terça-feira, maio 20, 2003

Talvez se você me visse no escuro, não me reconheceria. Meus dois olhos estão naquela tigela, sobre a mesa. Sou eu quem está no escuro. Você estranharia este meu toque de mármore, liso e gelado. Se você acendesse as luzes, veria uma sala inteira de mármore. Mas a luz, essa luz, estraga tudo. Sempre estragou. Por isso quebrei as lâmpadas e escondi os candelabros. Você não me escutaria se soubesse dos meus olhos, a tigela, essa história toda. Foi necessário? É necessário mesmo caminhar no escuro, tropeçar nos móveis, em meu mundo. É bom perder o controle de seu mundo vezenquando. Só vez em quando. Quem não tem olhos não chora. E eu ainda não aprendi a chorar. E ainda que você tivesse arrancado meus olhos, ou feito tudo, tudo, tudo! Não adiantaria. Me basta escutar sua respiração ofegante, hesitante, distante, por trás da escuridão.

Se alguém ainda disser: "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera", ou algo assim, não me importo. Não posso ver. Meus olhos estão ali, naquela tigela de mármore. Antes fosse ela de cristal.

Nenhum comentário: