feira 13. De um ano bissexto. Oba, se acontecer algo de errado hoje já sei quem culpar.

Mas isso não vem ao caso. Recebi uma porção de comentários interessantes nessa última semana. Não canso de postar por aqui exatamente por causa dos ótimos leitores que tenho. Alguns comentários fizeram-me refletir bastante e mereceriam uma tréplica. Enquanto a inspiração não volta, vou trabalhando com o material que recebi mesmo...

"Gabriel, faça a lista de coisas que você gostaria de fazer, como a Anita fez. Gostaria de saber quais são as coisas que te movem (não acreditam que só existam coisas que te paralizem). Talvez seja interessante para você saber também..."
(Camila)

Vamos lá então?

* Pular de pára-quedas
* Perder meu medo de altura
* Filmar um curta com roteiro meu
* Aprender francês e espanhol
* Aprender a cozinhar
* Visitar uma lista imensa de lugares pelo menos uma vez na vida, que só elas já daria um post inteiro
* Publicar um romance e um livro de contos
* Dirigir carros sem ser uma ameaça para a sociedade
* Manter os velhos amigos
* Auto-estima na hora de se olhar no espelho
* Comer de palitinhos
* Tocar algum instrumento
* Ser mais paciente, mais cuidadoso, mais direto, mais corajoso, mais tolerante, mais esperançoso
* Ser menos pessimista, menos auto-destrutivo, menos instável, menos perfeccionista, menos compulsivo
* Sobreviver à faculdade de Medicina
* Aprender a fazer drinks
* Ficar um dia completamente à toa e não me sentir culpado por isso
* Comer chocolate todos os dias
* Deixar de desenhar meninos "com chão e sol"
* Conseguir desistir de certas pessoas, certas idéias, certas lembranças
* Dançar sem ser patético
* Ser patético sem culpa
* Fazer análise
* Montar um quebra-cabeças de 3000 peças
* Aprender a jogar buraco
* Continuar na academia, sem desistir
* Levar minha vida independente da opinião alheia
* Convencer os outros que minha vida independente também é viável
* Escrever um poesia decente ]
* Velejar
* Morar uns meses no exterior
* Dominar HTML (e não o contrário)
* Manter o blog, com um template meu
* Sorrir com mais freqüência
* Dormir oito horas por dia todo dia
* Lembrar dos sonhos bons e dos pesadelos também
* Ler mais
* Comer mais frutas e tomar mais Sol
* Não esquecer que a vida continua...

E realmente eu estava precisando de uma lista dessas. Refletir sobre objetivos. Metas. Mas o melhor não consegui botar em tópicos. Vai em música. Que tenho escutado muito. Umas quinze vezes por dia. Porque ela é alegrinha e esses dias pedem músicas para cima:

"What I really need to do
Is find myself a brand new lover
Somebody who lies with me
Who doesn't notice all the others"
(Brand New Lover - Dead or Alive)

É isso..

terça-feira, fevereiro 10, 2004

"Meu coração vai se entregar à tempestade"
(Santa chuva - Maria Rita)

Post conjunto com o Sete Faces

Vou amarrar meu coração na ponta de um pipa e vou dar corda, até o pipa subir e subir. Numa noite escura, de tempestade e ventania, chuva gelada e relâmpagos, para eu não ver para onde o pipa vai. Quero que meu coração suma dentro da tempestade. Quero vê-lo longe de mim, para não sentir. Não quero sentir mais nada. Não quero mais sentir.

Vou esquecer os problemas pequenos na gaveta. Vou abandonar os problemas grandes na sarjeta. Vou jogar os amores platônicos no lixo. Não vou mais sonhar com futuros improváveis. Não ligarei mais para amigos relapsos. Não lamentarei por erros passados. Não serei paciente com os que não mereçam. Não esperarei mais do que possam me oferecer. Não me importarei com a opinião alheia. Quero aprender a desistir. Quero aprender a renunciar. Quero ser independente. Preciso aprender a caminhar sozinho. Preciso reacostumar com o mundo que me cerca. Preciso destruir minhas expectativas, para começar tudo de novo.

E tomar cuidado, muito cuidado, para a linha não arrebentar. Preciso que o coração desapareça dentro da tempestade, sem se perder eternamente. Enquanto estou em reconstrução. Enquanto boto as paredes abaixo.

Mas não será muito difícil, eu garanto. Eu espero. Estou acostumando a viver por um fio.

(antes que me perguntem, a fase de dias nublados terminou por aqui)

sábado, fevereiro 07, 2004

(postando suficientemente alcoolizado...)

Deletei o post de ontem. Ridículo. Piegas demais. Desnecessário. Só gostei de uma frase, que deixo aqui: "Para depois, só assim, curtir os restos de alegria...".

