quarta-feira, dezembro 24, 2003

Papai Noel,

Eu não acredito em você. Gostaria até em acreditar, mas você sabe, rapazes que acreditam em papai noel aos 18 anos é, no mínimo estranho. Por isso você vai dar um desconto para mim e ler isso sem chiar muito.

Sei que você é perito em coisas materias, e estou precisando muito de coisas materiais. Tipo carro do ano, os livros que eu quero, aquela viagem pro Taiti. E também aquele Lego de foguete que eu pedi há uns 9 anos atrás, tá lembrado, se não for muito difícil. Mas sabe, sei que se eu pedir você não vai me trazer. Nem é porque eu mereça, eu estou merecendo muito. Tirei 75 em Patologia, não matei ninguém, até fiz esforço para comer beterraba. Então vou fazer um pedido filosófico, porque acho que vai ser mais útil e além disso serve para outras pessoas.

(Viu como eu mereço? Sou até altruísta!)

É o seguinte: você é um velho que mora no Pólo Norte (hein?), fica o ano todo escondido lá com um monte de anões de verde e guizos idiotas (hein?!) e, no dia de Natal, sai num trenó pilotado por renas (renas? Alguém já viu uma rena? Ainda mais que voasse?) gritando ho-ho-ho, descendo pelas chaminés (pois é, e desde o século XIX sabem que a fuligem das chaminés é cancerígeno e causava neoplasias no escroto de limpadores de chaminés. Sim, escroto, sabe o que é? Viu como sou um bom aluno em Patologia?), com perigo de queimar a bunda, tomar um tiro, ser confundido com o Bin Laden depois do rodízio da churrascaria na Finlândia... Só para entregar uns míseros presentes?

Não estou sendo irônico, que é isso... E o povo acha que você NÃO existe? Então, tem um cara aí, uns 2003 anos atrás, que disseram que andou pela água, transformou água em vinho, multiplicou pães e peixes, morreu e depois voltou vivinho da silva... E ainda acreditam que ele existe! Sim, tem um monte de gente que jura que ele existiu, numa época em que não tinha nem um primórdio de fotografia para confirmar... E chefe, ai de quem falar que ele não existe! O povo te olha estranho, é perigoso sair até morte!

Porque é loucura um velhinho num trenó mágico puxado por renas e é plenamente concebível um cara que transforma, sem truque de câmera nem nada, água em vinho.

Fala sério Noel, sua moral tá muito baixa com a galera.

Me explica essa, tá? Não esquece minha Caloi!

Gabriel

Post conjunto com a Anita

(Galera, é o seguinte: estou indo viajar e sabe lá quando vou conseguir postar. Só garanto o do Ano Novo, certo? Feliz Natal, para que acredita...)

domingo, dezembro 21, 2003

#1 - Balanço do ano

2003 foi, para mim, a coroação da vitória da rotina. Que tudo tende, irremediavelmente, a uma sucessão de dias previsíveis, leves e rápidos, que escorrem pelos dedos sem você perceber. Mas não foi só isso. 2003 foi o ano para perceber que isso também é bom. Por mais que seja bom um pouco de novidade para sacudir a rotina, é terrível viver a base de novidades; como se você tivesse construído uma casa em terreno de terremoto: muito embora às vezes uma ou outra sacudidela seja divertida, tudo que excessivo é negativo.

Olhando para trás, vi que 2003 não foi um ano nem bom, nem ruim. Coisas boas acontecem, coisas ruins também. Mas nenhuma prevaleceu sobre a outra, pareceu-me que as coisas foram se sobrepondo, antes que eu conseguisse separá-las. Talvez também, em 2003, eu tenha aprendido a relativizar as coisas, não arrancar meus cabelos quando a casa caia, não comemorar demasiadamente as vitórias.

Pessoas boas voltaram, outras foram embora. Algumas te magoam, outras te surpreendem. 2003 foi meio assim, idas e vindas. 2003 também foi ano de perceber que as pessoas não mudam, então é bem mais fácil abaixar a cabeça e suportar os defeitos alheios que se enfiar heroicamente numa batalha de melhoria pessoal.

2003 foi ano de ver que a palavra amor é difícil e, por causa disso, tomar muito cuidado ao dizê-la.

