quarta-feira, dezembro 24, 2003

Papai Noel,

Eu não acredito em você. Gostaria até em acreditar, mas você sabe, rapazes que acreditam em papai noel aos 18 anos é, no mínimo estranho. Por isso você vai dar um desconto para mim e ler isso sem chiar muito.

Sei que você é perito em coisas materias, e estou precisando muito de coisas materiais. Tipo carro do ano, os livros que eu quero, aquela viagem pro Taiti. E também aquele Lego de foguete que eu pedi há uns 9 anos atrás, tá lembrado, se não for muito difícil. Mas sabe, sei que se eu pedir você não vai me trazer. Nem é porque eu mereça, eu estou merecendo muito. Tirei 75 em Patologia, não matei ninguém, até fiz esforço para comer beterraba. Então vou fazer um pedido filosófico, porque acho que vai ser mais útil e além disso serve para outras pessoas.

(Viu como eu mereço? Sou até altruísta!)

É o seguinte: você é um velho que mora no Pólo Norte (hein?), fica o ano todo escondido lá com um monte de anões de verde e guizos idiotas (hein?!) e, no dia de Natal, sai num trenó pilotado por renas (renas? Alguém já viu uma rena? Ainda mais que voasse?) gritando ho-ho-ho, descendo pelas chaminés (pois é, e desde o século XIX sabem que a fuligem das chaminés é cancerígeno e causava neoplasias no escroto de limpadores de chaminés. Sim, escroto, sabe o que é? Viu como sou um bom aluno em Patologia?), com perigo de queimar a bunda, tomar um tiro, ser confundido com o Bin Laden depois do rodízio da churrascaria na Finlândia... Só para entregar uns míseros presentes?

Não estou sendo irônico, que é isso... E o povo acha que você NÃO existe? Então, tem um cara aí, uns 2003 anos atrás, que disseram que andou pela água, transformou água em vinho, multiplicou pães e peixes, morreu e depois voltou vivinho da silva... E ainda acreditam que ele existe! Sim, tem um monte de gente que jura que ele existiu, numa época em que não tinha nem um primórdio de fotografia para confirmar... E chefe, ai de quem falar que ele não existe! O povo te olha estranho, é perigoso sair até morte!

Porque é loucura um velhinho num trenó mágico puxado por renas e é plenamente concebível um cara que transforma, sem truque de câmera nem nada, água em vinho.

Fala sério Noel, sua moral tá muito baixa com a galera.

Me explica essa, tá? Não esquece minha Caloi!

Gabriel

Post conjunto com a Anita

(Galera, é o seguinte: estou indo viajar e sabe lá quando vou conseguir postar. Só garanto o do Ano Novo, certo? Feliz Natal, para que acredita...)

domingo, dezembro 21, 2003

#1 - Balanço do ano

2003 foi, para mim, a coroação da vitória da rotina. Que tudo tende, irremediavelmente, a uma sucessão de dias previsíveis, leves e rápidos, que escorrem pelos dedos sem você perceber. Mas não foi só isso. 2003 foi o ano para perceber que isso também é bom. Por mais que seja bom um pouco de novidade para sacudir a rotina, é terrível viver a base de novidades; como se você tivesse construído uma casa em terreno de terremoto: muito embora às vezes uma ou outra sacudidela seja divertida, tudo que excessivo é negativo.

Olhando para trás, vi que 2003 não foi um ano nem bom, nem ruim. Coisas boas acontecem, coisas ruins também. Mas nenhuma prevaleceu sobre a outra, pareceu-me que as coisas foram se sobrepondo, antes que eu conseguisse separá-las. Talvez também, em 2003, eu tenha aprendido a relativizar as coisas, não arrancar meus cabelos quando a casa caia, não comemorar demasiadamente as vitórias.

Pessoas boas voltaram, outras foram embora. Algumas te magoam, outras te surpreendem. 2003 foi meio assim, idas e vindas. 2003 também foi ano de perceber que as pessoas não mudam, então é bem mais fácil abaixar a cabeça e suportar os defeitos alheios que se enfiar heroicamente numa batalha de melhoria pessoal.

2003 foi ano de ver que a palavra amor é difícil e, por causa disso, tomar muito cuidado ao dizê-la.

No quesito realizações, 2003 foi um desastre. Como lamentar por isso é besteira, a gente pula de tópico.

Em 2003 que realmente percebi que o mundo é muito, muito grande. Cheio de opções. Cheio de gente interessante. E a visão que eu tenho de mundo é incrivelmente pequena. Sim, existem tantas possibilidades por aí que é um desperdício ficar pelos cantos, reclamando de uma vida que até poderia ter sido e não foi.

Conclui que 2002, 2001 e 2000 foram bons anos, apesar de tudo. Que errei muito, mas foi preciso. Aprendemos mesmo é com as derrotas, com os erros.

Foi só em 2003 que percebi a importância de definir metas claras. E como é importante não perder tempo com situações satélites que empacam de se alcançar o objetivo maior.

E talvez, o mais importante, que não se pode esperar muito de ninguém. Seja festa, seu melhor amigo, seus pais, seu curso, aquela viagem. Expectativas são cruéis, porque te iludem e fazem você não aproveitar as coisas in natura. Que somos seres sozinhos, muitos sozinhos. E por isso a companhia do outro seja tão necessária, tão redentora.

2003 foi ano de ver que as coisas só acontecem quando você menos espera. E Murphy de vez em quando dá um refresco.

2003 foi ano de perceber a importância de filtro solar.

Usem filtro solar (e vejam esse vídeo, pelo menos umas duas vezes por dia).

Se vocês pudessem me ver, estaria terminando o post com um sorriso.

Uma música feliz de fundo. Estou achando que, apesar de todos os contratempos, 2004 até tem jeito. A vida parece que tem jeito.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Já está decretado: estou de férias. Apesar da prova de Patologia daqui a 3 horas, da prova de Fisiologia daqui a 28 horas. Como se essas 32 horas que me separam das férias não existissem. Não existem. Definitivamente.
"'Cuz now it's Christmas
And I want everything
I just can't wait Christmas
So don't stop spending
I want a million gifts, that's right"
(Simple Plan)

Natal sempre foi, para mim, uma data exclusivamente comercial. Dia de ganhar presente, comer até passar mal, ver os tios todos tontos, amigo secreto, nada mais.

E antes disso, como é divertido montar a árvore de Natal! Sei que isso parece quase heresia, mas não entendo o tal "espírito de Natal" que todos falam. Não entendo qual a diferença do tal dia 25 de dezembro pro dia 14 de julho. Não entendo porque temos de desejar paz, felicidade, sermos altruístas e ajudar o próximo só no dia 25. É ridículo.

A Missa do Galo é um saco. Não aguento mais ver a cara do Papa. E só porque é Natal vem seu pai e sua mãe dando indiretas e lição de moral, "porque é Natal e hora de repensar nos seus atos".

Dia 31 de dezembro é tão mais bonito e cheio de significado. Ano novo, hora de virar a página, refletir sobre o ano que passou. Aí há motivo para comemoração por estarmos vivos mais um ano, desejar que o próximo seja repleto de realizações e coisas boas.

Natal não virou uma data capitalista, ela sempre foi uma data capitalista. Pelo menos para mim.

Queria ganhar um carro nesse Natal, mas é um sonho mais que distante.

Acho que vou pedir dinheiro mesmo, para eu poder viajar em julho...

Post conjunto com o Sete Faces

sexta-feira, dezembro 12, 2003

"Alguma coisa aconteceu", pensou ele, conferindo os quarenta e cinco minutos de atraso.

O desespero da espera talvez não seria a maior tortura. As rosas que trazia na mão já ameaçavam murchar. Os músculos da perna bambeavam, começando a ceder depois de tanto tempo trabalhando sem gemer.

Já estava no terceiro cigarro e as mãos chamuscadas de brasas permaneciam pensas, sem destino. Sentia-se observado, vigiado, pelos transeuntes que passavam. Sentia um pesado olhar de censura, como se fosse algo idiota esperar alguém, rosas na mão.

