terça-feira, junho 24, 2003

"Why does it always rain on me?
Is it because I lied when I was seventeen?
Why does it always rain on me?
Even when the sun is shining
I can't avoid the lightning"
(Why does it always rain on me - Travis)

Gostava de chuva, por algum motivo inconsciente. Talvez porque nunca tivesse percebido que sua vida fora de tempo nublado, neblina, garoa, temporais, desde que se lembrava. Era o orgulho da família: as tias o chamavam de sobrinho perfeito, mil agrados na casa dos avós, planos de riqueza e felicidade às suas custas. Era um garoto bom demais, verdadeiramente demais. Mas não se sentia especial apesar do que era, apesar de toda sua bondade e capacidade. Sempre teve o que não quis, e o que quis, não teve. Não sabeiria descrever a água de sua sede: só sabia que tinha na boca um deserto. Que em sua maquinaria sempre faltava uma peça.

Vivia, enfim. Vivia apesar da vida, sempre esperando o céu abrir num lindo dia ensolarado. Ia matando o tempo antes que se matasse. Porque a vida certa não havia trazido grandes benefícios, foi para o caminho errado. Aprendeu a beber e as levíssimas resoluções da embriaguez. Aprendeu a beijar, a fumar, a se perder. Aprendeu a ser triste sem o parecer. Não que isso fizesse a chuva parar de fato - mas dava a esperança de mudança , como se quebrando sua aparente perfeição traria dias belos de volta. Como se sua vida fosse regida por um infame mecanismo secreto: só andando pelas sombras traria o retorno da luz.

Foi quando seus pais descobriram. Ser feliz não estavam em seus planos - iria fazer engenharia mecatrônica, estagios na NASA e enriquecer a família. Dar festas para 800 pessoas. Seus amigos de farra o chamaram para fugir para Guiné Bissau, sem passagem de volta. Falou que ia - porque havia se cansado de estar molhado, tiritando. Agora queria, como nunca, dias de sol. Mas naquela noite choveu tanto, inundou a cidade, morreram 12 em um deslizamento num bairro da periferia. Daí ele entendeu que não poderia fugir de seu estad chuvoso. Disse não e foi ser engenheiro. Foi ser perfeito. Foi aí que descbriu que as chuvas eram apenas o início...

(Post conjunto com o Sete Faces. Toda terça eu e Anita escolheremos uma frase comum e escreveremos um post sobre. Why does it always rain on me foi minha escolha pessoal. É a música dos meus 17 anos. Porque toda vida tem uma tendência absurda de dar errado. E eu adoro dias chuvosos. Ah, li uma crônica de Clarice ontem, então não reparem se esse post estiver meio contaminado...)

sábado, junho 21, 2003

"Gravity always wins"
(Fake plastic trees - Radiohead)

Estou quase triste. Special people change. Planos não dão certo. Murphy rola solto. A vizinha da Anita morreu. Um amigo de infância à beira da morte. Não consigo botar duas semanas de novidade a limpo de novidades com meu melhor amigo. Não consigo estudar. Por mais que a gente fuja, nunca conseguiremos escapar dessa tendência cruel das coisas sempre dificultarem, piorarem. Hoje é o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Um amigo meu falaria em "presenças malignas", afinal, hoje é um dia com tendência à escuridão. Mas, reforçando, digo quase triste. Porque tive uma noite maravilhosa. Posso recuperar uma amizade perdida. Vai ter lasanha em casa. Matei saudade de muita gente. Peguei 12 músicas em mp3. É aniversário da minha mãe amanhã. Foi aniversário da Thallita ontem. 700 pessoas já visitaram meu blog. Closing time. Porque há sempre a esperança, por mais escura que seja a tempestade.

Se a gravidade sempre vence, se estamos fadados ao fracasso... porque nos preocuparmos? Por isso estou quase triste. Sei que tudo isso é inevitável, portanto... independe de mim.

sexta-feira, junho 20, 2003

"We are all made of stars"
(Moby)

Porque ela caminhava todos os dias fitando as estrelas, como se esperasse a resposta de todas as coisas que havia vivido ou sentido. Ela não havia nascido para ser entendida, e sim decifrada, como todas as verdades que se revelam aos poucos. Fitava o céu como fitava a si mesma, pois o céu também possui seus caminhos secretos e seus mistérios íntimos. Cada um levava sua vida como se o outro não existisse - e quando a noite caía e todos iam dormir, ela se levantava e ficava olhando as estrelas. O céu, em resposta muda, piscava as estrelas como nunca. Longas noites se seguiram nesse duelo inesperado e aprenderam, lentamente, a se entender. O céu revelava os segredos de suas estrelas, na mecânica celeste absoluta e matemática; ela apresentava os segredos de sua alma, que vêm à tona quando menos se espera. Mas a vida é cruel, os caminhos que nos são reservados, estranhos. Ela foi estudar pessoas ao invés de estrelas. Desaprendeu os caminhos do céu e tomou os caminhos que apontavam para dentro: o sutil equilíbrio dos eletrólitos, a mágica dos tecidos humanos, a desordem dos sistemas venosos.