No quesito realizações, 2003 foi um desastre. Como lamentar por isso é besteira, a gente pula de tópico.

Em 2003 que realmente percebi que o mundo é muito, muito grande. Cheio de opções. Cheio de gente interessante. E a visão que eu tenho de mundo é incrivelmente pequena. Sim, existem tantas possibilidades por aí que é um desperdício ficar pelos cantos, reclamando de uma vida que até poderia ter sido e não foi.

Conclui que 2002, 2001 e 2000 foram bons anos, apesar de tudo. Que errei muito, mas foi preciso. Aprendemos mesmo é com as derrotas, com os erros.

Foi só em 2003 que percebi a importância de definir metas claras. E como é importante não perder tempo com situações satélites que empacam de se alcançar o objetivo maior.

E talvez, o mais importante, que não se pode esperar muito de ninguém. Seja festa, seu melhor amigo, seus pais, seu curso, aquela viagem. Expectativas são cruéis, porque te iludem e fazem você não aproveitar as coisas in natura. Que somos seres sozinhos, muitos sozinhos. E por isso a companhia do outro seja tão necessária, tão redentora.

2003 foi ano de ver que as coisas só acontecem quando você menos espera. E Murphy de vez em quando dá um refresco.

2003 foi ano de perceber a importância de filtro solar.

Usem filtro solar (e vejam esse vídeo, pelo menos umas duas vezes por dia).

Se vocês pudessem me ver, estaria terminando o post com um sorriso.

Uma música feliz de fundo. Estou achando que, apesar de todos os contratempos, 2004 até tem jeito. A vida parece que tem jeito.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Já está decretado: estou de férias. Apesar da prova de Patologia daqui a 3 horas, da prova de Fisiologia daqui a 28 horas. Como se essas 32 horas que me separam das férias não existissem. Não existem. Definitivamente.
"'Cuz now it's Christmas
And I want everything
I just can't wait Christmas
So don't stop spending
I want a million gifts, that's right"
(Simple Plan)

Natal sempre foi, para mim, uma data exclusivamente comercial. Dia de ganhar presente, comer até passar mal, ver os tios todos tontos, amigo secreto, nada mais.

E antes disso, como é divertido montar a árvore de Natal! Sei que isso parece quase heresia, mas não entendo o tal "espírito de Natal" que todos falam. Não entendo qual a diferença do tal dia 25 de dezembro pro dia 14 de julho. Não entendo porque temos de desejar paz, felicidade, sermos altruístas e ajudar o próximo só no dia 25. É ridículo.

A Missa do Galo é um saco. Não aguento mais ver a cara do Papa. E só porque é Natal vem seu pai e sua mãe dando indiretas e lição de moral, "porque é Natal e hora de repensar nos seus atos".

Dia 31 de dezembro é tão mais bonito e cheio de significado. Ano novo, hora de virar a página, refletir sobre o ano que passou. Aí há motivo para comemoração por estarmos vivos mais um ano, desejar que o próximo seja repleto de realizações e coisas boas.

Natal não virou uma data capitalista, ela sempre foi uma data capitalista. Pelo menos para mim.

Queria ganhar um carro nesse Natal, mas é um sonho mais que distante.

Acho que vou pedir dinheiro mesmo, para eu poder viajar em julho...

Post conjunto com o Sete Faces

sexta-feira, dezembro 12, 2003

"Alguma coisa aconteceu", pensou ele, conferindo os quarenta e cinco minutos de atraso.

O desespero da espera talvez não seria a maior tortura. As rosas que trazia na mão já ameaçavam murchar. Os músculos da perna bambeavam, começando a ceder depois de tanto tempo trabalhando sem gemer.

Já estava no terceiro cigarro e as mãos chamuscadas de brasas permaneciam pensas, sem destino. Sentia-se observado, vigiado, pelos transeuntes que passavam. Sentia um pesado olhar de censura, como se fosse algo idiota esperar alguém, rosas na mão.

Mal percebia as agitações de dezembro, natalinas, implorando consumo. Ele estava embriagado por uma única obceção: vê-la, senti-la, tê-la. Seu tempo eram os minutos de atraso, os minutos do motel, as horas entre telefonemas. Um tempo que não se contava em dias, muito longos. Meses então... Muito menos.