Mal percebia as agitações de dezembro, natalinas, implorando consumo. Ele estava embriagado por uma única obceção: vê-la, senti-la, tê-la. Seu tempo eram os minutos de atraso, os minutos do motel, as horas entre telefonemas. Um tempo que não se contava em dias, muito longos. Meses então... Muito menos.

As flores, na sua linha de pensamento, era apenas mais uma forma de suborno. Ela sorriria, alimentaria suas vagas aspirações românticas. Ele, espertamente, saberia que poderia pedir além do que ela cederia. Afinal, ele era romântico e compreensivo, havia trazido rosas e aguentado quase sessenta minutos de atraso.

Ele, sob o lume impassível do Sol, sentia-se desprotegido. Como se toda aquela luz pudesse revelar seus planos, de fato.

Ela era bela, muito bela. Por isso, a cada dia, a cada hora e minuto, ela seria dele.

Seu atraso de sessenta e cinco minutos necessitaria de uma grande compensação.

Ela seria dele, só dele, e de mais ninguém.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Lógico que, depois de uma aula daqueles, ninguém fica completamente ileso e insensível. Neoplasias são todas covardes, traidoras. Você trata suas células com tanto amor e carinho para depois elas revoltarem, adolescentemente, e metastatizarem por aí. Mas confesso que também estava sentindo um prazer estranho, de finalmente confirmar que aquele dente no ovário não era loucura, não era insanidade.

Apesar de ser desesperador pensar que todas aquelas doenças esdrúxulas podem estar acontecendo conosco ou com quem amamos muito nesse exato momento, existe aquela ponta de fascínio, aquela impressão do divino de estar cada vez mais perto das descobertas das maquinarias humanas.

É isso que mantém minha bunda nas cadeiras duras da faculdade, é isso que me impede de buscar outra coisa menos desgastante para fazer da vida. As tais engrenagens.

Você sabe que eu poderia ficar falando por meses sobre inocência perdida, em como inocência não redime pecados. Na nossa fragilidade, que tentamos negar a todo custo. Nesse sentimento de estranheza quando observamos a vida pela janela.

Não sei se foi o dia, o filme, a posição de Marte no céu, mas desci nesse mesmo estado de espírito do carro. Uma descrença tão grande, tão pungente das coisas. Uma sensação de finitude, que não devemos perder tanto tempo com coisas pequenas. Uma agonia torturante, que doía não sei como.

Seu post de hoje me fez respirar profundamente e segurar. Pensar muito. Não sei se isso vai ser bom ou ruim. Estou cantarolando Vinícius, "É, meu amigo, só resta uma certeza/É preciso acabar com essa tristeza/E preciso inventar de novo o amor" Quem sabe a resposta não é por aí?

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Estou em fase de descompensação. Confesso que meus dezembros costumavam ser mais divertidos: sempre era sinônimo de férias. Os únicos que ficavam em dezembro na escola eram aqueles que estavam em Recuperação Final, nunca era o meu caso. Mas os últimos três dezembros foram assim: estudo, dor de cabeça, querer dormir até mais tarde e não poder. Estou nas últimas. Não consigo mais estudar, não quero mais estudar. Não consigo mais me concentrar em aula alguma. Durmo, durmo e sempre vou para a faculdade com olheiras. Falta ânimo para as mais pequenas coisas, até ir ao cinema. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas estou prestes a jogar a toalha. Por isso, resolução para o final das aulas: quando voltar para casa, ir ao primeiro bar de Franca e tomar um porre homérico para comemorar. Nem adianta me reprimirem. Eu mereço. Não nasci para sofrer em dezembro. (vocês sabem o que é o tal Cloreto de Benzalcônio? Sorine!)

terça-feira, dezembro 09, 2003

"Ainda não são conhecidas a intensidade e a freqüência das reações adversas" (Bula do Cloreto de Benzalcônio)

Essa mania humana de cientificar tudo... E daí que não são conhecidas? E se o cloreto de benzalcônio provocar aumento da capacidade cognitiva ou melhorar o desempenho sexual? Alguém sabe a intensidade das reações adversas quando se apaixona? Quando se discute religião? Quando se avisa que um amigo querido morreu? Alguém poderia quantificar a probabilidade de acertar um presente de Natal para sua mãe? E o mais dedicado cientista poderia afirmar, com certeza irrefutável, quanto de atenção um suicida precisa para não levar a cabo seu sinistro plano? Não se pode deixar nada a cargo da surpresa nesses dias estranhos, mas deveríamos. Foda-se o cloreto de benzalcônio. Vamos tentar, viver e descobrir as coisas através dos erros.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Minha casa tem goteiras. Muitas goteiras. Assim, em todos os cômodos. Chegou num ponto de ter que colocar baldes na sala para não molhar o chão. A cozinha começa a apresentar manchas verdes de mofo. Eu, com toda minha rinite alérgica, venho aguentando como posso. Essa noite não deu. Fiquei até as 4 da manhã acordado. Espirrando. Dor de cabeça. Acabei dormindo na sala do telefone, o único lugar "mofo free". Como se não bastasse ser segunda, acordei morrendo de sono, nariz doendo, cabeça idem. Olhos ardendo, humor quase zero. Parece interessante que, apesar de toda nossa superioridade e tecnologia, temos que tirar o chapéu pra essas pequenas porcarias microscópicas que atrapalham nossa vida. Fazem nosso sistema imune achar que nós somos um grande invasor e sair atirando pra tudo quando é lado. E a gente sofre, impassíveis. É só bater febre e mal-estar que ficamos fragilizados, querendo colo, cama, canja. Alguém pra falar que tudo vai terminar bem, que é só tomar o remédio direitinho que passa. Estou assim, querendo dormir até na hora do almoço e tomar caldo de feijão, assistir Sessão da Tarde tomando chá com pipoca, tudo o que um convalescente mereceria. Além de não ter quem faça isso, não tenho nem lugar para. Minha casa parece um parque aquático e tem novos moradores: fungos!

sábado, dezembro 06, 2003

Gosto muito de assistir E.R. (Plantão Médico). Gosto mesmo. É muito bom ver os médicos falando de casos clínicos e eu entender alguma coisa. Pelo menos eu tenho a impressão que não estou na faculdade à passeio, nem que estou correndo sem sair do lugar. Nessa nova temporada tem dois residentes muito interessantes. Um deles está completamente desprepadado para trabalhar no hospital e sabe disso. Por isso, ele sempre está fugindo dos pacientes e das responsabilidades, sempre arruma uma desculpa para não botar a mão na massa. E quando põe, sempre erra.

O outro residente é dedicado, cheio de boas intenções, sempre disposto a trabalhar. Mas é muito precipitado e por isso, também erra. Ver esses dois residentes é visualizar o meu maior medo dentro da faculdade. Tenho muito medo de errar. Tenho medo de, quando chegar a minha hora de entrar no hospital, não estar preparado. Tenho medo de desmaiar na hora de entrar num Centro Cirúrgico, de fazer uma sutura errada, prescrever uma medicação incorreta. Tenho medo de matar alguém, de mutilar alguém, apesar de ter só boas intenções. Sei que não há aprendizado verdadeiro sem erro, mas é muito difícil errar quando pessoas estão envolvidas. Só torço para as coisas não serem tão ruins assim.

terça-feira, dezembro 02, 2003

"i'm going out for a little drive
could be the last time you see me alive
what if the car loses control
what if there's someone overtaking?
they wrap me up in the back of the trunk
packed with foam and blind drunk
they won't ever take me alive
cause they all drive killer cars"
(Killer cars - Radiohead)

O zunido das árvores correndo me hipnotiza, por isso ignoro quase tudo que me cerca. Não posso me entregar. Seria um pecado muito maior me entregar que continuar correndo. Desistir sempre é o maior dos pecados.

Eu e o mundo sempre funcionamos em diferentes velocidades. Porque o mundo é cruel, porque ele é aquele caminhão enorme que não liga a mínima se seu carro está parado, logo em frente. Porque o mundo mata, crianças, por isso que é preciso correr e correr.

