terça-feira, julho 29, 2003

"Pois juro que a vida é bonita"
(Clarice Lispector)

Ontem vi uma paineira, carregada em flor. Hoje, um ipê amarelo, quase agressivo. Hoje não vou falar das misérias da nossa vida, das insatisfações. Não vou falar do nosso egoísmo, das nossas inconclusões. Não, hoje vou falar de coisas leves. De um amigo meu que se apaixonou por uma prima que conheceu só em sonho. Ele era mais cético que eu, e agora até abre uma brecha para ilusões. De uma amiga que começou a dançar, inesperadamente, no meio do trabalho de MPC quando estávamos todos quase desparafusando. De outra amiga, dizendo que tudo vai dar certo, tudo está sob controle. Fechar um bar numa terça-feira, tendo aula cedinho na quarta. Ir ao cinema em véspera de prova, sem peso na consciência. Cantar na chuva. Quase ligar pro CVV, de madrugada, só para ver o que os caras falam. Passar em Bioquímica. Chegar de mala na aula, diretamente da farra grossa. Coromandel. Quase férias. Cantar "If you like Piña Colada" sem medo de parecer ridículo. Rod Hanna. Sonhar com um Black Label, mesmo não sabendo tomar whiskey. Uma torta monstruosa de chocolate, cheio de cerejas. Quase filme a dois. As morenas, os butecos. Descobrir que a mãe não é uma agente perfeita da CIA. Aprender a dirigir e não afogar o carro num semáforo. Escutar elogios de quem menos se espera. Ler Harry Potter na aula de Fisiologia. Falar com a Dani de madrugada, tonto, tonto (e diga-se de passagem, ela tem uma voz linda pra caramba). Ver um filme que se passa em Londres. Ver uma série que se passa em Londres. Papel de parede do Pacífico Sul. Um amigo que volta do México. Perceber que tudo mudou, sem ter mudado absolutamente nada.

E apesar dos desencontros, até que essa vida tem um pouco de graça.
Como toda terça, post conjunto com o Sete Faces

sábado, julho 26, 2003

A gente quer quase tudo. A gente quer cinema toda semana, só filmes bons. A gente quer a Siciliano a preços acessíveis. A gente quer ganhar na loteria. A gente quer ser famoso, por alguma coisa importante. A gente queria ser Bandeira, Drummond, Clarice. A gente quer o Radiohead no Brasil, porque a gente gosta de música triste. No fundo, a gente gosta um pouco de ser triste, uns três segundos por dia. A gente gostaria de ter dinheiro pra ir no show do Coldplay. A gente gostaria que o Rock in Rio fosse no Brasil. A gente quer ir no Pacífico Sul. A gente quer fugir pra Londres, não porque lá a grama seja mais verde. Não me pergunte porque porque a gente gosta de Londres, e não Ancara, Alma Atta, Bali - a gente não sabe. A gente quer piercing na sombrancelha, tatuagem de escorpião. A gente quer ver os outros felizes. A gente jura que quer, sinceramente, a paz mundial. A gente quer que o Lula dê certo. A gente quer encontrar alguém por quem valha a pena morrer. A gente quer uma causa, um caminho, uma resposta. A gente quer conhecer a gente. A gente quer tanto, tanto, que a gente enjoa de tanto querer. A gente sabe que é impossível, quer não alcançaremos tudo. Mas a gente insiste querendo, porque o querer é maior. E a gente continua a querer, indefinidamente, aquilo que nos é negado e quer deveria ser nosso por direito. A gente insiste, sempre. Pois só não quer quem já morreu.

quarta-feira, julho 23, 2003

"You're so naive!"
(Get me away from here, I´m dying - Belle and Sebastian)

Disseram-me que sou inocente, duas vezes no último mês, e me assustei. Assustei-me porque sempre achei que passava longe de ares de inocência: sempre achei que era mau, esperto demais. Sempre acei que me vissem assim: avesso, gauche. Sempre achei que era um tipo de anjo niilista. Eis que pergunto, o que tenho de inocente? De anjo, só tenho o nome. De puro, nem as idéias. Por isso, escutei me dizerem isso com um vago sorriso na boca, meio cúmplice. Sempre achei que era menino crescido e afirmava isso batendo no peito: pois é, não sou; Quisera eu ser de todo inocente: pois bem, também não sou. Não sou o que quero, nem o que querem de mim. Sou aquilo que ficou no meio do caminho. Insuportavelmente meio-termo, vir-a-ser.

Então, tenho dias de ser inocente sim, tenho dias de ser avesso. "Tenho fases, como a Lua"*. Quem sabe um dia serei inteiro, ponto final. Porque acho que quero respostas inteiras agora, não mais pelas metades...

quinta-feira, julho 17, 2003

Foi quando cheguei ao meu limite e perguntei: porque estou fazendo isso? Já era madrugada, estávamos no hospital domando um trabalho de MPC (Medicina Preventiva e Comunitária) quase épico. Foi quando atingi o esgotamento mental, lá pela sexta hora consecutiva. Perdi o curso de hipnose, perdi o especial do Radiohead, perdi a confiança em mim. Eu poderia estar em Coromandel, Franca, praia, em minha cama, mas não: estava no silêncio assustador dos hospitais pelas madrugadas, calculando porcentagens e acertando concordâncias. Eu acreditei que tudo daria certo, com minha fé habitual: e não deu. Eu acreditei que se eu desse o melhor de mim, se eu fosse o melhor que eu poderia arrancar de mim, tudo daria certo e eu seria feliz para sempre: e isto não aconteceu. Enquanto a cidade dormia e os pacientes gritavam em seus quartos pelos mais diversos motivos, eu estava acordado e sozinho. E eu entregarei este trabalho e esta madrugada não mudará a porcaria de vida de ninguém. Madrugada inútil, como eu e minha capacidade de mudabça. Só me ajudou a confirmar que estou vivendo uma vida completamente errada e desnecessária: e não sei viver de outro jeito. Não sei.