As flores, na sua linha de pensamento, era apenas mais uma forma de suborno. Ela sorriria, alimentaria suas vagas aspirações românticas. Ele, espertamente, saberia que poderia pedir além do que ela cederia. Afinal, ele era romântico e compreensivo, havia trazido rosas e aguentado quase sessenta minutos de atraso.

Ele, sob o lume impassível do Sol, sentia-se desprotegido. Como se toda aquela luz pudesse revelar seus planos, de fato.

Ela era bela, muito bela. Por isso, a cada dia, a cada hora e minuto, ela seria dele.

Seu atraso de sessenta e cinco minutos necessitaria de uma grande compensação.

Ela seria dele, só dele, e de mais ninguém.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Lógico que, depois de uma aula daqueles, ninguém fica completamente ileso e insensível. Neoplasias são todas covardes, traidoras. Você trata suas células com tanto amor e carinho para depois elas revoltarem, adolescentemente, e metastatizarem por aí. Mas confesso que também estava sentindo um prazer estranho, de finalmente confirmar que aquele dente no ovário não era loucura, não era insanidade.

Apesar de ser desesperador pensar que todas aquelas doenças esdrúxulas podem estar acontecendo conosco ou com quem amamos muito nesse exato momento, existe aquela ponta de fascínio, aquela impressão do divino de estar cada vez mais perto das descobertas das maquinarias humanas.

É isso que mantém minha bunda nas cadeiras duras da faculdade, é isso que me impede de buscar outra coisa menos desgastante para fazer da vida. As tais engrenagens.

Você sabe que eu poderia ficar falando por meses sobre inocência perdida, em como inocência não redime pecados. Na nossa fragilidade, que tentamos negar a todo custo. Nesse sentimento de estranheza quando observamos a vida pela janela.

Não sei se foi o dia, o filme, a posição de Marte no céu, mas desci nesse mesmo estado de espírito do carro. Uma descrença tão grande, tão pungente das coisas. Uma sensação de finitude, que não devemos perder tanto tempo com coisas pequenas. Uma agonia torturante, que doía não sei como.

Seu post de hoje me fez respirar profundamente e segurar. Pensar muito. Não sei se isso vai ser bom ou ruim. Estou cantarolando Vinícius, "É, meu amigo, só resta uma certeza/É preciso acabar com essa tristeza/E preciso inventar de novo o amor" Quem sabe a resposta não é por aí?

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Estou em fase de descompensação. Confesso que meus dezembros costumavam ser mais divertidos: sempre era sinônimo de férias. Os únicos que ficavam em dezembro na escola eram aqueles que estavam em Recuperação Final, nunca era o meu caso. Mas os últimos três dezembros foram assim: estudo, dor de cabeça, querer dormir até mais tarde e não poder. Estou nas últimas. Não consigo mais estudar, não quero mais estudar. Não consigo mais me concentrar em aula alguma. Durmo, durmo e sempre vou para a faculdade com olheiras. Falta ânimo para as mais pequenas coisas, até ir ao cinema. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas estou prestes a jogar a toalha. Por isso, resolução para o final das aulas: quando voltar para casa, ir ao primeiro bar de Franca e tomar um porre homérico para comemorar. Nem adianta me reprimirem. Eu mereço. Não nasci para sofrer em dezembro. (vocês sabem o que é o tal Cloreto de Benzalcônio? Sorine!)

terça-feira, dezembro 09, 2003

"Ainda não são conhecidas a intensidade e a freqüência das reações adversas" (Bula do Cloreto de Benzalcônio)