Dirigir é difícil. Porque, além de mau, o mundo é ardiloso e meio sacana. O volante trepida, a embreagem é hesitante. O pára-brisa sempre embaça, as árvores são dissimuladas. A velocidade alucina, entorpece. Até gostaria de parar, mas não posso.

Talvez, talvez seja essa a última vez que estarei saindo. Talvez dessa vez o mundo me alcance. A estrada esteja suja, a barra do volante quebre. São tantas coisas. Tantas coisas que podem acontecer. Só tenho uma certeza, é que não posso parar. Nunca.

Post conjunto com o Sete Faces

terça-feira, novembro 25, 2003

"And I think everything is going to be all right
No matter what we do tonight"
(Pink - Aerosmith)

Talvez essa seja uma das melhores regras. Tudo vai dar certo no final, não importa o que aconteça: se não deu certo é porque não chegou no fim. Não, olhem que não sou do tipo otimista-descontrol. Não sou daqueles que acreditam que as pessoas são felizes, a essência humana é boa. Acredito que tudo vai dar certo no final porque não custa muita coisa. Não custa muito ficar otimista à toa, enquanto tudo a sua volta parece estar afundando. O prédio está desmoronando e você pensa: vai melhorar.

Por isso, vez ou outra, não custa também acreditar que a noite vai dar certo, sem expectativas ou responsabilidades. Vai dar certo, pura e simplesmente.

Por exemplo: ontem eu estava um caco, com sono, precisando estudar, dor de cabeça. Daí me arrancaram do meu quarto, do meu merecido descanso, com um copo de vinho. Daí mandei meu tratamento de antibióticos pro saco e fui tomar vinho. E compramos um galão de vinho, bebemos, bebemos. Pelas minha contas, tomei mais de um litro. Fui dormir. Eapesar de ter dormido apenas 6 horas, hoje, acordei com uma disposição como se tivesse dormido o dobro.

O dia voltou a ser ensolarado, após dias e dias de chuva e nuvens.

Tudo deu certo.

Post conjunto com o Sete Faces

terça-feira, novembro 18, 2003

"Não se profana imunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo"
(Lavoura Arcaica - Raduan Nassar)

Já me criticaram por esperar demais. Não sabem que trago na pele as marcas das más passagens de tempo, de tentar adiantar algumas horas no relógio ou arrancar algumas páginas do calendário.

Quisera eu não estar sob o inescrupuloso domínio do tempo. Poder fazer o que quero no momento que achasse melhor para mim. Aprendi, das piores maneiras, que não se pode adiantar a primavera para colher as flores, nem o outono para colher os frutos. É preciso aprender o difícil exercício da espera, da contenção, do rescaldo. É preciso suportar a vida morna antes que ela comece a verdadeiramente aquecer.

Acima de tudo, é preciso aprender a enxergar o momento. Quando o tempo cerra os olhos e renuncia ao seu turno. Mesmo na espera, é preciso permanecer com os músculos tensos, taquicardia e respiração ofegante, para mergulhar de cabeça quando o sentinela vira as costas.

Que me perdoem os precipitados, mas este é um pecado mortal.

Post conjunto com o SeTe FaCeS

sábado, novembro 15, 2003

Você sorriu para mim, uma, duas, três vezes, e eu fingi que não vi. Não sei se você entendeu que minha vida é dividida em duas e o universo que você me enxerga é a metade errada da maçã, a face visível da Lua.

Não sei se seria o correto pedir para você esquecer, esquecer. Não seria justo, mas parece ser o melhor a se fazer. Não insistir, não persistir. Minha vida na metade errada da maçã é tão errada que nem concerto tem mais. Eu estou prestes a não insistir nela também.

Estou em Coromandel, deveria estar pensando mais no corpo e menos na alma. Mas é essa Lua, essas estrelas, esse cheiro de perdição que me fazem pensar nas coisas que não tem jeito.

Na metade errada da maçã.

sexta-feira, novembro 14, 2003

"Love is a temple
Love the higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl"

Brinco que escrever em blog é complicado mesmo, ainda mais quando você resolve botar um pouco do seu cotidiano. Tem dias que se passam tão inutilmente que só forçando você consegue escrever alguma coisa. Outros, que acontecem tantas coisas que ninguém teria paciência de lê-las todas.

Por exemplo: hoje teria que escrever sobre minha última aventura capilar. Mas aconteceu um fato mais urgente que vai adiar esse post por tempo indeterminado.

Hoje vou falar sobre amor. Amor incondicional. E não estou falando só de amor carnal. Além do óbvio amor de namorados, inclui-se aí a amizade, relação com os pais. Estou falando daquele sentimento de cumplicidade irresoluta, apesar de tudo que você é. Que por falta de nome melhor, pelo menos eu chamo de amor. Mesmo sabendo que amor é uma palavra perigosíssima.

Acho que todo o amor deveria ser incondicional. Não acredito em pessoas que dizem: "olha, eu te amo até esse ponto e não me cobre além disso". Não acredito em amizade que precise de ponto final. E, acima de tudo, essa incondicionalidade nunca deveria ser cobrada. Deveríamos aprender a enxergá-la quando inicia e entregar os pontos caso ela desapareça.

Ando meio descrente com essas coisas. Principalmente porque tive que escutar que "sou amado até certo ponto" e se eu passar desse certo ponto, tudo acaba, como se nunca houvesse existido. É triste, mas com o tempo a gente aprende a relevar, contar até dez, respirar fundo.

Mas há sempre notícias que vem de longe e te fazem perceber que existe uma luz no fim do túnel. Dá esperanças: por mais que os dias permaneçam nublados, os prognósticos continuem ruins. E tudo isso é uma fórmula insistente para eu continuar no meu caminho.

O amor não é uma gaiola. O amor seria a receita para se aprender a voar.

"We get to carry each other"
(One - U2)

sábado, novembro 08, 2003

Queria escrever um post sobre amor, mas a única coisa que consigo lembrar é a chuva de granizo, que enfrentamos na divisa de Minas Gerais com São Paulo.

Fazia tempo que eu não via uma tempestade assim, de não se ver palmo à frente. De ficar 15 minutos no acostamento, parados, espectadores das intempéries da natureza.

O carro tremia com o tamborilar do granizo. Amassava a lataria, as portas, o capô. Trovejava demais, iluminando rapidamente o dia escuro que se fazia. Nós, dentro do carro, sem fazer menor movimento.

Alguns carros heroicamente prosseguiam, apesar da chuva.

É agoniante ser meramente espectador das coisas. Principalmente quando a única coisa que você faz é ficar dentro do carro, esperando a tempestade que insiste em nunca passar.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Não gosto de pessoas sem noção, mas sei que é importante ser sem noção de vez em quando. Não gosto mais ainda das pessoas "livro de ponto, manifestação de apreço ao senhor diretor", que do alto de sua "superioridade" acham que a Terra é plana, ficam procurando palavras complicadas para coisas simples e criticam que tenta levar uma vida menos estressante, porque ela não é hollywoodianamente perfeita.

Por isso fui ver Matrix Revolutions ontem. Por uma vida menos ordinária.

O combinado era o seguinte: a maior galera ir ver Matrix a caráter. Ou de Agente Smith, ou de Neo, ou todo de preto. De óculos escuros e cara de mau.

Ontem era um dia todo de possibilidades, prova de Patologia de manhã: sucesso e catástrofe no mesmo copo. Patologia é uma coisa complexa: prova de inflamações, mil citocinas, fatores de crescimento, células inflamatórias. Para quem vai bem é a glória, para quem vai mal é uma baita dor de cabeça. E não fui bem nem fui mal.

Choveu um pouco, ficou um dia meio nublado o dia inteiro.

Acabou a aula da tarde, fui para casa aprontar meu visual. Fiz a barba, coloquei o terno, botei meu cabelo pra trás com gel. Perdi meus óculos escuros para achá-los alguns minutos depois. Olhei-me no espelho: vagamente parecido com o Agente Smith. Fui para a casa da Anita, que ia nos levar até o shopping.