O que dizer hoje? Não muita coisa... Talvez confirmar a minha teoria do primeiro erro... Talvez, cansar de viver de restos de alegrias, viver de algo por inteiro. Sim, como gostaria de viver algo por inteiro, não aos pedaços! Como gostaria de sentir na minha boca o gosto de algo verdadeiramente desejado. Imperceptível. Aquele beijo que perdeu-se nos rodeios de medo, as palavras sinceras em momentos inesperados, dois segundos de compreensão...

Mas não são eles quem ficam! Ficam a ressaca, o pânico interno e inconfessável, os velhos temores. As confissões daquela vida de Bandeira, que poderia ter sido. Os caminhos difíceis e pedregosos.

Uma vida que se cansa por viver de menos. Covardemente.

Por hoje, é isso.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Por mais que minha vida esteja estagnada, é bem mais fácil escolher os caminhos enquanto se ainda está parado...

terça-feira, fevereiro 03, 2004

(Post conjunto com o Sete Faces)

"Jules, did you ever hear the philosophy that once a man admits that he is wrong, that he is immediately forgiven for all wrongdoings? Have you ever heard that?"
(Vicent Vega, em Pulp Fiction)

Talvez uma das coisas que mais me irritem no catolicismo é o tal do perdão. A extrema-unção. Aquele "vai rezar uma ave-maria e um pai-nosso que você está perdoado". Admita os seus erros e ganhe o passaporte para o Céu... Definitivamente, para mim as coisas não funcionam assim.

Eu gostaria muito de acreditar nessas coisas. Eu gostaria de ser católico, ir às missas de domingo e sair delas achando que sou o cara mais bom e piedoso do mundo. Pois já tive crises de consciência enormes por maldades e mágoas, nada que o milagre católico não pudesse ter resolvido. Que eu fosse lá confessar meus pecados para alguém que não me conhecesse e ele me venderia seu perdão.

Mas eu nunca fui. Eu nunca consegui. Mesmo assim, sempre procurei ser perdoado pelos outros. Quantas vezes confessei os meus pecados para alguém próximo, para um amigo de confiança, procurando ser perdoado? E sempre me perdoavam, sempre diziam que meus atos não foram de todo mal. Mas não bastava. Nunca bastava. Porque embora eu fosse perdoado pelos outros, eu nunca conseguia perdoar a mim mesmo.

Lamento por cada erro e cada pecado, cada deslize no meu caminho. Trago meus erros como cicatrizes nas costas, à vista de qualquer um que passar. Puno-me das mais diversas formas, sofro das mais diversas maneiras para expurgar dos meus pecados internos. Nunca basta. Nunca me considero plenamente perdoado. Nunca consigo me olhar no espelho, pacificamente, sem jogar na minha própria cara que sou um lixo, um pobre diabo, um incompetente.

E minto. Ah, como minto discaradamente e sem pudor algum. Mas as mentiram não me causam nenhum mal. Elas existem para acobertar meus erros. De tanto repeti-las, muitas horas acredito que quase sejam verdades...

Pois então, a partir de agora, vou repetir que acredito na salvação católica. Vou repetir bilhões de vezes que é só admitir o erro para ser perdoado. Para alcançar a salvação. Para curar as cicatrizes, para fazer o mundo doer menos para todos nós.

Que assim seja, Amém.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

#02 - Pequenas lições do PET

Sempre acreditei que existiam pessoas criativas. O dom da criatividade. Que os publicitários são um povo escolhido por Deus e abençoados por uma capacidade única. E a nós, reles seres comuns, foi-nos reservados alguns segundos de criatividade esparsa e mais nada. Por isso fui pego tão surpreso com uma palestra sobre Criatividade. Nunca imaginei de existiam técnicas de criatividade. Que a Criatividade, como a Oratória, a Culinária e a Astrologia e o raio que o parta, precisam de muito treino e exercício. Que a Criatividade é 10% inspiração e 90% de transpiração.

Que, antes de qualquer idéia, deve-se estabelecer objetivos, as ferramentas e os recursos que se tem em mãos. Em todas as formas que a idéia pode ser abordada. E que a idéia não aparece de imediato, porque a mente também precisa de um tempo de repouso para processar a informação. E mesmo depois que uma idéia razoável apareceu do fundo do inconsciente, ela pode ser trabalhada por aquelas ferramentas e recursos, de forma que às vezes perca completamente a aparência da idéia inicial.

Moral da história: não adianta ficar sentado, com lápis na mão, esperando a idéia aparecer e construir-se, por própria conta. O ato criativo é, acima de tudo e essencialmente, trabalho braçal.