quinta-feira, agosto 07, 2003

"Digamos que um dia você percebesse que seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão..."
(Ana Cristina Cesar)

Por isso chorei. Escutando Fake Plastic Trees. Foi me dando uma coisa esquisita. Aperto, sufoco, apnéia. A gravidade que sempre vence. As coisas de plástico, que nos cercam. O gosto frígido, sólido, do plástico. O brilho opaco e inconcluso do plástico. Tudo é plástico. Tudo tão plástico. E eu me senti realmente industrializado, sem individualidade. Polietileno pré-moldado. Inútil, como qualquer coisa vinda de linhas de produção. Por isso eu chorei, all my fake plastic tears. Não, não porque eu esperasse que acontecesse alguma coisa depois disso. Não chorei por arrependimento, por mágoa. Chorei porque talvez já tenha me cansado de me entorpecer pelos flavorizantes, pelos corantes, pelos conservantes. Este é o nosso ópio, nossa salvação e prisão. Todo esse nosso mundo de ilusões, límpido e belo...

Mas já é tarde demais para voltar para trás, para fugirmos de nossa sina de plástico. Nossa pele é de polimérica, emborrachada, quase impenetrável. Nós somos manequins de uma loja qualquer, tentando vender qualquer coisa sem importância. Nosso tato já é grosseiro demais para as pequenas minúcias de nossas complexidades...

segunda-feira, agosto 04, 2003

Era um corredor longuíssimo, com um quadro de Rembrant e uma máxima latina no final. Atravessávamos a passos curtos e cautelosos, que reverberavam no corredor escuro. A primeira vez que veríamos nosso cadáver. O laboratório de Anatomia era amplo e enorme, iluminado pelo lume débil das luzes frias. Em seis mesas metálicas provavelmente repousavam os cadáveres, coberto por um plástico verde-água. Silêncio agudo. Caminhamos para a bancada que nos foi reservada, com olhares estáticos de novidade para aquela cena morta que nos foi revelada. Os olhos marejavam e nossos narizes ardiam pelo recém-conhecido formol, que se tornaria companheiro inseparável nas horas de dissecação. Retiramos o plástico e um lençol embebido em formol. Era uma mulher idosa e feia.

O professor, com nenhum traço de misticismo ou piedade, explicou-nos o que deveria ser feito no dia seguinte: um corte do esterno ao diafragma, depois acompanhar o arcabouço formado pelas costelas, retirar a pele e a gordura para isolar os primeiros músculos. Olhamos para o cadáver, de pele insensível e sua vaga lembrança de ser humano. Parecia um boneco de borracha, de face disforme, nariz torto, olhos foscos. Alguém falou: “Ela precisa de um nome. Todos os cadáveres têm um nome dado pelos alunos que os dissecam”. Concordamos com a cabeça afirmativamente, silenciosos. Luzia, Mônica, Lilith, Maria, nenhum estava bom. Rose, disse nossa colega de olhos tristes. Concordamos novamente com a cabeça. Era um bom nome, enfim. A aula acabou, com a promessa de começarmos a dissecação já no dia seguinte. Voltamos pelo mesmo corredor, sérios e com passos pesados.

Confesso que a noite foi difícil, mas dormi um sono dos justos. O medo de Rose vir puxar meu pé enquanto dormia mostrou-se uma superstição infantil. Tomei meu café da manhã sem sobressaltos e fui à faculdade. O corredor do laboratório estava longuíssimo novamente, o laboratório estava do jeito que havíamos deixado, os cadáveres cobertos com o mesmo plástico. Logo o professor apareceu e mandou dar início aos trabalhos da manhã. Éramos oito pares de olhos hesitantes com oito bisturis na mão. Ninguém se propunha a dar o primeiro corte. Porque em todo corpo há uma impressão do divino, de inviolabilidade a custo de nossa salvação, como na época de Leonardo da Vinci. Assim, violá-lo seria uma heresia. Felizmente, essa era a última teoria que pensaríamos (ou acreditávamos) e, sufocados pela curiosidade, o primeiro corte foi dado. Fiquei encarregado do segundo. Taquicardia. O bisturi roça a pele morta. A pele de Rose era rígida igual borracha. Coloquei um pouco mais de força. O bisturi penetra. Cortei igual manteiga. Um calafrio quando senti que o bisturi estava cortando. E quando terminei senti-me profundamente orgulhoso e realizado, como se agora, iniciando o desmonte da máquina perfeita, eu também tomasse conhecimento dos mistérios mais elementares da existência humana. Incluído aí, toda a arrogância de quem se julga descobridor de todas as engrenagens.

Logo já estávamos dissecando com entusiasmo e desenvoltura, conversávamos animadamente sobre a Copa do Mundo que estava na sua metade. Rose era apenas um instrumento de revelação. Daí veio o cinema, a prova de sexta-feira, a inauguração da boate no shopping, uma piada. Limpávamos as gorduras localizadas com a destreza adquirida na preparação de bifes. Alguém comentou: “Vocês perceberam que dissecar abre o apetite?”. E todos concordaram sorrindo, famintos e radiantes com a descoberta da artéria torácica interna.

E os corredores do laboratório de Anatomia perderam sua imensidão relativa. Quanto mais destrinchávamos Rose, mais voltávamos com a alma leve para casa. Nossa consciência, sem assombro nenhum, também.