Anita estava de tailleur (é assim que escreve?), como se fosse o meu protótipo feminino: cabelo para trás, blazer, saia "nos limites da moral e dos bons costumes", como ela mesmo fez questão de frisar. Logo logo a Thallita chegou, toda de preto. Fomos pro shopping.

A Anita tinha francês e nos largou no shopping pra entrar na fila. Sete horas da noite, sendo que a sessão era as nove. Eu e Thallita andamos um pouco no shopping, algumas pessoas olhavam com cara estranha mas não era nada fora do normal.

Nosso pessoal não fantasiado foi chegando, e nós fomos acomodando a galera na nossa frente bem à brasileira.

Até que, surgindo da escada rolante, apareceram: Joey, todo de preto e sobretudo, a la Neo. Nem faltando os óculos de sol. Erick, todo de preto, a la Neo também. E Lísia, toda de preto, fazendo par com a Thallita. Foi aí que a parte divertida começou.

Coloquei meus óculos de sol e começamos a bater fotos nossas. Sim, ainda estávamos na fila do cinema. Fizemos cenas de luta, batemos fotos da galera. O povo da fila ria absurdamente da gente. Tinha gente que passava com aquela cara fuzilante de "vocês são estranhos", outros de "vocês são ridículos". Mas muita gente só ria do nosso nonsense, achava legal, achava divertido. Nós estávamos rindo muito e divertindo absurdo.

Outra galera não fantasiada foi chegando e sendo acomodada discretamente na fila.

O Joey fez o maior sucesso entre as crianças.

A Anita chegou, para completar o sexteto.

Até que, 10 minutos antes da sessão começar, começou aquela confusão de: não cortei fila, você tá pensando que tá falando com quem, aquele povo lá da frente botou um monte de gente na fila.

Adivinha quem era o povo da frente? Lógico que tinha que ter a emoção do dia.

Ficamos contando os segundos pra abrir a sessão e evitar cenas mais constrangedoras. A moça do cinema até tentou esboçar de tirar um ou outro do nosso grupo da fila, mas somos bons em argumentação (vide regra número 1 postada recentemente pela Anita) e entrou toda galera sem maiores apuros.

Fomos os primeiros a entrar, o que não impediu um sprint nosso escada acima para pegar os melhores lugares. O sexteto sentou todo junto. A galera não fantasiada também, os casais sentaram juntos, tudo maravilhosamente perfeito.

E o filme começou.

E depois do filme, mais fotos. No cinema, na escada rolante, nos telefones, no banco, com pose de mau, bota os óculos, tira os óculos, essa é rindo, junta a galera toda, só mais uma, duas, tira de novo.

Divertimo-nos como crianças no parque.

E para terminar, um lanche na frente do Pronto Socorro, ignorando todas as possibilidades do alface estar contaminado por Salmonellas ou outro patógeno da Microbiologia.

Balanço final do dia: um dos melhores que tive em Uberlândia. Pela bagunça, pelo nonsense, pelo prazer de estar todo mundo junto, pelo filme que até que é bom.

Valeu pela dose de insanidade diária e necessária para a manutenção da vida.

obs 1- E para quem interessar, não sou fã de Matrix. Não sou do tipo conspiratório que acha que os States nos mantém na Matrix, que foi invenção da CIA, essas coisas. Ninguém era, na verdade. Isso tudo foi só uma válvula de escape.

obs 2- Não, não iremos à caráter no terceiro episódio do Star Wars nem do Senhor dos Anéis.

obs 3- Vai rolar foto no(s) blog(s) sim, assim que os filmes forem revelados. Não basta pagar o mico: você regista e guarda pra posteridade.

terça-feira, novembro 04, 2003

"Tudo está perdido mas existem possibilidades"
(Legião Urbana)

Foi como se tivessem me dado uma bofetada na cara e, finalmente, acordado do sonho. Tudo estava escuro, naquela escuridão solitária sem fim. Eu e minha respiração forçada e irregular, somente.

Agora já não teria mais o privilégio dos erros. Agora o jogo começa frio e cruel, com cada erro custando muito mais que eu possa imaginar (e conseguir) pagar.

Terei que alterar meus passos hesitantes, dissimular meu medo do futuro. Precisarei ter uma segurança que nem mesmo eu acredito que tenho.

Ou desistir antes da melhor parte do filme começar.

Se tivessem iluminado meus passos, nunca teria tomado os caminhos da perdição. Pois bem, agora me restam tão poucos. São úmidos, herméticos, nenhum verdadeiramente seguro.

Mas se me servir de consolo, ainda existem caminhos.

Post conjunto com o Sete Faces

segunda-feira, novembro 03, 2003

Tenho pensado muito e escrito pouco. Não por minha culpa: os laboratórios da UFU conspiram contra mim, falta tempo, falta tudo. Por isso, vocês tiveram a sorte de não lerem post enormes, de momentos difíceis. E achei isso até bom, para esse blog não ter tanto aquele caráter de "muro de lamentações".

Tenho me culpado demais. Tenho me odiado com uma freqüência muito acima do normal.

Tenho ido à academia, não tanto quanto deveria, não tanto quanto gostaria. Mas tem sido bom. Por exemplo: depois de uma catastrófica prova de Fisiologia, fui afogar minhas mágoas em 4 séries de 20 abdominais. Foi ótimo. Voltei, ao menos, consolado para casa.

Tenho recebido e-mails muito legais, de pessoas legais. Para contrapor as frases cruéis que tive que escutar e engolir em silêncio, para o bem-estar geral da nação. Para insistir, para persistir, que a culpa não é minha, que o tempo é o melhor remédio. Para eu não acreditar no Eletric Soft Parade, "And all I know is no-one is my friend.
And it's empty at the end".

Tenho lido cartas de Clarice Lispector. Tenho escrito cartas minhas também.

Tenho resistido aos meus impulsos, mesmo sob grave efeito de cerveja e vodka.

Tenho boas notícias virtuais. Joey retornou ao blog, Paulo começou o dele, o Argumento publicou um texto meu.

Os dias estão ensolarados, apesar da chuva. Pelo menos, parecem estar.

É preciso seguir em frente, sempre. A vida continua.

quinta-feira, agosto 07, 2003

"Digamos que um dia você percebesse que seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão..."
(Ana Cristina Cesar)

Por isso chorei. Escutando Fake Plastic Trees. Foi me dando uma coisa esquisita. Aperto, sufoco, apnéia. A gravidade que sempre vence. As coisas de plástico, que nos cercam. O gosto frígido, sólido, do plástico. O brilho opaco e inconcluso do plástico. Tudo é plástico. Tudo tão plástico. E eu me senti realmente industrializado, sem individualidade. Polietileno pré-moldado. Inútil, como qualquer coisa vinda de linhas de produção. Por isso eu chorei, all my fake plastic tears. Não, não porque eu esperasse que acontecesse alguma coisa depois disso. Não chorei por arrependimento, por mágoa. Chorei porque talvez já tenha me cansado de me entorpecer pelos flavorizantes, pelos corantes, pelos conservantes. Este é o nosso ópio, nossa salvação e prisão. Todo esse nosso mundo de ilusões, límpido e belo...

Mas já é tarde demais para voltar para trás, para fugirmos de nossa sina de plástico. Nossa pele é de polimérica, emborrachada, quase impenetrável. Nós somos manequins de uma loja qualquer, tentando vender qualquer coisa sem importância. Nosso tato já é grosseiro demais para as pequenas minúcias de nossas complexidades...

segunda-feira, agosto 04, 2003

Era um corredor longuíssimo, com um quadro de Rembrant e uma máxima latina no final. Atravessávamos a passos curtos e cautelosos, que reverberavam no corredor escuro. A primeira vez que veríamos nosso cadáver. O laboratório de Anatomia era amplo e enorme, iluminado pelo lume débil das luzes frias. Em seis mesas metálicas provavelmente repousavam os cadáveres, coberto por um plástico verde-água. Silêncio agudo. Caminhamos para a bancada que nos foi reservada, com olhares estáticos de novidade para aquela cena morta que nos foi revelada. Os olhos marejavam e nossos narizes ardiam pelo recém-conhecido formol, que se tornaria companheiro inseparável nas horas de dissecação. Retiramos o plástico e um lençol embebido em formol. Era uma mulher idosa e feia.