E aprendeu a ficar triste, um pouco a cada dia, daquelas tristezas patológicas que ninguém sabe explicar. E aprendeu sorrisos e olhares. E aprendeu a decifrar os outros. E num dia que tinha tudo para ser triste, porque tudo estava tão sufocantemente igual e a rotina pesava gotas de sangue, ela deitou no chão por piedade e deixou-se ficar. E o céu estava lá, como sempre, como nunca: o pálio aberto só para ela. Cada estrela e seu brilho desesperado, implorando socorro. Com aquele lume lancinante de lágrima. E sorriu para o céu, um sorriso amargo e ambíguo, mas ainda um sorriso. Porque tinha descoberto uma das respostas que queria: que somos todos, de certa forma, brilhantes e inalcançáveis...

quarta-feira, junho 18, 2003

"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade" (Clarice Lispector)
Será que, se aparecer aquela chance de felicidade, eu a agarraria? Se alguém aparecesse com uma passagem para Londres no dia 28 pro festival, ou meu tão sonhado emprego no Taiti, uma viagem só de ida para Portugal, a pessoa dos meus sonhos, eu jogaria tudo para o alto e iria? Estava conversando isso na fila do computador com uma amiga minha. Nós reclamamos, vamos à psicóloga, choramos quando estamos bêbados. Mas realmente tentaríamos ser felizes se nos fosse oferecida a oportunidade? Sinceramente, acho que não. Ficamos lamentando sobre namoros que não deram certo, pessoas que poderiam ser diferentes, a vida ser mais fácil... E deixamos nossa vida passar. Todas as grandes oportunidades passarem. Talvez porque estejamos esperando a pessoa certa, o momento certo. E daí quando vemos já se passaram dois anos, alguns meses, nossos antigos sonhos não fazem sentido. Esperamos que a vida nos avise qual será nosso momento de felicidade suprema e, se não formos avisados, deixaremos passar. Estamos intoxicados por Hollywood e as promessas vagas de fórmulas de felicidade enlatadas; esquecemos que não estamos num filme e na vida real somos nós - e não Deus, destino, acaso, macumba - que construimos, solidificamos e consolidamos nossa felicidade. Não é algo que nos é oferecido, e sim conquistado. Não tomamos os caminhos errados. Acho mesmo que não aprendemos a fazer os certos...

sábado, junho 14, 2003

“Where the streets have no names”
(U2)

