terça-feira, novembro 25, 2003

"And I think everything is going to be all right
No matter what we do tonight"
(Pink - Aerosmith)

Talvez essa seja uma das melhores regras. Tudo vai dar certo no final, não importa o que aconteça: se não deu certo é porque não chegou no fim. Não, olhem que não sou do tipo otimista-descontrol. Não sou daqueles que acreditam que as pessoas são felizes, a essência humana é boa. Acredito que tudo vai dar certo no final porque não custa muita coisa. Não custa muito ficar otimista à toa, enquanto tudo a sua volta parece estar afundando. O prédio está desmoronando e você pensa: vai melhorar.

Por isso, vez ou outra, não custa também acreditar que a noite vai dar certo, sem expectativas ou responsabilidades. Vai dar certo, pura e simplesmente.

Por exemplo: ontem eu estava um caco, com sono, precisando estudar, dor de cabeça. Daí me arrancaram do meu quarto, do meu merecido descanso, com um copo de vinho. Daí mandei meu tratamento de antibióticos pro saco e fui tomar vinho. E compramos um galão de vinho, bebemos, bebemos. Pelas minha contas, tomei mais de um litro. Fui dormir. Eapesar de ter dormido apenas 6 horas, hoje, acordei com uma disposição como se tivesse dormido o dobro.

O dia voltou a ser ensolarado, após dias e dias de chuva e nuvens.

Tudo deu certo.

Post conjunto com o Sete Faces

terça-feira, novembro 18, 2003

"Não se profana imunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo"
(Lavoura Arcaica - Raduan Nassar)

Já me criticaram por esperar demais. Não sabem que trago na pele as marcas das más passagens de tempo, de tentar adiantar algumas horas no relógio ou arrancar algumas páginas do calendário.

Quisera eu não estar sob o inescrupuloso domínio do tempo. Poder fazer o que quero no momento que achasse melhor para mim. Aprendi, das piores maneiras, que não se pode adiantar a primavera para colher as flores, nem o outono para colher os frutos. É preciso aprender o difícil exercício da espera, da contenção, do rescaldo. É preciso suportar a vida morna antes que ela comece a verdadeiramente aquecer.

Acima de tudo, é preciso aprender a enxergar o momento. Quando o tempo cerra os olhos e renuncia ao seu turno. Mesmo na espera, é preciso permanecer com os músculos tensos, taquicardia e respiração ofegante, para mergulhar de cabeça quando o sentinela vira as costas.

Que me perdoem os precipitados, mas este é um pecado mortal.

Post conjunto com o SeTe FaCeS

sábado, novembro 15, 2003

Você sorriu para mim, uma, duas, três vezes, e eu fingi que não vi. Não sei se você entendeu que minha vida é dividida em duas e o universo que você me enxerga é a metade errada da maçã, a face visível da Lua.

Não sei se seria o correto pedir para você esquecer, esquecer. Não seria justo, mas parece ser o melhor a se fazer. Não insistir, não persistir. Minha vida na metade errada da maçã é tão errada que nem concerto tem mais. Eu estou prestes a não insistir nela também.

Estou em Coromandel, deveria estar pensando mais no corpo e menos na alma. Mas é essa Lua, essas estrelas, esse cheiro de perdição que me fazem pensar nas coisas que não tem jeito.

Na metade errada da maçã.

sexta-feira, novembro 14, 2003

"Love is a temple
Love the higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl"

Brinco que escrever em blog é complicado mesmo, ainda mais quando você resolve botar um pouco do seu cotidiano. Tem dias que se passam tão inutilmente que só forçando você consegue escrever alguma coisa. Outros, que acontecem tantas coisas que ninguém teria paciência de lê-las todas.

Por exemplo: hoje teria que escrever sobre minha última aventura capilar. Mas aconteceu um fato mais urgente que vai adiar esse post por tempo indeterminado.

Hoje vou falar sobre amor. Amor incondicional. E não estou falando só de amor carnal. Além do óbvio amor de namorados, inclui-se aí a amizade, relação com os pais. Estou falando daquele sentimento de cumplicidade irresoluta, apesar de tudo que você é. Que por falta de nome melhor, pelo menos eu chamo de amor. Mesmo sabendo que amor é uma palavra perigosíssima.

Acho que todo o amor deveria ser incondicional. Não acredito em pessoas que dizem: "olha, eu te amo até esse ponto e não me cobre além disso". Não acredito em amizade que precise de ponto final. E, acima de tudo, essa incondicionalidade nunca deveria ser cobrada. Deveríamos aprender a enxergá-la quando inicia e entregar os pontos caso ela desapareça.