O professor, com nenhum traço de misticismo ou piedade, explicou-nos o que deveria ser feito no dia seguinte: um corte do esterno ao diafragma, depois acompanhar o arcabouço formado pelas costelas, retirar a pele e a gordura para isolar os primeiros músculos. Olhamos para o cadáver, de pele insensível e sua vaga lembrança de ser humano. Parecia um boneco de borracha, de face disforme, nariz torto, olhos foscos. Alguém falou: “Ela precisa de um nome. Todos os cadáveres têm um nome dado pelos alunos que os dissecam”. Concordamos com a cabeça afirmativamente, silenciosos. Luzia, Mônica, Lilith, Maria, nenhum estava bom. Rose, disse nossa colega de olhos tristes. Concordamos novamente com a cabeça. Era um bom nome, enfim. A aula acabou, com a promessa de começarmos a dissecação já no dia seguinte. Voltamos pelo mesmo corredor, sérios e com passos pesados.

Confesso que a noite foi difícil, mas dormi um sono dos justos. O medo de Rose vir puxar meu pé enquanto dormia mostrou-se uma superstição infantil. Tomei meu café da manhã sem sobressaltos e fui à faculdade. O corredor do laboratório estava longuíssimo novamente, o laboratório estava do jeito que havíamos deixado, os cadáveres cobertos com o mesmo plástico. Logo o professor apareceu e mandou dar início aos trabalhos da manhã. Éramos oito pares de olhos hesitantes com oito bisturis na mão. Ninguém se propunha a dar o primeiro corte. Porque em todo corpo há uma impressão do divino, de inviolabilidade a custo de nossa salvação, como na época de Leonardo da Vinci. Assim, violá-lo seria uma heresia. Felizmente, essa era a última teoria que pensaríamos (ou acreditávamos) e, sufocados pela curiosidade, o primeiro corte foi dado. Fiquei encarregado do segundo. Taquicardia. O bisturi roça a pele morta. A pele de Rose era rígida igual borracha. Coloquei um pouco mais de força. O bisturi penetra. Cortei igual manteiga. Um calafrio quando senti que o bisturi estava cortando. E quando terminei senti-me profundamente orgulhoso e realizado, como se agora, iniciando o desmonte da máquina perfeita, eu também tomasse conhecimento dos mistérios mais elementares da existência humana. Incluído aí, toda a arrogância de quem se julga descobridor de todas as engrenagens.

Logo já estávamos dissecando com entusiasmo e desenvoltura, conversávamos animadamente sobre a Copa do Mundo que estava na sua metade. Rose era apenas um instrumento de revelação. Daí veio o cinema, a prova de sexta-feira, a inauguração da boate no shopping, uma piada. Limpávamos as gorduras localizadas com a destreza adquirida na preparação de bifes. Alguém comentou: “Vocês perceberam que dissecar abre o apetite?”. E todos concordaram sorrindo, famintos e radiantes com a descoberta da artéria torácica interna.

E os corredores do laboratório de Anatomia perderam sua imensidão relativa. Quanto mais destrinchávamos Rose, mais voltávamos com a alma leve para casa. Nossa consciência, sem assombro nenhum, também.

terça-feira, julho 29, 2003

"Pois juro que a vida é bonita"
(Clarice Lispector)

Ontem vi uma paineira, carregada em flor. Hoje, um ipê amarelo, quase agressivo. Hoje não vou falar das misérias da nossa vida, das insatisfações. Não vou falar do nosso egoísmo, das nossas inconclusões. Não, hoje vou falar de coisas leves. De um amigo meu que se apaixonou por uma prima que conheceu só em sonho. Ele era mais cético que eu, e agora até abre uma brecha para ilusões. De uma amiga que começou a dançar, inesperadamente, no meio do trabalho de MPC quando estávamos todos quase desparafusando. De outra amiga, dizendo que tudo vai dar certo, tudo está sob controle. Fechar um bar numa terça-feira, tendo aula cedinho na quarta. Ir ao cinema em véspera de prova, sem peso na consciência. Cantar na chuva. Quase ligar pro CVV, de madrugada, só para ver o que os caras falam. Passar em Bioquímica. Chegar de mala na aula, diretamente da farra grossa. Coromandel. Quase férias. Cantar "If you like Piña Colada" sem medo de parecer ridículo. Rod Hanna. Sonhar com um Black Label, mesmo não sabendo tomar whiskey. Uma torta monstruosa de chocolate, cheio de cerejas. Quase filme a dois. As morenas, os butecos. Descobrir que a mãe não é uma agente perfeita da CIA. Aprender a dirigir e não afogar o carro num semáforo. Escutar elogios de quem menos se espera. Ler Harry Potter na aula de Fisiologia. Falar com a Dani de madrugada, tonto, tonto (e diga-se de passagem, ela tem uma voz linda pra caramba). Ver um filme que se passa em Londres. Ver uma série que se passa em Londres. Papel de parede do Pacífico Sul. Um amigo que volta do México. Perceber que tudo mudou, sem ter mudado absolutamente nada.

E apesar dos desencontros, até que essa vida tem um pouco de graça.
Como toda terça, post conjunto com o Sete Faces

sábado, julho 26, 2003

A gente quer quase tudo. A gente quer cinema toda semana, só filmes bons. A gente quer a Siciliano a preços acessíveis. A gente quer ganhar na loteria. A gente quer ser famoso, por alguma coisa importante. A gente queria ser Bandeira, Drummond, Clarice. A gente quer o Radiohead no Brasil, porque a gente gosta de música triste. No fundo, a gente gosta um pouco de ser triste, uns três segundos por dia. A gente gostaria de ter dinheiro pra ir no show do Coldplay. A gente gostaria que o Rock in Rio fosse no Brasil. A gente quer ir no Pacífico Sul. A gente quer fugir pra Londres, não porque lá a grama seja mais verde. Não me pergunte porque porque a gente gosta de Londres, e não Ancara, Alma Atta, Bali - a gente não sabe. A gente quer piercing na sombrancelha, tatuagem de escorpião. A gente quer ver os outros felizes. A gente jura que quer, sinceramente, a paz mundial. A gente quer que o Lula dê certo. A gente quer encontrar alguém por quem valha a pena morrer. A gente quer uma causa, um caminho, uma resposta. A gente quer conhecer a gente. A gente quer tanto, tanto, que a gente enjoa de tanto querer. A gente sabe que é impossível, quer não alcançaremos tudo. Mas a gente insiste querendo, porque o querer é maior. E a gente continua a querer, indefinidamente, aquilo que nos é negado e quer deveria ser nosso por direito. A gente insiste, sempre. Pois só não quer quem já morreu.

quarta-feira, julho 23, 2003

"You're so naive!"
(Get me away from here, I´m dying - Belle and Sebastian)

Disseram-me que sou inocente, duas vezes no último mês, e me assustei. Assustei-me porque sempre achei que passava longe de ares de inocência: sempre achei que era mau, esperto demais. Sempre acei que me vissem assim: avesso, gauche. Sempre achei que era um tipo de anjo niilista. Eis que pergunto, o que tenho de inocente? De anjo, só tenho o nome. De puro, nem as idéias. Por isso, escutei me dizerem isso com um vago sorriso na boca, meio cúmplice. Sempre achei que era menino crescido e afirmava isso batendo no peito: pois é, não sou; Quisera eu ser de todo inocente: pois bem, também não sou. Não sou o que quero, nem o que querem de mim. Sou aquilo que ficou no meio do caminho. Insuportavelmente meio-termo, vir-a-ser.

