sexta-feira, maio 23, 2003

... mas eu fiquei lembrando do seu sorriso enigmático nas escadas, na escuridão de casa abandonadas. Talvez você nunca tenha visto meus olhos cítricos quando te fitava. Acho que te pedia socorro. E enquanto escrevo essas linhas tortas, o mundo conspira, o mundo continua a girar. Sabe, já deixei de acreditar em acaso, muito apesar tenho toda uma teoria própria de "acasos convergentes". Isso não vem ao caso. Ando reduzindo tudo a uma vida de piloto-automático, cinza. É estranho que estudo o automatismo do corpo, toda essa nossa complexa engenharia. Tudo obedecendo ordens pré-estabelecidas, físicas, químicas, matebólicas. Tudo nesse mundo é simétrico e ordenado. Talvez seja por isso, só por isso, que quero jogar minha vida no vento e colher os frutos do caos, como se os planetas saíssem de sua trilha galáctica e colidissem como bolas de bilhar, interminavelmente...

terça-feira, maio 20, 2003

Talvez se você me visse no escuro, não me reconheceria. Meus dois olhos estão naquela tigela, sobre a mesa. Sou eu quem está no escuro. Você estranharia este meu toque de mármore, liso e gelado. Se você acendesse as luzes, veria uma sala inteira de mármore. Mas a luz, essa luz, estraga tudo. Sempre estragou. Por isso quebrei as lâmpadas e escondi os candelabros. Você não me escutaria se soubesse dos meus olhos, a tigela, essa história toda. Foi necessário? É necessário mesmo caminhar no escuro, tropeçar nos móveis, em meu mundo. É bom perder o controle de seu mundo vezenquando. Só vez em quando. Quem não tem olhos não chora. E eu ainda não aprendi a chorar. E ainda que você tivesse arrancado meus olhos, ou feito tudo, tudo, tudo! Não adiantaria. Me basta escutar sua respiração ofegante, hesitante, distante, por trás da escuridão.

Se alguém ainda disser: "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera", ou algo assim, não me importo. Não posso ver. Meus olhos estão ali, naquela tigela de mármore. Antes fosse ela de cristal.

sexta-feira, maio 09, 2003

Queria saber de você, que sabe tudo de mim, que me conhece como a palma de sua mão, que jogo idiota é esse que nos enfiamos, porque nos submetemos a essas ciladas idiotas que a vida nos prega e ficamos imensamente confusos apesar de sabermos que viver é nada mais que contornar ironias. Queria saber de você, que me entende com o olhar, porque todos os caminhos que tomamos são tortos, porque não há a possibilidade do caminho mais curto e a única maneira de viver sem tantos atropelos é simplesmente não viver, entregar a própria vida a maré de situações e se deixar levar por ela. Queria saber de você, neste escuro de becos, porque os becos são escuros, porque não podemos caminhar em dias ensolarados enxergando os caminhos que escolhemos, sem esbarrar nos carros, sem assustar com os transeuntes, sem tropeçar nos baldes de lixo, sem adivinhar o que vem ou o que vai. Queria saber de você, que completa as minhas frases, que completasse as reticências nos discursos, as palavras que foram borradas na chuva, que me dissesse palavras sábias, sérias e limpas com a placidez de um sorriso e me acalmasse, me passando a certeza que "tudo vai terminar bem" mesmo quando eu tenho eu acho completamente o contrário. Queria saber de você, que sabe tudo de mim, que me guiasse nesses dias álgidos de lua crescente, no silêncio cristalino dessas madrugadas de outono, nessa incerteza de fatos que me vi imerso. Queria saber, ah como eu queria, quanto tempo, quanto tempo demorará para você mandar alguém me salvar.