segunda-feira, julho 20, 2015

Fórceps

A gente tenta nascer de novo, mas se esquece o quão dolorido é o trabalho do processo.

sábado, julho 04, 2015

Dias tristes, noites claras - cantarolo enquanto atravesso a rua de garoa fina e gelada, procurando os bolsos para tilintar as chaves só pelo ato automático de não ter as mãos vazias enquanto agosto custa a chegar. A mera repetição do automatismo, salvação de outrora para esses largos espaços que vezenquando abrem prenunciando os ventos de mudança, parece que não dá o lastro necessário para evitar o passo ébrio de cá pra lá. Desapropriar-se talvez seja o caminho vaticinado pelas cartas que vem do lá do Atlântico afora e concordo em assentimento mudo. Como é perversa a juventude do meu coração, cantava eu há poucos meses com um distanciamento ilusório e, das poucas coisas boas que se pode tirar, é que ainda é bom perceber-se jovem.

quinta-feira, dezembro 25, 2014

Daquelas noites que seriam curtas demais para se dormir: existe uma inquietação pequeno-burguesa, só porque atravessei a cidade bêbado enquanto dirigia - ah, neste século isso virou deveras emocionante - enquanto repasso estes pequenos espaços que se abrem. Desde quem cheirava Drummond e nunca duvidou que minhas mãos eram hábeis e meus pés bem fincados no chão. Ou dos pés descalços na areia molhada da ressaca do mar, vestígios do ciclone extra-tropical. Daquela segunda enquanto poderíamos cantar "será que esse bar já vai fechar" só alimentados na voragem de querer o outro. Desce Miguel Torga encostado naquelas paredes sujas de calabouço, enquanto ele se mistura com uma daquelas citações que voltam como murro: "Pareço uma dessas árvores que se transplantam que têm má saúde do país novo, mas que morrem se voltam à terra natal". Provavelmente Retorno de Saturno você vaticinaria naquele sofá multicor, quando de Paraíso só havia o bairro, enquanto aprendia a fumar naquela janela de madeira aberta porque o calor é insustentável. E se debruçasse, olhar para cima, até poderia ver você postada noutra sacada, noutra estação, enquanto dedilhava o violão me dedicando aquela antiga canção, despretenciosamente sensual. Volto à selva e penso que poderia ter ido para o Rio. Volto ao cerrado e penso que poderia ter havido mais leveza e lamento que leveza é algo que só se ganha quando se abre o mundo. De cerveja e do conhaque (desvio pensando que havia aquela Lua), do vinho vagabundo até o que tilinta neste exato momento numa xícara de chá pela ausência de copos limpos nesta casa. E que abandonar a fragilidade da vitimização talvez seja das coisas mais difíceis para se exercitar no ano que se vem. Sinto falta da minha prosa que se derramava, sinto falta dos meus melhores textos. Sinto falta daqueles espaços longos que se abriam entre entrar no ônibus e chegar em casa sem ceder à tentação de acompanhar a sociedade da super-informação. Das árvores do meu bairro quase sem nome. Seguir noite adentro, pobríssimo, pela possibilidade do que poderia acontecer. Um Natal sem desconforto.

sexta-feira, agosto 01, 2014

Enquanto eles dormem

Deste tipo de domingo que deságua numa insônia inútil e persistente de segunda-feira, quando o barulho do ventilador já passou da conta de mil mesmo que eu já tenha pensado no imposto de renda que se há para fazer, o lixo para descer vinte e dois andares, recitar trinta pai-nossos sem fé naquele gesto automático que um dia aprendi quando tinha sete anos da professora com cheiro de naftalina. E  enquanto penso na geladeira sem nada além de dois litros d’água e a cerveja que sobrou da praia passada, o maço de cigarro pela metade que eu deveria jogar pela janela, minha nudez noturna tão desnecessária destes hábitos reflexos que tenho: como às vezes, por exemplo, mexo nas chaves entre os dedos enquanto o elevador não chega na esperança hesitante da pausa e do sorriso cinco segundos antes de girar o ferrolho e dar de cara com. 
E então levanto sem calçar os chinelos, checo se o chuveiro está tão fechado e abro os dedos para escorar na parede fria mesmo que já saiba de cor o caos organizado que se instalou semana a dentro, desviando da cadeira preta que deveria estar perto da mesa e agora é cabide, o cinzeiro cheio, o prato no chão, o vaso que há dias que não vê água, as contas em atraso por pura negligência estratégica, até chegar à cozinha e dar meia-volta na preguiça que é a dedicação a essas pequenas obrigações. Talvez pôr Sinatra na vitrola ou abrir aquele Dimple que há tempos repousa pela metade numa solidão elegante ou finalmente experimentar aquele vestido preto com o velho colar de pérolas de minha avó enquanto telefono para semi-conhecidos, destes que já dividimos leitos e noites para dizer coisas sutis, ferocidades, ou banalidades, ou atrocidades, ou coisas tão baixas como um atestado de inabilidade crônica com essa coisa de jantar bem limpinho de terça fingindo certa cerimônia porém recheado de desejos e entrelinhas. Ou talvez nada fazer e separar os livros que deveria doar, os discos em ordem alfabética, as roupas por tom, os amantes por sentimentos provocados, as ideias por matizes políticas, pensando que dentro dessa madrugada vagarosa ninguém da cidade pode me incomodar. 
 
Enquanto eles dormem, meu universo é infinito. Enquanto eles dormem, fico aqui tamborilando qualquer coisa até quando o sono finalmente vir.

segunda-feira, junho 30, 2014

De um distante 2009, testimonial (desses que não se pode aceitar) de uma amiga, que foi das coisas mais fantásticas que recebi na vida:

"Talvez, se fosse um pouco antes, eu te diria pra aguentar um pouco, que o amor vence essas coisas. Eu te diria, o que são uns poucos quilometros? Eu seria a primeira pessoa a te dizer, insiste que vale a pena. Mas nos ultimos meses, quase um ano já, eu venho pensando que talvez isso de insistir no que não está, obviamente, dando certo, não seja a melhor escolha. Nossa alma romantica ocidental não sabe deixar ninguém ir, fica acumulando relacionamentos eternamente, juntando feridas a outras. Na verdade, hoje estou pensando assim, com mais leveza. As coisas dão certo quando tem que dar. Cabe a nós ficar de olho na estrada e deixar a vida nos levar um pouco, sem muita afobação. Foi muita coragem sua, e estou orgulhosissima. Que entendo quanto custou. Segue firme, o destino se encarrega de nós, enquanto andarmos distraídos"

segunda-feira, novembro 25, 2013

Vi uma entrevista lindíssima do Fernando Sabino no Roda Viva. Falou muito sobre "Encontro Marcado" (que li, gostei, mas o que marcou em minha vida mesmo foi a novela que leva o nome deste espaço) e, também, falou sobre o ato de escrever.

O ponto que mais gostei foi quando disse que o escritor de verdade escreve, principalmente, sobre coisas que nunca viu e não sabe.

Por essas e outras, a conclusão que vem me acompanhando nestes últimos dois anos: sim, falhei.

terça-feira, outubro 15, 2013

Munique

A beleza da ordem - e, o pouco que quebrava, era o sorriso e o fraternal povo da Bavária.

Muito pouco ficou, além desse funcionar exato de engrenagens.