Então, tenho dias de ser inocente sim, tenho dias de ser avesso. "Tenho fases, como a Lua"*. Quem sabe um dia serei inteiro, ponto final. Porque acho que quero respostas inteiras agora, não mais pelas metades...

quinta-feira, julho 17, 2003

Foi quando cheguei ao meu limite e perguntei: porque estou fazendo isso? Já era madrugada, estávamos no hospital domando um trabalho de MPC (Medicina Preventiva e Comunitária) quase épico. Foi quando atingi o esgotamento mental, lá pela sexta hora consecutiva. Perdi o curso de hipnose, perdi o especial do Radiohead, perdi a confiança em mim. Eu poderia estar em Coromandel, Franca, praia, em minha cama, mas não: estava no silêncio assustador dos hospitais pelas madrugadas, calculando porcentagens e acertando concordâncias. Eu acreditei que tudo daria certo, com minha fé habitual: e não deu. Eu acreditei que se eu desse o melhor de mim, se eu fosse o melhor que eu poderia arrancar de mim, tudo daria certo e eu seria feliz para sempre: e isto não aconteceu. Enquanto a cidade dormia e os pacientes gritavam em seus quartos pelos mais diversos motivos, eu estava acordado e sozinho. E eu entregarei este trabalho e esta madrugada não mudará a porcaria de vida de ninguém. Madrugada inútil, como eu e minha capacidade de mudabça. Só me ajudou a confirmar que estou vivendo uma vida completamente errada e desnecessária: e não sei viver de outro jeito. Não sei.

terça-feira, junho 24, 2003

"Why does it always rain on me?
Is it because I lied when I was seventeen?
Why does it always rain on me?
Even when the sun is shining
I can't avoid the lightning"
(Why does it always rain on me - Travis)

Gostava de chuva, por algum motivo inconsciente. Talvez porque nunca tivesse percebido que sua vida fora de tempo nublado, neblina, garoa, temporais, desde que se lembrava. Era o orgulho da família: as tias o chamavam de sobrinho perfeito, mil agrados na casa dos avós, planos de riqueza e felicidade às suas custas. Era um garoto bom demais, verdadeiramente demais. Mas não se sentia especial apesar do que era, apesar de toda sua bondade e capacidade. Sempre teve o que não quis, e o que quis, não teve. Não sabeiria descrever a água de sua sede: só sabia que tinha na boca um deserto. Que em sua maquinaria sempre faltava uma peça.

Vivia, enfim. Vivia apesar da vida, sempre esperando o céu abrir num lindo dia ensolarado. Ia matando o tempo antes que se matasse. Porque a vida certa não havia trazido grandes benefícios, foi para o caminho errado. Aprendeu a beber e as levíssimas resoluções da embriaguez. Aprendeu a beijar, a fumar, a se perder. Aprendeu a ser triste sem o parecer. Não que isso fizesse a chuva parar de fato - mas dava a esperança de mudança , como se quebrando sua aparente perfeição traria dias belos de volta. Como se sua vida fosse regida por um infame mecanismo secreto: só andando pelas sombras traria o retorno da luz.

Foi quando seus pais descobriram. Ser feliz não estavam em seus planos - iria fazer engenharia mecatrônica, estagios na NASA e enriquecer a família. Dar festas para 800 pessoas. Seus amigos de farra o chamaram para fugir para Guiné Bissau, sem passagem de volta. Falou que ia - porque havia se cansado de estar molhado, tiritando. Agora queria, como nunca, dias de sol. Mas naquela noite choveu tanto, inundou a cidade, morreram 12 em um deslizamento num bairro da periferia. Daí ele entendeu que não poderia fugir de seu estad chuvoso. Disse não e foi ser engenheiro. Foi ser perfeito. Foi aí que descbriu que as chuvas eram apenas o início...

(Post conjunto com o Sete Faces. Toda terça eu e Anita escolheremos uma frase comum e escreveremos um post sobre. Why does it always rain on me foi minha escolha pessoal. É a música dos meus 17 anos. Porque toda vida tem uma tendência absurda de dar errado. E eu adoro dias chuvosos. Ah, li uma crônica de Clarice ontem, então não reparem se esse post estiver meio contaminado...)

sábado, junho 21, 2003

"Gravity always wins"
(Fake plastic trees - Radiohead)

Estou quase triste. Special people change. Planos não dão certo. Murphy rola solto. A vizinha da Anita morreu. Um amigo de infância à beira da morte. Não consigo botar duas semanas de novidade a limpo de novidades com meu melhor amigo. Não consigo estudar. Por mais que a gente fuja, nunca conseguiremos escapar dessa tendência cruel das coisas sempre dificultarem, piorarem. Hoje é o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Um amigo meu falaria em "presenças malignas", afinal, hoje é um dia com tendência à escuridão. Mas, reforçando, digo quase triste. Porque tive uma noite maravilhosa. Posso recuperar uma amizade perdida. Vai ter lasanha em casa. Matei saudade de muita gente. Peguei 12 músicas em mp3. É aniversário da minha mãe amanhã. Foi aniversário da Thallita ontem. 700 pessoas já visitaram meu blog. Closing time. Porque há sempre a esperança, por mais escura que seja a tempestade.

Se a gravidade sempre vence, se estamos fadados ao fracasso... porque nos preocuparmos? Por isso estou quase triste. Sei que tudo isso é inevitável, portanto... independe de mim.

sexta-feira, junho 20, 2003

"We are all made of stars"
(Moby)

Porque ela caminhava todos os dias fitando as estrelas, como se esperasse a resposta de todas as coisas que havia vivido ou sentido. Ela não havia nascido para ser entendida, e sim decifrada, como todas as verdades que se revelam aos poucos. Fitava o céu como fitava a si mesma, pois o céu também possui seus caminhos secretos e seus mistérios íntimos. Cada um levava sua vida como se o outro não existisse - e quando a noite caía e todos iam dormir, ela se levantava e ficava olhando as estrelas. O céu, em resposta muda, piscava as estrelas como nunca. Longas noites se seguiram nesse duelo inesperado e aprenderam, lentamente, a se entender. O céu revelava os segredos de suas estrelas, na mecânica celeste absoluta e matemática; ela apresentava os segredos de sua alma, que vêm à tona quando menos se espera. Mas a vida é cruel, os caminhos que nos são reservados, estranhos. Ela foi estudar pessoas ao invés de estrelas. Desaprendeu os caminhos do céu e tomou os caminhos que apontavam para dentro: o sutil equilíbrio dos eletrólitos, a mágica dos tecidos humanos, a desordem dos sistemas venosos.

E aprendeu a ficar triste, um pouco a cada dia, daquelas tristezas patológicas que ninguém sabe explicar. E aprendeu sorrisos e olhares. E aprendeu a decifrar os outros. E num dia que tinha tudo para ser triste, porque tudo estava tão sufocantemente igual e a rotina pesava gotas de sangue, ela deitou no chão por piedade e deixou-se ficar. E o céu estava lá, como sempre, como nunca: o pálio aberto só para ela. Cada estrela e seu brilho desesperado, implorando socorro. Com aquele lume lancinante de lágrima. E sorriu para o céu, um sorriso amargo e ambíguo, mas ainda um sorriso. Porque tinha descoberto uma das respostas que queria: que somos todos, de certa forma, brilhantes e inalcançáveis...