Ando meio descrente com essas coisas. Principalmente porque tive que escutar que "sou amado até certo ponto" e se eu passar desse certo ponto, tudo acaba, como se nunca houvesse existido. É triste, mas com o tempo a gente aprende a relevar, contar até dez, respirar fundo.

Mas há sempre notícias que vem de longe e te fazem perceber que existe uma luz no fim do túnel. Dá esperanças: por mais que os dias permaneçam nublados, os prognósticos continuem ruins. E tudo isso é uma fórmula insistente para eu continuar no meu caminho.

O amor não é uma gaiola. O amor seria a receita para se aprender a voar.

"We get to carry each other"
(One - U2)

sábado, novembro 08, 2003

Queria escrever um post sobre amor, mas a única coisa que consigo lembrar é a chuva de granizo, que enfrentamos na divisa de Minas Gerais com São Paulo.

Fazia tempo que eu não via uma tempestade assim, de não se ver palmo à frente. De ficar 15 minutos no acostamento, parados, espectadores das intempéries da natureza.

O carro tremia com o tamborilar do granizo. Amassava a lataria, as portas, o capô. Trovejava demais, iluminando rapidamente o dia escuro que se fazia. Nós, dentro do carro, sem fazer menor movimento.

Alguns carros heroicamente prosseguiam, apesar da chuva.

É agoniante ser meramente espectador das coisas. Principalmente quando a única coisa que você faz é ficar dentro do carro, esperando a tempestade que insiste em nunca passar.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Não gosto de pessoas sem noção, mas sei que é importante ser sem noção de vez em quando. Não gosto mais ainda das pessoas "livro de ponto, manifestação de apreço ao senhor diretor", que do alto de sua "superioridade" acham que a Terra é plana, ficam procurando palavras complicadas para coisas simples e criticam que tenta levar uma vida menos estressante, porque ela não é hollywoodianamente perfeita.

Por isso fui ver Matrix Revolutions ontem. Por uma vida menos ordinária.

O combinado era o seguinte: a maior galera ir ver Matrix a caráter. Ou de Agente Smith, ou de Neo, ou todo de preto. De óculos escuros e cara de mau.

Ontem era um dia todo de possibilidades, prova de Patologia de manhã: sucesso e catástrofe no mesmo copo. Patologia é uma coisa complexa: prova de inflamações, mil citocinas, fatores de crescimento, células inflamatórias. Para quem vai bem é a glória, para quem vai mal é uma baita dor de cabeça. E não fui bem nem fui mal.

Choveu um pouco, ficou um dia meio nublado o dia inteiro.

Acabou a aula da tarde, fui para casa aprontar meu visual. Fiz a barba, coloquei o terno, botei meu cabelo pra trás com gel. Perdi meus óculos escuros para achá-los alguns minutos depois. Olhei-me no espelho: vagamente parecido com o Agente Smith. Fui para a casa da Anita, que ia nos levar até o shopping.

Anita estava de tailleur (é assim que escreve?), como se fosse o meu protótipo feminino: cabelo para trás, blazer, saia "nos limites da moral e dos bons costumes", como ela mesmo fez questão de frisar. Logo logo a Thallita chegou, toda de preto. Fomos pro shopping.

A Anita tinha francês e nos largou no shopping pra entrar na fila. Sete horas da noite, sendo que a sessão era as nove. Eu e Thallita andamos um pouco no shopping, algumas pessoas olhavam com cara estranha mas não era nada fora do normal.

Nosso pessoal não fantasiado foi chegando, e nós fomos acomodando a galera na nossa frente bem à brasileira.

Até que, surgindo da escada rolante, apareceram: Joey, todo de preto e sobretudo, a la Neo. Nem faltando os óculos de sol. Erick, todo de preto, a la Neo também. E Lísia, toda de preto, fazendo par com a Thallita. Foi aí que a parte divertida começou.

Coloquei meus óculos de sol e começamos a bater fotos nossas. Sim, ainda estávamos na fila do cinema. Fizemos cenas de luta, batemos fotos da galera. O povo da fila ria absurdamente da gente. Tinha gente que passava com aquela cara fuzilante de "vocês são estranhos", outros de "vocês são ridículos". Mas muita gente só ria do nosso nonsense, achava legal, achava divertido. Nós estávamos rindo muito e divertindo absurdo.

Outra galera não fantasiada foi chegando e sendo acomodada discretamente na fila.

O Joey fez o maior sucesso entre as crianças.

A Anita chegou, para completar o sexteto.