Pensar que está atrasado e acordar de sopetão – daí descobrir que é 7:45. Ninguém merece acordar tão cedo em pleno sábado. Anita de carro, na hora, com aquele tanto de fichas. O dia vai ser longo. Eu de co-piloto. A Kelly toda envergonhada. Não, não reparem na bagunça. Ih, você não viu meu quarto. Quantos moram aí? Plano de saúde da funerária? E o Lucas era esquizofrênico. Como assim, não tem o número? Não Anita, eu sei onde estou. Sempre sei. Bom dia dona Sandra. Seu marido teve malária? Teve? Sei... Aquele filho dela tinha uma cara de mala, né? Troca de CD que esse acabou. O Chicago tá ótimo. A gente volta depois do almoço. Eu também não gosto de Jim Carrey. Almoço. Seu Aristides? E a dona Adelita descambando a falar. Não dona Adelita, a casa não ta bagunçada. Ele perdeu o dedo? Fibromialgia? Fisioterapia? Ah, é no NAASS. Tá, a gente anotou. Ela fala mais que o homem da cobra mesmo. Seu Benildo, bom dia, nós viemos fazer uma pesquisa. Uma cara feia. Respostas secas. Entrevista recorde, 10 minutos! Como assim Anita, você perdeu seus óculos de sol?! Não tô afim de bater no seu Benildo de novo, você de desce, o óculos é seu. Tava no meio da rua, ufa! Ninguém na casa do seu Jorge, só aquele cachorro chato. Dona Esmeralda mandando a gente voltar mais tarde por causa do almoço. Ah nem, diabética ainda. Questionários de diabetes são enormes. Cadê o Ademir? Você não sabe responder? Depois nós ligamos. As coisas estão começando a dar errado. Anita, eu tenho certeza onde estamos, já falei que eu sempre sei. A culpa nunca é minha. As menininhas indo pra festa junina. O motoqueiro nos xingando, como assim você não enxergou?! Com a Ana Cláudia foi rápido. Formada em Serviço Social? Minha mãe também! Calma Anita, eu sei. Acho que estamos andando em círculos. À esquerda. Não, tenta à direita. Deu vontade de tomar sorvete, daqueles de taça, escorrendo... Contorna a praça. Onde é o número 60? Não Dona Maria, não tá uma bagunça. Ele cata lixo na rua? A gente vê um psiquiatra. Úlcera? Dor nas costas? Seu Farley, a gente anota dos dentistas. Não, não precisa de um café, nós estamos com pressa. Aqui não Anita, vamos tomar sorvete quando terminarmos. Chocolate a 39 centavos? Então pára! Lá se foi R$1,50. A gente andando em círculos. Troca de CD de novo, U2 tá bom demais. Lá na casa da Dona Esmeralda de novo. Diabética, mas até que era simpática. Autista? Valeu pela água Dona Valéria. Anita sonhando com pão de queijo e eu indo junto. Oi seu Jorge! Kardecista? Tá controlando a pressão?Alguma deficiência na família? Tem certeza? Ele é Down. Anita com aquele olhar de: “eu não te disse?”. Acabamos, hora de tomar sorvete. Enorme. Com maracujá. A cobertura endurecendo no fundo do copo. No supermercado comprando minha janta. 6 fatias de presunto. Tinha uma torta de morango no meio do caminho. Não fala de novo. Vamos jantar torta de morango então. Voltando, a Lua Cheia. Vendo São Jorge na Lua. Fechando as fichas e fazendo um post conjunto. A torta nem tava tão boa assim. Fim de dia, cansativo, surpreendente e hiperglicêmico.

quinta-feira, junho 12, 2003

"Yesterday I got so old
I felt like I could die
Yesterday I got so old
it made me want to cry
Yesterday I got so scared
I shivered like a child"
(In between days - The Cure)

Sobrevivi. Eu quase "quase morri" há 21 horas atrás. Tudo começou com um eletrocardiograma experimental, eu lá de cobaia enquanto a classe inteira assistia aquelas linhas esquisitas que apareciam na tela verde. O professor me fitando com uma cara séria. Várias ondas anormais. Meu coração, tão tosco, tão pobre, não sabia bater direito: batia devagar demais. Intermitente. Vagaroso. E eu não sabia.

Tudo tinha uma explicação técnica: uma onda P intermitente, uma onda R' presente, suspeita de falha no sistema de condução. Ramo direito. Me encaminharam para o hospital para refazer o eletrocardiograma, num aparelho mais moderno. Tudo acontecia tão rápido, quando vi estava nos corredores brancos do hospital. Eu e meu coração descompassado. E fazia tanto sentido... Eu era assim como meu coração: descompassado. Intermitente. Vagaroso. Sempre fui. E isso eu sabia.

Deitei na maca, a médica colocava os eletrodos. Perna direita, perna esquerda, braço direito, braço esquerdo, tórax. Me senti abandonado e esquecido. Hospitais não deveriam ser brancos; branco é cor de esquecimento. Tum-tum-tum, era o exame começando. A agulha nos traçados irregulares. Eu escutava minha respiração, meus batimentos, uma maca correndo ao fundo. A gente se preocupa com tanta coisa idiota para acabarmos numa maca, com mil fios, como se esperássemos uma sentença. Sentença de vida, sentença de morte. Essa mania idiota de julgamento. Essa mania idiota de nos condenarmos. Isso eu já sabia.

Ela me olhou com cara séria. Minhas ondas P quase sumiam. Meus batimentos chegavam, subitamente, a 50 por minuto. Problemas nas precordiais, ondas profundas demais. Quase se juntavam. Problemas demais. Sim, eu não era perfeito, nunca fui. Tinha um coração imperfeito. Eu era imperfeito demais, meus passos, minhas palavras. Aqueles lençóis brancos. Estava só, como estava só. Sempre soube.