quarta-feira, junho 18, 2003

"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade" (Clarice Lispector)
Será que, se aparecer aquela chance de felicidade, eu a agarraria? Se alguém aparecesse com uma passagem para Londres no dia 28 pro festival, ou meu tão sonhado emprego no Taiti, uma viagem só de ida para Portugal, a pessoa dos meus sonhos, eu jogaria tudo para o alto e iria? Estava conversando isso na fila do computador com uma amiga minha. Nós reclamamos, vamos à psicóloga, choramos quando estamos bêbados. Mas realmente tentaríamos ser felizes se nos fosse oferecida a oportunidade? Sinceramente, acho que não. Ficamos lamentando sobre namoros que não deram certo, pessoas que poderiam ser diferentes, a vida ser mais fácil... E deixamos nossa vida passar. Todas as grandes oportunidades passarem. Talvez porque estejamos esperando a pessoa certa, o momento certo. E daí quando vemos já se passaram dois anos, alguns meses, nossos antigos sonhos não fazem sentido. Esperamos que a vida nos avise qual será nosso momento de felicidade suprema e, se não formos avisados, deixaremos passar. Estamos intoxicados por Hollywood e as promessas vagas de fórmulas de felicidade enlatadas; esquecemos que não estamos num filme e na vida real somos nós - e não Deus, destino, acaso, macumba - que construimos, solidificamos e consolidamos nossa felicidade. Não é algo que nos é oferecido, e sim conquistado. Não tomamos os caminhos errados. Acho mesmo que não aprendemos a fazer os certos...

sábado, junho 14, 2003

“Where the streets have no names”
(U2)

Pensar que está atrasado e acordar de sopetão – daí descobrir que é 7:45. Ninguém merece acordar tão cedo em pleno sábado. Anita de carro, na hora, com aquele tanto de fichas. O dia vai ser longo. Eu de co-piloto. A Kelly toda envergonhada. Não, não reparem na bagunça. Ih, você não viu meu quarto. Quantos moram aí? Plano de saúde da funerária? E o Lucas era esquizofrênico. Como assim, não tem o número? Não Anita, eu sei onde estou. Sempre sei. Bom dia dona Sandra. Seu marido teve malária? Teve? Sei... Aquele filho dela tinha uma cara de mala, né? Troca de CD que esse acabou. O Chicago tá ótimo. A gente volta depois do almoço. Eu também não gosto de Jim Carrey. Almoço. Seu Aristides? E a dona Adelita descambando a falar. Não dona Adelita, a casa não ta bagunçada. Ele perdeu o dedo? Fibromialgia? Fisioterapia? Ah, é no NAASS. Tá, a gente anotou. Ela fala mais que o homem da cobra mesmo. Seu Benildo, bom dia, nós viemos fazer uma pesquisa. Uma cara feia. Respostas secas. Entrevista recorde, 10 minutos! Como assim Anita, você perdeu seus óculos de sol?! Não tô afim de bater no seu Benildo de novo, você de desce, o óculos é seu. Tava no meio da rua, ufa! Ninguém na casa do seu Jorge, só aquele cachorro chato. Dona Esmeralda mandando a gente voltar mais tarde por causa do almoço. Ah nem, diabética ainda. Questionários de diabetes são enormes. Cadê o Ademir? Você não sabe responder? Depois nós ligamos. As coisas estão começando a dar errado. Anita, eu tenho certeza onde estamos, já falei que eu sempre sei. A culpa nunca é minha. As menininhas indo pra festa junina. O motoqueiro nos xingando, como assim você não enxergou?! Com a Ana Cláudia foi rápido. Formada em Serviço Social? Minha mãe também! Calma Anita, eu sei. Acho que estamos andando em círculos. À esquerda. Não, tenta à direita. Deu vontade de tomar sorvete, daqueles de taça, escorrendo... Contorna a praça. Onde é o número 60? Não Dona Maria, não tá uma bagunça. Ele cata lixo na rua? A gente vê um psiquiatra. Úlcera? Dor nas costas? Seu Farley, a gente anota dos dentistas. Não, não precisa de um café, nós estamos com pressa. Aqui não Anita, vamos tomar sorvete quando terminarmos. Chocolate a 39 centavos? Então pára! Lá se foi R$1,50. A gente andando em círculos. Troca de CD de novo, U2 tá bom demais. Lá na casa da Dona Esmeralda de novo. Diabética, mas até que era simpática. Autista? Valeu pela água Dona Valéria. Anita sonhando com pão de queijo e eu indo junto. Oi seu Jorge! Kardecista? Tá controlando a pressão?Alguma deficiência na família? Tem certeza? Ele é Down. Anita com aquele olhar de: “eu não te disse?”. Acabamos, hora de tomar sorvete. Enorme. Com maracujá. A cobertura endurecendo no fundo do copo. No supermercado comprando minha janta. 6 fatias de presunto. Tinha uma torta de morango no meio do caminho. Não fala de novo. Vamos jantar torta de morango então. Voltando, a Lua Cheia. Vendo São Jorge na Lua. Fechando as fichas e fazendo um post conjunto. A torta nem tava tão boa assim. Fim de dia, cansativo, surpreendente e hiperglicêmico.

quinta-feira, junho 12, 2003

"Yesterday I got so old
I felt like I could die
Yesterday I got so old
it made me want to cry
Yesterday I got so scared
I shivered like a child"
(In between days - The Cure)

Sobrevivi. Eu quase "quase morri" há 21 horas atrás. Tudo começou com um eletrocardiograma experimental, eu lá de cobaia enquanto a classe inteira assistia aquelas linhas esquisitas que apareciam na tela verde. O professor me fitando com uma cara séria. Várias ondas anormais. Meu coração, tão tosco, tão pobre, não sabia bater direito: batia devagar demais. Intermitente. Vagaroso. E eu não sabia.

Tudo tinha uma explicação técnica: uma onda P intermitente, uma onda R' presente, suspeita de falha no sistema de condução. Ramo direito. Me encaminharam para o hospital para refazer o eletrocardiograma, num aparelho mais moderno. Tudo acontecia tão rápido, quando vi estava nos corredores brancos do hospital. Eu e meu coração descompassado. E fazia tanto sentido... Eu era assim como meu coração: descompassado. Intermitente. Vagaroso. Sempre fui. E isso eu sabia.

Deitei na maca, a médica colocava os eletrodos. Perna direita, perna esquerda, braço direito, braço esquerdo, tórax. Me senti abandonado e esquecido. Hospitais não deveriam ser brancos; branco é cor de esquecimento. Tum-tum-tum, era o exame começando. A agulha nos traçados irregulares. Eu escutava minha respiração, meus batimentos, uma maca correndo ao fundo. A gente se preocupa com tanta coisa idiota para acabarmos numa maca, com mil fios, como se esperássemos uma sentença. Sentença de vida, sentença de morte. Essa mania idiota de julgamento. Essa mania idiota de nos condenarmos. Isso eu já sabia.

Ela me olhou com cara séria. Minhas ondas P quase sumiam. Meus batimentos chegavam, subitamente, a 50 por minuto. Problemas nas precordiais, ondas profundas demais. Quase se juntavam. Problemas demais. Sim, eu não era perfeito, nunca fui. Tinha um coração imperfeito. Eu era imperfeito demais, meus passos, minhas palavras. Aqueles lençóis brancos. Estava só, como estava só. Sempre soube.

A médica repassou o exame a um cardiologista especialista no problema que eu parecia apresentar. Era um médico pequeno, baixo, bem jovem. Pós-Graduado na UNIFESP. Esses nossos sonhos que um dia alcançaremos. Ele me salvou. Não tenho coração normal, mas não tenho coração imperfeito. Um coração sui generis, de atleta. Sorri. Hipersensibilidade parassimpática, essa era a resposta para o eletrocardiograma anormal. É um coração protegido contra as adversidades, que não precisa bater muito para suprir meu corpo. Um coração forte. Calejado, mas forte. Devagar, mas forte. Descompassado, mas forte. Vagaroso, mas forte. Imperfeito, mas forte.