Até que, 10 minutos antes da sessão começar, começou aquela confusão de: não cortei fila, você tá pensando que tá falando com quem, aquele povo lá da frente botou um monte de gente na fila.

Adivinha quem era o povo da frente? Lógico que tinha que ter a emoção do dia.

Ficamos contando os segundos pra abrir a sessão e evitar cenas mais constrangedoras. A moça do cinema até tentou esboçar de tirar um ou outro do nosso grupo da fila, mas somos bons em argumentação (vide regra número 1 postada recentemente pela Anita) e entrou toda galera sem maiores apuros.

Fomos os primeiros a entrar, o que não impediu um sprint nosso escada acima para pegar os melhores lugares. O sexteto sentou todo junto. A galera não fantasiada também, os casais sentaram juntos, tudo maravilhosamente perfeito.

E o filme começou.

E depois do filme, mais fotos. No cinema, na escada rolante, nos telefones, no banco, com pose de mau, bota os óculos, tira os óculos, essa é rindo, junta a galera toda, só mais uma, duas, tira de novo.

Divertimo-nos como crianças no parque.

E para terminar, um lanche na frente do Pronto Socorro, ignorando todas as possibilidades do alface estar contaminado por Salmonellas ou outro patógeno da Microbiologia.

Balanço final do dia: um dos melhores que tive em Uberlândia. Pela bagunça, pelo nonsense, pelo prazer de estar todo mundo junto, pelo filme que até que é bom.

Valeu pela dose de insanidade diária e necessária para a manutenção da vida.

obs 1- E para quem interessar, não sou fã de Matrix. Não sou do tipo conspiratório que acha que os States nos mantém na Matrix, que foi invenção da CIA, essas coisas. Ninguém era, na verdade. Isso tudo foi só uma válvula de escape.

obs 2- Não, não iremos à caráter no terceiro episódio do Star Wars nem do Senhor dos Anéis.

obs 3- Vai rolar foto no(s) blog(s) sim, assim que os filmes forem revelados. Não basta pagar o mico: você regista e guarda pra posteridade.

terça-feira, novembro 04, 2003

"Tudo está perdido mas existem possibilidades"
(Legião Urbana)

Foi como se tivessem me dado uma bofetada na cara e, finalmente, acordado do sonho. Tudo estava escuro, naquela escuridão solitária sem fim. Eu e minha respiração forçada e irregular, somente.

Agora já não teria mais o privilégio dos erros. Agora o jogo começa frio e cruel, com cada erro custando muito mais que eu possa imaginar (e conseguir) pagar.

Terei que alterar meus passos hesitantes, dissimular meu medo do futuro. Precisarei ter uma segurança que nem mesmo eu acredito que tenho.

Ou desistir antes da melhor parte do filme começar.

Se tivessem iluminado meus passos, nunca teria tomado os caminhos da perdição. Pois bem, agora me restam tão poucos. São úmidos, herméticos, nenhum verdadeiramente seguro.

Mas se me servir de consolo, ainda existem caminhos.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, novembro 03, 2003

Tenho pensado muito e escrito pouco. Não por minha culpa: os laboratórios da UFU conspiram contra mim, falta tempo, falta tudo. Por isso, vocês tiveram a sorte de não lerem post enormes, de momentos difíceis. E achei isso até bom, para esse blog não ter tanto aquele caráter de "muro de lamentações".

Tenho me culpado demais. Tenho me odiado com uma freqüência muito acima do normal.

Tenho ido à academia, não tanto quanto deveria, não tanto quanto gostaria. Mas tem sido bom. Por exemplo: depois de uma catastrófica prova de Fisiologia, fui afogar minhas mágoas em 4 séries de 20 abdominais. Foi ótimo. Voltei, ao menos, consolado para casa.

Tenho recebido e-mails muito legais, de pessoas legais. Para contrapor as frases cruéis que tive que escutar e engolir em silêncio, para o bem-estar geral da nação. Para insistir, para persistir, que a culpa não é minha, que o tempo é o melhor remédio. Para eu não acreditar no Eletric Soft Parade, "And all I know is no-one is my friend.
And it's empty at the end".

Tenho lido cartas de Clarice Lispector. Tenho escrito cartas minhas também.

Tenho resistido aos meus impulsos, mesmo sob grave efeito de cerveja e vodka.

Tenho boas notícias virtuais. Joey retornou ao blog, Paulo começou o dele, o Argumento publicou um texto meu.

Os dias estão ensolarados, apesar da chuva. Pelo menos, parecem estar.

É preciso seguir em frente, sempre. A vida continua.