Essa mania humana de cientificar tudo... E daí que não são conhecidas? E se o cloreto de benzalcônio provocar aumento da capacidade cognitiva ou melhorar o desempenho sexual? Alguém sabe a intensidade das reações adversas quando se apaixona? Quando se discute religião? Quando se avisa que um amigo querido morreu? Alguém poderia quantificar a probabilidade de acertar um presente de Natal para sua mãe? E o mais dedicado cientista poderia afirmar, com certeza irrefutável, quanto de atenção um suicida precisa para não levar a cabo seu sinistro plano? Não se pode deixar nada a cargo da surpresa nesses dias estranhos, mas deveríamos. Foda-se o cloreto de benzalcônio. Vamos tentar, viver e descobrir as coisas através dos erros.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Minha casa tem goteiras. Muitas goteiras. Assim, em todos os cômodos. Chegou num ponto de ter que colocar baldes na sala para não molhar o chão. A cozinha começa a apresentar manchas verdes de mofo. Eu, com toda minha rinite alérgica, venho aguentando como posso. Essa noite não deu. Fiquei até as 4 da manhã acordado. Espirrando. Dor de cabeça. Acabei dormindo na sala do telefone, o único lugar "mofo free". Como se não bastasse ser segunda, acordei morrendo de sono, nariz doendo, cabeça idem. Olhos ardendo, humor quase zero. Parece interessante que, apesar de toda nossa superioridade e tecnologia, temos que tirar o chapéu pra essas pequenas porcarias microscópicas que atrapalham nossa vida. Fazem nosso sistema imune achar que nós somos um grande invasor e sair atirando pra tudo quando é lado. E a gente sofre, impassíveis. É só bater febre e mal-estar que ficamos fragilizados, querendo colo, cama, canja. Alguém pra falar que tudo vai terminar bem, que é só tomar o remédio direitinho que passa. Estou assim, querendo dormir até na hora do almoço e tomar caldo de feijão, assistir Sessão da Tarde tomando chá com pipoca, tudo o que um convalescente mereceria. Além de não ter quem faça isso, não tenho nem lugar para. Minha casa parece um parque aquático e tem novos moradores: fungos!

sábado, dezembro 06, 2003

Gosto muito de assistir E.R. (Plantão Médico). Gosto mesmo. É muito bom ver os médicos falando de casos clínicos e eu entender alguma coisa. Pelo menos eu tenho a impressão que não estou na faculdade à passeio, nem que estou correndo sem sair do lugar. Nessa nova temporada tem dois residentes muito interessantes. Um deles está completamente desprepadado para trabalhar no hospital e sabe disso. Por isso, ele sempre está fugindo dos pacientes e das responsabilidades, sempre arruma uma desculpa para não botar a mão na massa. E quando põe, sempre erra.

O outro residente é dedicado, cheio de boas intenções, sempre disposto a trabalhar. Mas é muito precipitado e por isso, também erra. Ver esses dois residentes é visualizar o meu maior medo dentro da faculdade. Tenho muito medo de errar. Tenho medo de, quando chegar a minha hora de entrar no hospital, não estar preparado. Tenho medo de desmaiar na hora de entrar num Centro Cirúrgico, de fazer uma sutura errada, prescrever uma medicação incorreta. Tenho medo de matar alguém, de mutilar alguém, apesar de ter só boas intenções. Sei que não há aprendizado verdadeiro sem erro, mas é muito difícil errar quando pessoas estão envolvidas. Só torço para as coisas não serem tão ruins assim.

terça-feira, dezembro 02, 2003

"i'm going out for a little drive
could be the last time you see me alive
what if the car loses control
what if there's someone overtaking?
they wrap me up in the back of the trunk
packed with foam and blind drunk
they won't ever take me alive
cause they all drive killer cars"
(Killer cars - Radiohead)

O zunido das árvores correndo me hipnotiza, por isso ignoro quase tudo que me cerca. Não posso me entregar. Seria um pecado muito maior me entregar que continuar correndo. Desistir sempre é o maior dos pecados.

Eu e o mundo sempre funcionamos em diferentes velocidades. Porque o mundo é cruel, porque ele é aquele caminhão enorme que não liga a mínima se seu carro está parado, logo em frente. Porque o mundo mata, crianças, por isso que é preciso correr e correr.

Dirigir é difícil. Porque, além de mau, o mundo é ardiloso e meio sacana. O volante trepida, a embreagem é hesitante. O pára-brisa sempre embaça, as árvores são dissimuladas. A velocidade alucina, entorpece. Até gostaria de parar, mas não posso.

Talvez, talvez seja essa a última vez que estarei saindo. Talvez dessa vez o mundo me alcance. A estrada esteja suja, a barra do volante quebre. São tantas coisas. Tantas coisas que podem acontecer. Só tenho uma certeza, é que não posso parar. Nunca.

Post conjunto com o Sete Faces