A médica repassou o exame a um cardiologista especialista no problema que eu parecia apresentar. Era um médico pequeno, baixo, bem jovem. Pós-Graduado na UNIFESP. Esses nossos sonhos que um dia alcançaremos. Ele me salvou. Não tenho coração normal, mas não tenho coração imperfeito. Um coração sui generis, de atleta. Sorri. Hipersensibilidade parassimpática, essa era a resposta para o eletrocardiograma anormal. É um coração protegido contra as adversidades, que não precisa bater muito para suprir meu corpo. Um coração forte. Calejado, mas forte. Devagar, mas forte. Descompassado, mas forte. Vagaroso, mas forte. Imperfeito, mas forte.

E tudo é tão irônico, tão irônico. Porque toda onda me arrebenta, todo vento me enverga. E eu, pasmem, sou forte. Precisei de um quase problema cardíaco e um eletrocardiograma para perceber que lá no fundo, aonde não vejo e menos imagino, sou forte. Na bomba que me mantém vivo. E isso eu nem de longe imaginava...

terça-feira, junho 10, 2003

"And the band plays on"
(Randy Shilds)

Se um dia eu estiver prestes a cair, você me ajudaria? Porque esta é uma pergunta perigosa e complexa: não sei se você saberia me dizer a diferença entre aparar uma lágrima e suportar um sorriso. Porque escolhemos caminhos tão errados sem sermos errados e tão sozinhos nunca estando completamente sós. Você conseguiria distinguir este meu olhar de perdição dentre todos esses que possuo? Você ficaria até o final da melhor festa para apagar as luzes, abaixar o som, guardar as cadeiras, sem esperar nada em troca, sem esperar nada de mim além desse velho sorriso ensolarado de complacência? Porque o mundo é tão injusto, as pessoas são tão estranhas, estamos tão afogados em nosso próprio desespero... Você me ajudaria? Você me salvaria dos meus medos mesmo não sendo mutante, mesmo tendo os mesmos medos que eu? Você me salvaria? Somos tão identicos, vivemos as mesmas vidas de plástico pré-moldadas... Você me tiraria daqui, porque estou morrendo, todo dia, toda hora que passa... Você me tiraria? Mesmo assim, mesmo sabendo que a minha carne é a tua carne, minha alma é a tua alma, que o veneno que me mata dia-a-dia pode te matar com a mesma facilidade, ainda assim você me salvaria? Você veria o meu sangue gotejar do meu pulso para um cálice, naquela impaciência viva de gota de sangue, até que me esgotasse a vida, sem fazer nada? Nada? Você me salvaria?

Você me ajudaria a entender a maior crueldade da vida: porque ela sempre continua? Apesar de nós. Acima de nós. Acima de tudo. E a vida continua...

(esse post foi feito "em conjunto" com o blog da Anita, a mesma frase de início. Igual quando os canais passam o mesmo programa ao mesmo tempo, só que com apresentadores diferentes. Eu já falei pra ela parar de escrever, porque o blog dela já tá ficando melhor que o meu. Daqui a pouco, quem para de escrever sou eu - rs)

domingo, junho 08, 2003

É isso, grandes expectativas, que acabam com tudo o que a gente faz, ou sonha, ou espera. Porque esperamos os momentos anunciados de nossa vida com tanta esperança de felicidade irresponsável que esquecemos todos os fatores que conspiram contra nós. E quando chega nossa hora de estrela, o clímax do clímax, somos diluídos em copos de vodka e palavras desnecessárias.

domingo, junho 01, 2003

"Soy un perdedor
I'm a loser baby, so why don't you kill me?"
(Loser - Beck)

Você diz que me ama, me diz coisas lindas, falamos sobre passado... É, já faz quase um ano, não? E você me destrói, de uma maneira tão sutil e simples que eu fico sem entender. Ou melhor, confirmo minhas teses murphianas, confirmo que vim ao mundo para perder. Você me diz, você é especial e eu acredito. Acredito tanto que você consegue, em alguns poucos minutos, me levar do céu ao inferno e tranformar todas as coisas doces que me dissera há pouco como condenação eterna a minha condição de refém do destino. E eu sou um idiota, deveria ter me levantado e te deixado falando com as estrelas. Mas eu sou um perdedor, eu sempre escuto até as últimas palavras. Eu sempre viro meu copo de veneno até a última gota. Falta-me coragem, falta-me confiança, falta-me quase tudo. Sou um esboço de qualquer coisa que ficou pelo caminho. Você me pede uma segunda chance, eu nego. Não por você, mas por mim. Você me fez lembrar meu xará colombiano, García Márquez: aqueles que são condenados à solidão nunca merecem uma segunda chance sobre a terra...