E tudo é tão irônico, tão irônico. Porque toda onda me arrebenta, todo vento me enverga. E eu, pasmem, sou forte. Precisei de um quase problema cardíaco e um eletrocardiograma para perceber que lá no fundo, aonde não vejo e menos imagino, sou forte. Na bomba que me mantém vivo. E isso eu nem de longe imaginava...

terça-feira, junho 10, 2003

"And the band plays on"
(Randy Shilds)

Se um dia eu estiver prestes a cair, você me ajudaria? Porque esta é uma pergunta perigosa e complexa: não sei se você saberia me dizer a diferença entre aparar uma lágrima e suportar um sorriso. Porque escolhemos caminhos tão errados sem sermos errados e tão sozinhos nunca estando completamente sós. Você conseguiria distinguir este meu olhar de perdição dentre todos esses que possuo? Você ficaria até o final da melhor festa para apagar as luzes, abaixar o som, guardar as cadeiras, sem esperar nada em troca, sem esperar nada de mim além desse velho sorriso ensolarado de complacência? Porque o mundo é tão injusto, as pessoas são tão estranhas, estamos tão afogados em nosso próprio desespero... Você me ajudaria? Você me salvaria dos meus medos mesmo não sendo mutante, mesmo tendo os mesmos medos que eu? Você me salvaria? Somos tão identicos, vivemos as mesmas vidas de plástico pré-moldadas... Você me tiraria daqui, porque estou morrendo, todo dia, toda hora que passa... Você me tiraria? Mesmo assim, mesmo sabendo que a minha carne é a tua carne, minha alma é a tua alma, que o veneno que me mata dia-a-dia pode te matar com a mesma facilidade, ainda assim você me salvaria? Você veria o meu sangue gotejar do meu pulso para um cálice, naquela impaciência viva de gota de sangue, até que me esgotasse a vida, sem fazer nada? Nada? Você me salvaria?

Você me ajudaria a entender a maior crueldade da vida: porque ela sempre continua? Apesar de nós. Acima de nós. Acima de tudo. E a vida continua...

(esse post foi feito "em conjunto" com o blog da Anita, a mesma frase de início. Igual quando os canais passam o mesmo programa ao mesmo tempo, só que com apresentadores diferentes. Eu já falei pra ela parar de escrever, porque o blog dela já tá ficando melhor que o meu. Daqui a pouco, quem para de escrever sou eu - rs)

domingo, junho 08, 2003

É isso, grandes expectativas, que acabam com tudo o que a gente faz, ou sonha, ou espera. Porque esperamos os momentos anunciados de nossa vida com tanta esperança de felicidade irresponsável que esquecemos todos os fatores que conspiram contra nós. E quando chega nossa hora de estrela, o clímax do clímax, somos diluídos em copos de vodka e palavras desnecessárias.

domingo, junho 01, 2003

"Soy un perdedor
I'm a loser baby, so why don't you kill me?"
(Loser - Beck)

Você diz que me ama, me diz coisas lindas, falamos sobre passado... É, já faz quase um ano, não? E você me destrói, de uma maneira tão sutil e simples que eu fico sem entender. Ou melhor, confirmo minhas teses murphianas, confirmo que vim ao mundo para perder. Você me diz, você é especial e eu acredito. Acredito tanto que você consegue, em alguns poucos minutos, me levar do céu ao inferno e tranformar todas as coisas doces que me dissera há pouco como condenação eterna a minha condição de refém do destino. E eu sou um idiota, deveria ter me levantado e te deixado falando com as estrelas. Mas eu sou um perdedor, eu sempre escuto até as últimas palavras. Eu sempre viro meu copo de veneno até a última gota. Falta-me coragem, falta-me confiança, falta-me quase tudo. Sou um esboço de qualquer coisa que ficou pelo caminho. Você me pede uma segunda chance, eu nego. Não por você, mas por mim. Você me fez lembrar meu xará colombiano, García Márquez: aqueles que são condenados à solidão nunca merecem uma segunda chance sobre a terra...

sexta-feira, maio 23, 2003

... mas eu fiquei lembrando do seu sorriso enigmático nas escadas, na escuridão de casa abandonadas. Talvez você nunca tenha visto meus olhos cítricos quando te fitava. Acho que te pedia socorro. E enquanto escrevo essas linhas tortas, o mundo conspira, o mundo continua a girar. Sabe, já deixei de acreditar em acaso, muito apesar tenho toda uma teoria própria de "acasos convergentes". Isso não vem ao caso. Ando reduzindo tudo a uma vida de piloto-automático, cinza. É estranho que estudo o automatismo do corpo, toda essa nossa complexa engenharia. Tudo obedecendo ordens pré-estabelecidas, físicas, químicas, matebólicas. Tudo nesse mundo é simétrico e ordenado. Talvez seja por isso, só por isso, que quero jogar minha vida no vento e colher os frutos do caos, como se os planetas saíssem de sua trilha galáctica e colidissem como bolas de bilhar, interminavelmente...

terça-feira, maio 20, 2003

Talvez se você me visse no escuro, não me reconheceria. Meus dois olhos estão naquela tigela, sobre a mesa. Sou eu quem está no escuro. Você estranharia este meu toque de mármore, liso e gelado. Se você acendesse as luzes, veria uma sala inteira de mármore. Mas a luz, essa luz, estraga tudo. Sempre estragou. Por isso quebrei as lâmpadas e escondi os candelabros. Você não me escutaria se soubesse dos meus olhos, a tigela, essa história toda. Foi necessário? É necessário mesmo caminhar no escuro, tropeçar nos móveis, em meu mundo. É bom perder o controle de seu mundo vezenquando. Só vez em quando. Quem não tem olhos não chora. E eu ainda não aprendi a chorar. E ainda que você tivesse arrancado meus olhos, ou feito tudo, tudo, tudo! Não adiantaria. Me basta escutar sua respiração ofegante, hesitante, distante, por trás da escuridão.

Se alguém ainda disser: "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera", ou algo assim, não me importo. Não posso ver. Meus olhos estão ali, naquela tigela de mármore. Antes fosse ela de cristal.

sexta-feira, maio 09, 2003

Queria saber de você, que sabe tudo de mim, que me conhece como a palma de sua mão, que jogo idiota é esse que nos enfiamos, porque nos submetemos a essas ciladas idiotas que a vida nos prega e ficamos imensamente confusos apesar de sabermos que viver é nada mais que contornar ironias. Queria saber de você, que me entende com o olhar, porque todos os caminhos que tomamos são tortos, porque não há a possibilidade do caminho mais curto e a única maneira de viver sem tantos atropelos é simplesmente não viver, entregar a própria vida a maré de situações e se deixar levar por ela. Queria saber de você, neste escuro de becos, porque os becos são escuros, porque não podemos caminhar em dias ensolarados enxergando os caminhos que escolhemos, sem esbarrar nos carros, sem assustar com os transeuntes, sem tropeçar nos baldes de lixo, sem adivinhar o que vem ou o que vai. Queria saber de você, que completa as minhas frases, que completasse as reticências nos discursos, as palavras que foram borradas na chuva, que me dissesse palavras sábias, sérias e limpas com a placidez de um sorriso e me acalmasse, me passando a certeza que "tudo vai terminar bem" mesmo quando eu tenho eu acho completamente o contrário. Queria saber de você, que sabe tudo de mim, que me guiasse nesses dias álgidos de lua crescente, no silêncio cristalino dessas madrugadas de outono, nessa incerteza de fatos que me vi imerso. Queria saber, ah como eu queria, quanto tempo, quanto tempo demorará para você mandar alguém me salvar.

sábado, abril 05, 2003

Hoje me lembrei de nós debaixo da pia. Era noite, eu estava encharcado e completamente bêbado. Você olhou minha cara triste e não entendeu. Não que eu quisesse que minha tristeza alcólica tivesse sido entendida. Acho que estamos condenados a essa nossa tristeza como se fosse uma sina.

Lembrei-me de um filme, eu bebendo muito por causa de um amor não correspondido. Depois do filme, tranquei-me no quarto com uma quase-amiga e chorei, ah sim, aí eu chorei toda a minha tristeza por 30 minutos seguidos. Ninguém entendeu quando abriram a porta e me viram com a cara inchada e desfeita. Eu, tão feliz, que a uma hora atrás estava conversando animadamente na mesa de um rodízio de pizzas. Se você tivesse me visto este dia, talvez teria compreendido um pouco de mim, um pouco de você, um pouco dessa nossa insistencia em tentar compreender todas as coisas do mundo. As melhores palavras sempre são suas, e ainda você reclama que não tem o que falar: "essa vida besta que a gente leva nos sufuca, porque olhamos para nós e sabemos, só sabe